Câmeras digitais realçam e alteram realidade na hora do clique
Mirar e fotografar. A fórmula popularizada pelas câmeras digitais voltadas a quem não quer ter trabalho com enquadramento, saturação de luz, foco e posicionamento caminha para ganhar um novo verbo: corrigir.
A presença de ferramentas que fazem edições básicas nos arquivos tirados há segundos já não contempla apenas a remoção de olhos vermelhos em crianças ou o recorte de alguém indesejado na sua bela fotografia.
> Fotos: veja como realidade é alterada
Novas tecnologias dentro de câmeras permitem deixar uma pessoa mais magra e alterar imperfeições, como espinhas e manchas, sem que o usuário tenha que se perder entre filtros de softwares gráficos no PC.
Ficou com a impressão de estar gorda numa fotografia? Uma espinha recém-surgida é o principal destaque na foto? O belo retrato do seu cachorro perdeu sua graça pelos olhos vermelhos do animal? A foto do prato que você cozinhou durante o fim de semana ficou mais opaca do que seu sabor sugeria?
De molduras a edições profissionais
O que era apenas diversão, como a inclusão de molduras coloridas e engraçadas ou mesmo telas sensíveis a toque onde o fotógrafo poderia destacar fotografias, se transformou em um meio de não apenas corrigir, mas melhorar fotos direto na câmera.
O principal exemplo desta tendência vem da HP. As linhas PhotoSmart M e R da fabricante possuem câmeras que, logo após o disparo, carregam tecnologias que tratam imagem com o apertar de alguns botões.
Dentro da função Design Gallery, a paranóia feminina sobre sua freqüente obesidade ganha um bom aliado com a ferramenta chamada de “Slimming” (emagrecimento, em inglês).
Após o disparo, o usuário aplicar um filtro que alonga o eixo vertical do retrato para dar a impressão de que os fotografados emagreceram, afinando suas silhuetas e aumentando suas alturas.
++++
O algoritmo faz um bom trabalho em “emagrecer” os fotografados com um mínimo de distorção no ambiente, mas certos exemplos oferecidos pela HP para ilustrar a novidade soam exageradamente falsos.
As novas tecnologias podem também, ironicamente, remediar detalhes indesejáveis que a crescente resolução das câmeras pessoais pode destacar, como imperfeições de pele em um retrato de rosto.
Por meio do comando “Touch Up”, espinhas, cravos, pintas e manchas de pele, segundo destaca a HP, são liquidados e substituídos pelo tom da pele do fotografado após o usuário escolher os pontos por meio de um cursor pela tela LCD da câmera.
Ainda que não seja padrão na maioria das câmeras, tais ferramentas de edição indicam uma provável evolução para as já tão comuns funções que melhoram a resolução de cores das fotos batidas e usam algoritmos para compensar a falta de preparo ou talento do fotógrafo casual.
Os exemplos não são poucos. Linhas fotográficas de fabricantes como Canon, Kodak, Nikon, Fuji, Mitsuca e Sony possuem filtros próprios que filtram a luz e a velocidade do obturador para melhorar a qualidade de fotografias em situações específicas.
A especialização dos modos de cena, por exemplo, chega a um ponto semiprofissional de tão pontual que é, como os modos para fotografar comida oferecidos por câmeras da Olympus, BenQ e Pentax.
Os modelos Stylus 500, da Olympus, Optio S5i, da Pentax, e T700, da BenQ, trazem modos que realçam cor e textura incluindo maior saturação na fotografia para que os alimentos pareçam mais apetitosos na imagem - a descrição é da própria Olympus.
Animais também são o alvo de funções específicas: enquanto a HP permite a remoção de olhos coloridos de fotografias de gatos e cães, a Pentax pede que o fotógrafo especifique até a cor da pelagem do seu bicho para definir quais filtros usará no disparo.
++++
Realidade X Ficção
Mesmo que as novas ferramentas de auxílio ao usuário deixem sempre os arquivos originais na câmera junto aos modificados, a presença maciça das ferramentas pode transformar em padrão o que ainda hoje é tratado como exceção.
A facilidade como seu visual pode ser alterado ao gosto do usuário por poucos comandos suscita dúvidas sobre o papel jurídico que fotos forjadas adquirem, além de resvalar na maneira como usuário encara sua própria imagem física.
Por que, ao invés de simplesmente aplicar a ferramenta em toda fotografia batida, uma gordinha insatisfeita com a própria imagem deveria entrar em dieta?
Para Ana Merces Bock, professora de psicologia social na Pontíficia Universidade Católica (PUC) em São Paulo, o acesso às novas tecnologias aumenta o número de referências que temos de nós mesmos, mas também abre brechas a novas patologias.
Com novas tecnologias de edição visual, “pessoas podem facilmente se modificar e assumir personagens, deixando de ter critério de realidade e esquecendo das edições”, explica.
Ana, no entanto, vê câmeras apenas como veículos por onde antigas doenças sociais se manifestam, citando que a causa para problemas do tipo não é a tecnologia disponível para o usuário, mas o padrão de beleza ao qual nos submetemos.
Segundo a psicóloga, a disseminação de tecnologia pode ter impacto na percepção que temos de nossa imagem pelo excesso de comparações físicas que fazemos graças à popularidade de câmeras fotográficas, webcams e celulares que fotografam.
Mais uma vez, a conseqüência só descamba para a patologia quando o indivíduo “esconde a própria imagem atrás do que imagina ser ideal”. Bock defende que não há nada errado em “forjar” a própria imagem para os outros.
“Qualquer um pode ter um corte de cabelo mais moderno ou usar óculos mais finos para passar outra imagem própria. Passa a ser falsificação apenas quando há exigências envolvidas”, determina.
++++
Pelo lado da Justiça, a popularização de câmeras com edições integradas deverá estimular problemas jurídicos, graças à facilidade de falsificações, segundo opinião do advogado especializado em mídia digital Renato Ópice Blum.
“O código penal exige que, para usar fotografias como evidências legais, é necessário anexar o negativo no processo. Como digital não tem negativo, uma fotografia digital não existe como arquivo visual perante a lei”, explica. “Para tentar cancelar uma possível evidência, a perícia precisaria do original”, diz.
Como não há, o juiz tende a diminuir a credibilidade da fotografia ao ser informado pela perícia que a máquina usada para fazer a foto tem uma ferramenta que permite tal edição.
Mesmo crente de que a Justiça se ajustará à facilitação de falsificação de fotos, Blum é cético quanto ao avanço do problema e remete ao uso que cada usuário faz de novas tecnologias.
“Já é possível fazer o mesmo fazer com softwares”, lembra ele, “mas quando o sujeito recebe a ferramenta na câmera, como uma espécie de estimulação indireta, não tenha dúvidas (que haverá problemas)”.
Ana engrossa o coro: “Tem tanta gordinha extremamente satisfeita com a própria aparência. É bom ter inúmeras referência sobre sua própria imagem, mas com a plena consciência de que aquilo não passa de outra realidade”.


