Conheça o homo tecnologicus brasileirus
Tupi or not tupi? That´s the question. Afinal, o brasileiro tem uma relação diferente com a tecnologia, segundo preceitos de Oswald de Andrade, em seu Manifesto Antropofágico? Nos anos 20 do século passado, o modernista brasileiro já pregava a assimilação das manifestações culturais estrangeiras, sua digestão e transformação em cultura brasileira.
O “homo tecnologicus brasileirus”, se podemos chamá-lo assim, pode ser achado apenas em tribos limitadas, mas seu tratamento com a tecnologia passa bem longe do primitivo.
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“O usuário brasileiro está entre os melhores do mundo. É arriscado, inovador, trabalha com coisas novas e olha para o mundo em busca de soluções para seus problemas”, afirma Sílvio Meira, fundador do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R.).
O diretor de marketing da Microsoft, Luiz Marcelo Moncau, acredita que a característica do brasileiro ser polarizado. “Temos padrões africanos e europeus de consumo no mesmo território”.
Observe o exemplo de Carlos Coelho. Entusiasta assumido, o jornalista não chegou a usar um caderno desde que entrou em seu MBA na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), há cerca de dois anos. “Uso meu handheld Sony Clie e digito todas minhas anotações sem problema no aparelho”.
Ainda que tenha uma câmera digital, o PDA não é usado para tirar fotos. “A resolução é muito baixa”, justifica o exigente jornalista. Nas fotografias digitais, ele tem dois equipamentos titulares. “Uso a Canon SD400 pela qualidade das fotos com baixa luz, por ser leve e por ter um visor maior”. A Nikon Coolpix 4100 fica no carro, para “registrar coisas que acontecem na rua”.
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Apaixonado por música, Coelho já está no seu terceiro MP3 player. “Meu primeiro foi o iPod Mini com 6 Gigabytes (GB). Logo depois, comprei um da Sony com 40 GB e tela colorida, substituído logo por um iPod Photo. Como nenhum tinha FM, vendi todos e comprei outro da Sony, de menor capacidade”, diz, se referindo ao Bean, da fabricante japonesa. “Descobri que nunca ouço mais de dois ou três discos durante um dia todo”, revela, a respeito da menor capacidade do aparelho.
Perfis
Coelho é um usuário típico brasileiro, mas faz parte de uma casta que usa tecnologia no Brasil: a de pessoas classes A e B, com alto poder aquisitivo. Ele pode ser classificado como um “explorador” no uso de tecnologia, segundo o livro “Marketing para Produtos Inovadores”, do professor A. Parasuraman, da Universidade da Flórida, e do pesquisador Charles Colby.
O livro, que é baseado em experiências com norte-americanos, considera um “explorador” aquele usuário com alto caráter inovador, otimista, seguro e confortável com a tecnologia, exatamente o padrão de Coelho.
Os pesquisadores norte-americanos definiram quatro outros perfis, na ordem de facilidade de adoção: “pioneiros”, “céticos”, “paranóicos” e “retardatários”.
Pesquisas conduzidas por Parasuraman nos Estados Unidos mostram que os “exploradores” adotaram a internet em julho de 95, enquanto os “paranóicos” e “retardatários” o fizeram apenas entre janeiro e setembro de 1998, nesta ordem, pelo baixo caráter inovador e pelo alto desconforto com as novidades.
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O sucesso de um produto ou serviço é, de acordo com a publicação, estritamente ligado à taxa de adoção pelos “exploradores”, que fazem a propaganda da novidade para os outros perfis mostrando diferentes maneiras de uso.
O nosso exemplo Coelho é fundamental para saber se um produto dará ou não certo. Ele experimenta, usa, testa e suas impressões e opiniões sobre o que usa ou deixa de usar e acaba sendo fundamental para que a turma do “esperar para ver” adote uma tecnologia.
A barreira da renda
Há um porém, que é uma barreira e tanto para o brasileiro: o nível de renda. “Os brasileiros sentem uma dificuldade financeira, não de conhecimento”, argumenta o diretor de marketing da Intel, Elber Mazaro.
