Netbooks e iPads: A crônica de uma batalha que pode nem vir a ocorrer

Computerworld/EUA
10 de setembro - 08h50
Há quem diga que, com a chegada dos tablets, os netbooks caminham para a extinção. Mas uma análise do mercado sugere que pode não ser bem assim.

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O termo “disruptivo”, bastante comum no jornalismo de tecnologia, é usado tipicamente na descrição de algo que faz as pessoas mudarem seus hábitos, fornecendo a elas novas formas de fazer coisas antigas e também permitindo novas tarefas.

Além de resistir bem ao tempo, a expressão se encaixa perfeitamente quando tratamos de dois produtos arrebatadores da computação pessoal: o iPad e o netbook.

Tem havido muito debate sobre se o iPad tomará o lugar do netbook – ou se, por sua vez, ambos continuarão comendo fatias de mercado dos desktops e laptops convencionais.

Os netbooks já formam um mercado próprio, separado dos outros PCs. Mas o iPad tem uma longo caminho a percorrer antes que se torne um matador de netbooks – e tal caminho passa necessariamente por criar um espaço próprio para si.

O velho, de novo
De certa forma, nem os netbooks nem os iPads são novos. Laptops pequenos e tablets já estavam disponíveis bem antes do lançamento desses novos aparelhos. Mas o que fez toda a diferença foi o grau de adequação e o polimento aplicado a esses produtos.

Por exemplo, a tecnologia atual tornou possível oferecer recursos de comunicação muito melhores que os de antes. A popularização das redes sem fio de alta velocidade, tanto por Wi-Fi como por redes de celular, tornou muito mais fácil levar esses aparelhos por aí sem ser limitado pelo que está realmente no disco rígido.

Além disso, para muitos usuários, os PCs desktop estão perdendo o lugar para laptops de alto desempenho. A cada ano que passa, o abismo de desempenho entre uma máquina “pequena” e uma “grande” diminui mais e mais. E, como a força bruta tem cada vez menos importância, a conveniência e a conectividade importam bem mais.

Ascensão e queda dos netbooks
Quando os netbooks apareceram no fim de 2007 – um mercado nascido a partir do lançamento do Eee PC 701, da Asus -, as vendas desses aparelhos cresceram 872%, de acordo com o analista Mikako Kitagawa, da Gartner. Por um tempo, pareceu que as vendas de PCs comuns iriam se diluir em netbooks e que o primeiro sairia perdendo.

Mas as coisas ficaram mais mornas desde então. No primeiro trimestre de 2010, os netbooks e minilaptops representaram 18,4% das vendas globais de PCs. Pouco antes do lançamento do iPad, Cliff Edwards, da Bloomberg Businessweek, escreveu que a explosão das vendas de netbooks em 2008 havia sido alimentada pela recessão, mas que os consumidores “se desapontaram com teclados pequenos, sistemas operacionais desconhecidos e a pouca variedade de programas que poderiam ser executados nessas máquinas”. (Este comentário foi provavelmente dirigido aos muitos exemplares da primeira geração de netbooks que vinham com Linux.) “Depois de uma ascensão admirável”, continuou, “a popularidade dos netbooks podem já ter atingido seu pico”.

E surge o iPad
Não há como negar que o iPad tem, mais que qualquer outro, o poder de chamar a atenção. É um definidor de tendências. Mesmo antes que o iPad fosse lançado, surgiram especulações de que produtos concorrentes pudessem estar a caminho.

Em contraste com os netbooks, o iPad parece passar por um crescimento estável e constante em sua popularidade, da mesma forma que muitos outros aparelhos da Apple – que se tornaram líderes em seus segmentos com tal força que parece impossível desbancá-los.

O iPhone e o iPod podem não ser os maiores em venda em seus respectivos mercados, mas contam com uma lealdade de marca incrível. Fãs de qualquer versão de um desses aparelhos quase sempre compram a próxima – uma tendência que parece continuar quando uma nova edição do iPad for lançada.

Embora as vendas iniciais tenham sido impressionantes, não está claro quantos usuários não-Apple escolherão o iPad. Um ponto de referência possível é quantos produtos auxiliares da Apple – o iPhone e o iPod – foram usados por pessoas que não eram usuários de Mac.

No Household Penetration Study 2009 do NPD Group, 36% dos domicílios que tinham um PC tinham um iPod – o que, dada a porcentagem geral de Macs em comparação com computadores de outras marcas, significa que há grandes chances de existirem um bom número de usuários de PCs Windows com iPods.

