Entrevista: Negroponte e sua cruzada pelo notebook de US$ 100

Daniela Braun, editora do IDG Now!, e Guilherme Felitti, repórter do IDG Now!
12 de abril - 12h15 - Atualizada em 12 de abril - 18h48
São Paulo – O idealizador de laptop barato diz que é hora de parar com a Lei de Moore e que o Linux precisa de uma dieta. Leia nesta entrevista exclusiva para o IDG Now!.

Negroponte_88x66Desde que lançou o projeto de um laptop para fins educacionais cujo preço alvo é 100 dólares, Nicholas Negroponte, um dos fundadores do MIT, de onde se desligou para criar a organização One Laptop Per Child (OLPC), tem colecionado desafetos na indústria de tecnologia.

>Veja fotos do laptop de 100 dólares

O chairman da Microsoft, Bill Gates, criticou o projeto de Negroponte, dizendo que os celulares são os computadores portáteis do futuro. O presidente da Intel, Paul Otellini, apresentou sua versão de PC educacional no Brasil, o Edu-Wise, um laptop que custaria cerca de 400 dólares e rodaria um sistema operacional completo, como o Windows.

>Veja fotos do Edu-Wise, da Intel

Nem mesmo Jonathan Schwartz, presidente da Sun e fervoroso defensor do software livre e das comunidades online, fez um comentário favorável. “Ele devia se focar em acesso livre para todas as crianças e não no equipamento”, disse o executivo.

Há razão para tantos desafetos? Negroponte com seu laptop barato e leve, na verdade, faz um ataque frontal à indústria de tecnologia, que tem no motor da inovação, de softwares com mais e mais recursos e de hardware mais velozes, o seu modelo lucrativo de negócios.

Nesta entrevista exclusiva para o IDG Now!, Negroponte fala dos desafios do projeto e atira até no Linux, no qual diz que precisa de uma “dieta”. Confira

IDG Now! - Como estão as negociações do projeto de laptop de US$ 100 com o governo brasileiro após sua recente visita ao Brasil?
Nicholas Negroponte - O governo brasileiro está revisando um acordo que seria assinado por cinco das oito nações para o lançamento inicial do projeto pela OLPC. Em paralelo, grupos responsáveis por cada país se encontrarão em maio na sede da OLPC, no One Cambridge Center, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), para compartilhar estratégias e métodos, para que não tenhamos que reinventar tudo em todos os lugares.
 
IDG Now! - Qual a importância do Brasil no projeto do notebook de 100 dólares?
Negroponte - A participação do Brasil tem duas razões: o país tem uma comunidade de código aberto muito ativa que vem, em parte, baseado na sua própria cultura. E, segundo, o Brasil é o maior país da América do Sul e escala é importante (para um projeto deste tipo).

IDG Now! - Países interessados no projeto, como o Brasil, têm altos índices de violência e criminalidade. Como os governos interessados podem prevenir que os laptops sejam roubados das crianças?

Negroponte - Existem milhares de carros roubados a cada dia nos Estados Unidos, mas nenhum caminhão dos serviços dos Correios foi roubado. Isto não é pela prioridade do governo. É por que não existe um mercado secundário (para este tipo de produto). Você pode pichar um caminhão dos Correios, mas ele ainda aparecerá como um caminhão dos Correios.

Do mesmo jeito, nosso laptop poderá e terá um visual único. É melhor que você seja um aluno ou um professor para estar usando um. Mesmo que não seja totalmente seguro – afinal, as pessoas roubam da igreja e da Cruz Vermelha -, uma das maneiras de desencorajar roubos é deixar que os pais tentem vender sozinhos os notebooks de seus filhos.

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No (estado norte-americano) Maine, onde nós temos cerca de 50 mil notebooks – são iBooks, da Apple, fáceis de serem revendidos -, eles são desativados automaticamente se o usuário não acessar o servidor da escola após alguns dias. Não tenho informações sobre nenhum roubo na área.

IDG Now! - A configuração dos modelos que serão entregues em 2007 é a mesma da primeira geração anunciada do projeto?
Negroponte - A configuração evolui constantemente. Nosso site é atualizado freqüentemente e quem se interessar no projeto por aproveitar o uso de Wikis.
A maior mudança feita recentemente é que a manivela que fornecia energia por ação humana foi transferida do notebook para o adaptador AC. Isso é importante, porque adaptadores AC vivem no chão e podem ser naturalmente acionados com os pés.

(Nota da redaçao: um adaptador AC fornece energia para o aparelho, como os usados em celulares. No caso dos notebooks, haverá um pedal para fornecer energia ao equipamento, mesmo sem conexões elétricas.)
 
IDG Now! - Como o projeto dará suporte aos notebooks de US$ 100?

Negroponte - Em cada país, haverá um time que dá suporte tanto ao hardware como ao software, além de desenvolver acompanhamento pedagógico. Os custos indiretos para a organização OLPC serão entre 1 e 2 dólares (no máximo) por notebook para a ajuda com as questões técnicas. Questões como a garantia serão negociadas entre a Quanta (fabricante dos notebooks) e o governo de cada país interessado.