A pirataria é outra questão polêmica. Pesquisas indicam que 63% dos softwares usados no Brasil são ilegais e o mercado de computadores cinza está na casa dos 60%. “O brasileiro quer ser legalizado e a Microsoft tem pesquisas que mostram isso. Ninguém vai para a pirataria por vontade”, afirma Moncau.
O executivo da Intel acredita que, pelo orçamento baixo, o brasileiro compra produtos que durem mais. “O dinheiro precisa ser bem investido. Ele precisa ter certeza que o equipamento vai durar de três a quatro anos. Não dá pra errar”.
A diretora de produtos de computação pessoal da HP, Renata Gaspar, concorda. “Caso haja uma diferença de 15% entre um produto do mercado cinza e outro original, o usuário paga mais pelo segundo, pela melhor qualidade”.
De acordo com Edson Shiwa, vice-presidente de imagem e impressão da HP, a característica é divida com nossos hermanos. “Temos produtos com capacidade e preço menores no Brasil e na Argentina, embora exista gente que prefira pagar mais na frente para que o custo total seja menor”.
Outra limitação financeira é refletida na busca por referência para o consumo de produtos. “Os norte-americanos estão mais preparados para comprar sozinhos pela web, enquanto no Brasil as pessoas precisam de uma ajuda. A empresa sacrifica sua área de informática e não tem conhecimento adequado para escolher a tecnologia para se apoiar”, avalia Gaspar.
E, por acaso, o único problema do usuário brasileiro é o dinheiro? Não, mas muitos dos outros são ligados intimamente à questão financeira. “Usuários brasileiros não existem em grande quantidade e os que existem têm pouco grau de conectividade. São poucos, mas arrojados, disponíveis e inovadores”, enumera Meira, um entusiasta do povo e da tecnologia nacional.
Acompanhe a história de Patrícia Astolfi Genignani. A dentista de 26 anos é o que pode se chamar de usuário médio. “Tenho computador em casa e uso bastante para lazer, como Orkut e MSN, além de pesquisar algo do trabalho”.
Astolfi baixa música, mas não lembra o nome do software que usa, assim como não sabe o modelo da sua câmera digital. Sabe, sim, que ela é velha e não bate fotos tão boas. “Pretendo comprar uma melhor. Enquanto não tenho dinheiro para isso, uso a da minha irmã menor, que é ótima”.
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Um MP3 player também está nos planos da dentista, mais por insistência do marido, treinador de academia, que por vontade própria. “Seria interessante também comprar um gravador de DVD, para eu usar em casa. Hoje, só consigo gravar CDs”.
A barreira econômica não é um problema para Wagner Domiciano Pereira. Ele ilustra outro perfil: o dos céticos. A despeito de trabalhar na empresa de tecnologia Impsat, ele quer distância do mundo tecnológico ao chegar em casa.
Pereira tem um computador com Windows 98 em sua residência e admite que raramente usa internet –no caso, por conexão discada.
Acostumado com alta tecnologia de comunicação no trabalho, Pereira diz ter apenas uma câmera digital de 7,2 megapixels. Não tem planos para comprar MP3 player, instalar banda larga ou fazer seu próprio podcast. “Estou envolvido com tanta tecnologia no trabalho, que quero fazer coisas primitivas, como subir numa escada para pintar uma parede, quando chego em casa”.
A internet para ele, fora obrigações profissionais, serve para pagar contas no banco virtual. “Nunca mais vou a uma agência”. Orkut, chats ou comunicadores instantâneos não fazem parte dos seus hábitos. “Prefiro chegar em casa e brincar com meus filhos”, diz, referindo-se a Lucas, dois anos, e Mateus, seis meses.
Projetos alternativos
As particularidades nacionais fazem também com que as empresas internacionais se desdobrem para atender às peculiaridades dos clientes brasileiros. “Graças a usuários brasileiros com baixo poder aquisitivo, a Microsoft tem um projeto piloto no país com PCs pré-pagos, além do Windows Starter Edition”, revela Moncau, em referência ao programa feito em conjunto com a rede varejista Magazine Luiza.
“Mesmo o tamanho geográfico do país nos deu mais flexibilidade. Temos hoje um domínio da tecnologia que nos permite fazer coisas muito criativas”, acredita Simon Schvaertzman, diretor de operações internacionais da Itautec.