Além disso, de acordo com a analista Ezra Gottheil, da Technology Business Research, o número de aparelhos Apple que não são Macs supera em 5,6 vezes o número de Macs – mesmo levando em consideração aqueles usuários de Mac que podem possuir mais que um aparelho não-Mac, esse dado inclui um bom número de usuários de PC.

Dito isso, aqueles com um investimento existente em um PC com Windows e seus softwares podem não optar pelo iPad quando podem ter um laptop completo pelo mesmo preço ou até por menos. Ou podem. Como Gottheil afirma, “a escolha de um aparelho depende mais do uso que do usuário”.

Em outras palavras, não é sempre possível prever qual uso terá um segundo computador com base no que eles já usam.

Se os usuários de Windows escolherão ou não o iPad, será ainda mais complicado pela introdução iminente de tablets equipados com sistemas Android e Windows 7. É difícil dizer que impacto terão, especialmente porque não está claro como eles enfrentarão seu maior rival comum, mas há poucas dúvidas de que o iPad definiu um exemplo a seguir, e possivelmente superar.

Os iPads vão substituir os netbooks?
Poucos analistas acreditam que o iPad vai canibalizar as vendas de netbooks, laptops e desktops de forma significativa. “O iPod Touch foi provavelmente a maior vítima das vendas do iPad”, diz Gottheil. “A canibalização de outros aparelhos, incluindo smartphones e netbooks, aumentará à medida que o mercado migre dos early adopters, que tendem a comprar tudo que é lançado, para os compradores que buscam preencher necessidades específicas. À medida que tablets novos e mais baratos cheguem ao mercado, eles darão uma mordida maior no mercado de netbooks.”

O analista Paul Thurrott, que acompanha há tempos o mercado Windows, chegou a uma conclusão parecida em seu blog, em maio. Ele citou um artigo do Wall Street Journal que afirmou que os netbooks perderam um pouco de seu impulso no ano passado por causa de laptops mais poderosos e leves, que são frequentemente utilizados como auxiliares e substitutos de máquinas desktop.

Em resumo, as mudanças no mercado de netbooks não podem ser atribuídas totalmente ao iPad. Há sintomas das limitações naturais de mercado para esses aparelhos. Poucas pessoas esperavam que o crescimento original dos netbooks fosse se sustentar (como, de fato, não ocorreu).

Da mesma forma, ninguém espera que o mercado de laptops e desktops seja subjugado nem pelos netbooks, nem por tablets.

Resta a possibilidade de que as vendas futuras (não as atuais) de netbooks estejam em risco. Se no fim do ano as vendas do iPad atingirem 6 milhões (as vendas estão atualmente superando 3 milhões, e subindo), isso significaria um décimo das vendas projetadas para netbooks no ano.

De novo, não está claro que tais vendas ocorreriam às custas dos netbooks; independentemente dos hábitos de compra do usuário, o mercado de netbook permanece com uma maior ordem de magnitude. Mas a Apple está menos preocupada em liderar todo um mercado; o que ela quer mesmo é vender uma marca ardentemente desejada.

Complementares, não substitutos
Os netbooks e o iPad têm sido descritos tipicamente como aparelhos “complementares”. Eles geralmente não substituem um computador principal, mas são um adjunto. Eles permitem às pessoas efetuaram tarefas básicas de computação e conectividade quando estão fora de casa ou do trabalho, sem carregar peso desnecessário.

Contudo, a capacidade média dos netbooks tem aumentado dramaticamente desde sua introdução – e, com ela, a forma com que netbooks complementam seus parceiros desktops (ou notebooks maiores).

Com os netbooks, a principal restrição não está no poder de processamento ou no armazenamento, mas no tamanho da tela. Muitas pessoas não os usam para trabalhos que exigem uma tela maior ou várias telas. O fato é que, enquanto estão longe de seus computadores principais, eles têm acesso à ampla maioria de programas que eles normalmente usam mais que compensa.

O mix de aplicações para o iPad também reflete sua natureza complementar. Enquanto muitos dos top apps do iPad são games ou leitores e tocadores de um tipo ou outro – Netflix, iBooks, USA Today – três dos apps mais baixados para o iPad, em abril de 2010, foram apps de produtividade: Pages, Keynote e Numbers, todos da suíte iWork da Apple.

É provável que os usuários do iPad não estejam baixando esses programas para criar conteúdo tanto quanto para acessar e editar conteúdo existente – por exemplo, para levar uma apresentação para viagem.

Dito isso, quando as pessoas têm um laptop como seu PC primário – algo que tem ocorrido com frequência – eles podem optar por pular um aparelho auxiliar inteiramente, especialmente se o que eles já têm é portátil o suficiente para suas necessidades.