IDG Now! - Como a OLPC formará esses times regionais responsáveis em cada país pelo desenvolvimento?
Negroponte - Como é sabido, o código aberto envolve desenvolvimento em comunidade. A localização do produto será feita dentro do próprio país. Nós daremos suporte a esses times e continuaremos a evoluir o software e o conteúdo. Um dos papéis da OLPC será a intercolaboração com os países.

IDG Now! - Atualmente, a lei que regula o mercado de tecnologia contempla a evolução tecnológica – companhias na área têm certeza que venderão e faturarão mais com computadores mais poderosos ou monitores mais amplos. O segredo por trás do projeto do notebook de 100 dólares parece ser a escala – nenhum desenvolvedor, em sã consciência, pensaria em construir um monitor LCD de 7 polegadas se não tivesse a certeza de que o equipamento seria distribuído em larga escala.

Negroponte - A escala merece atenção. Quando você vir e sentir nosso laptop, descobrirá que a tela de 7 polegadas é extraordinariamente boa. A máquina tem um tamanho infantil, é leve e mais parece um livro do que uma pasta de couro. Vejo a Lei de Moore (em que Gordon Moore, co-fundador da Intel, previa que o número de transístores um chip continuaria a dobrar a cada 24 meses) como algo que foi seguida durante esses anos com a adição de algumas funções e novidades. Tudo que estamos dizendo é: PARE. Use a Lei de Moore para fazer aparelhos menos caros para que crianças aprendam com isso.

IDG Now! - O sr. acha que o notebook de 100 dólares vai contra essa lei do mercado tecnológico?
Negroponte - A maioria das organizações com proposta humanitárias atinge apenas o que consegue. Nós estamos em uma posição única para conduzir o mercado, criar novos produtos e mudar estratégias corporativas, e vamos fazer isso.

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IDG Now! - Bill Gates fez recentes críticas ao notebook e à OLPC, especialmente a presença da manivela, a pequena tela LCD e a limitada memória interna, além de dizer que celulares serão os PCs portáteis do futuro. Telefones celulares têm futuro como pequenos computadores pessoais?
Negroponte - Telefones celulares são uma importante parte do mundo digital e se tornarão mais ainda à medida que se tornarem menos uma central de voz e mais uma central de dados. Mas celulares são, por definição, pequenos dispositivos móveis que não servem para leituras. Os livros têm um tamanho padrão por um motivo. O tamanho da tela e o uso do aparelho se relacionam. Atlas tendem a ser maiores que livros, e por aí vai.

As considerações de Bill Gates sobre a manivela foram enganadas. (Fazer o notebook) Funcionar com a energia humana é a chave (para o sucesso). O consumo de energia médio dos laptops de US$ 100 será de 2 Watts. Notebooks convencionais consomem entre 30 e 40 Watts.

Não consegui entender as críticas de Bill pelo tamanho da tela já que ela é do mesmo tamanho, até o ultimo milímetro, à do Origami (computador ultra-móvel que se assemelha a um tablet PC apresentado pela Microsoft durante a CeBit).

IDG Now! - Recentemente, Paul Otellini, CEO da Intel, apresentou no Brasil o projeto de um notebook educacional, chamado Edu-Wise, que custará US$ 400. Você o vê como um competidor?
Negroponte - Nós não competimos. Somos uma organização humanitária que não visa ao lucro e cuja proposta é levar o maior número de notebooks para crianças ao redor do mundo. Quando mais pessoas juntarmos (para ajudar), melhor. Nós realmente desejamos boas vindas à Intel e esperamos que eles encontrem maneiras de baixar ainda mais o preço de US$ 400. Espero que o notebook da OLPC tenha representado um papel inspirador para que eles desenvolvessem este projeto.

IDG Now! - Como um pesquisador de tecnologia, como você a usa diariamente? Você utiliza a tecnologia apenas em horários de trabalho ou tem aparelhos eletrônicos para entretenimento, como MP3 player?
Negroponte - Eu gasto, no mínimo, 10 horas por dia na frente de um notebook. Eu não faço nem recebo ligações por telefone, assisto televisão ou ouço música. E não sugiro essa rotina para os outros.
 
IDG Now! - Durante o LinuxWorld, realizado em Boston , você disse que o notebook precisa de um sistema operacional mais leve. Você acha que o Linux não é leve o suficiente para os notebooks de 100 dólares?
Negroponte - O Linux também precisa entrar numa dieta. Digo isso por que já existem alguns sistemas operacionais leves em Linux para handhelds. Meu ponto no Linux World foi mais geral. É uma tendência natural que qualquer programador de computadores ou designer de sistemas adicione funções e opções (ao sistema operacional em Linux). Nós adicionamos mais e mais códigos. Seria errado que eu sugerisse que apenas o (sistema operacional Windows) XP (da Microsoft) faz isso. Muitos sistemas básicos em Linux se tornaram pesados também, incluindo o Open Office.

Algumas companhias recompensam ou medem o trabalho dos programadores pelo número de linhas de código escritas. Eu tenho uma idéia que talvez possa ajudar a obesidade do software: pague o programador de computadores na proporção pelo número de linhas que podem ser removidas.