Criar e consumir
“Forma segue função” é um velho ditado sobre design. Mas o inverso também é verdadeiro: função segue forma. Isso se aplica especialmente ao iPad, de acordo com alguns. “O iPad não é projetado para criação de conteúdo, mas sim para consumo de conteúdo”, alega Kitagawa.

Mas será que os “consumidores” optariam pelo iPad e os “produtores” por netbooks, por causa de seus respectivos designs? É uma teoria tentadora, já que seria bem fácil prever quem iria querer o que.

O problema dessa ideia é que “produtores” e “consumidores” não são categorias estáticas. As pessoas trafegam livremente entre os dois papéis todo o tempo, mesmo no curso de suas atividades.

Um programador com uma Workstation de duas ou três telas pode optar pelo iPad como seu aparelho secundário porque ele não quer mastigar código quando está distante de seu PC. Da mesma forma, alguém que lê e-books fora de casa pode optar por um netbook porque o teclado permite fazer anotações ou escrever críticas do livro.

E, apesar de o iPad não permitir criação de conteúdo da mesma forma que um netbook, ela está fazendo novos tipos de criação de conteúdos possível. Pense no SketchBook Pro da Autodesk, um app de desenho que permite aos usuários criar arte com qualidade admirável apenas com os dedos – algo que só é possível na tela touch screen do iPad.

Em outras palavras, o argumento “produtor versus consumidor” que tem sido tão popular não deixa de ser um tipo de previsão falha.

Todos os apps, alguns apps
Um grande contraste entre o iPad e os netbooks geralmente tem a ver com onde eles conseguem seus apps. Os netbooks com Windows podem rodar quase todas as aplicações Windows; eles são abertos. O iPad, com sua App Store, é fechado em nome da criação de uma experiência de uso altamente gerenciada e mais leve.

Como os usuários reagem a isso parece envolver como eles veem o aparelho de modo geral. Se eles veem o iPad como uma versão maior do, digamos, iPhone (que sempre contou com sua própria coleção de app proprietário), isso é menos sujeito a críticas. Se eles o veem como um equivalente ao laptop e consequentemente esperam algum acesso a seus apps existentes, será mais fácil se aborrecer.

Baseado na rota que o iPad tomou até agora, parece provável que, em vez de imitar os netbooks, laptops ou desktops, ele continuará a existir em sua própria categoria e será moldado pelos tipos de aplicações que estão sendo desenvolvidas especificamente para ele.

Para onde iremos?
Agora que os netbooks encontraram seu nicho como aparelhos de viagem em vez de substitutos de PC, e que o iPad já é um definidor de tendências, o que virá a seguir?

Por um lado, as vendas de desktops não estão sendo afetadas por quaisquer dessas tendências. O mais provável é que as vendas de netbooks e de iPads possam ajudar o mercado de PCs primários no longo prazo.

Gottheil descreve dessa forma: “Os netbooks afetam algumas vendas de PCs mais baratos para compradores sensíveis a preço, especialmente em mercados emergentes. Mas eles também expandem o mercado de PCs de baixo custo por reduzir os preços de entrada, assim o efeito liquido nos PCs primários é positivo. O mesmo será verdade quando os tablets mais baratos entrarem no mercado. Aparelhos portáteis úteis não-PC irão melhorar as vendas de desktops, à medida que os compradores escolham colocar lado a lado um aparelho estacionário maior e um portátil.”

Pode levar dois ou mais anos para que o mercado de tablet alcance um preço competitivo, mas o efeito nos preços de PC já é claro. Eles forçarão a baixar ainda mais. O que é mais difícil de prever é como os modelos de dois ou mais aparelhos irão superar aqueles que compram um aparelho portátil como sua única máquina, relegando o desktop completo – o fator de forma PC padrão – a um nicho entre muitos.

A ameaça mais disruptiva provocada pelo iPad é que ele ainda está no processo de descobrir e cultivar seu nicho. A presença estabelecida de netbooks – e a introdução de pranchetas no estilo do iPad – não permitirá que essa disrupção continue sem mudanças.

O que realmente tem chacoalhado o mercado de computadores – e que inclui a presença continuada de netbooks – é como a diversidade de computadores que há lá fora se tornou tão ampla que nenhum fator de forma é o padrão. Netbooks não serão os bestsellers de outrora, mas só porque eles serão um fator de forma entre vários – com cada tipo carregando potencialmente o título de computador primário para uma diferente classe de usuário. Um tamanho único não tem mais que vestir a todos.

(Serdar Yegulalp)