
Sem Fios
André Caramuru é consultor e um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil
Publicada em 06 de novembro de 2007 às 12h08
Atualizada em 23 de novembro de 2007 às 16h58
Declínio dos PCs?
Computadores pessoais começam a perder o brilho para os celulares. Por André Caramuru Aubert
Iniciada na década de 1980, a revolução dos PCs foi um fenômeno tecnológico sem precedentes (assim, claro, como haviam sido sem precedentes as revoluções do motor a vapor, do telefone, do rádio, da TV...).
Os PCs descentralizaram e democratizaram radicalmente o acesso à informação, modificaram para sempre a forma como as pessoas escrevem, calculam, analisam dados, e até mesmo se divertem.
Quando, em meados da década de 1990, as coisas pareciam seguir um rumo previsível, a rápida explosão da internet deu outro fôlego aos computadores pessoais, e trouxe para eles, uma vez conectados, uma infinita nova gama de possibilidades, das pesquisas on line aos sites de relacionamento. Sim, os PCs conquistaram o mundo. O que resta, então, aos PCs? Ao que parece, o declínio.
Se o Japão servir de guia para as tendências do o resto do mundo, a longa queda já começou. Não entendam mal. Os computadores pessoais não estão, está claro, ameaçados de extinção. Eles apenas estão perdendo o brilho – e as vendas – que já tiveram.
Segundo pesquisa da consultoria IDC no Japão, trata-se da primeira queda de vendas de PCs num grande mercado em 25 anos. No segundo trimestre de 2007, as vendas de desktops teriam recuado 4,8%, e as de notebooks, 3,1%. NEC e Sony têm registrado queda nas vendas desde 2006, e a Hitachi anunciou que estará deixando, ao menos temporariamente, o segmento de PCs não corporativos.
Enquanto isso, vendas de celulares, videogames e TVs de tela plana continuam aceleradas. O que estará acontecendo? Segundo analistas, o problema tem dois vetores básicos. O primeiro está nos próprios PCs: como quase todo mundo já tem um, as vendas são em grande parte operações de reposição. E uma vez que os computadores pessoais não têm experimentado grandes saltos de tecnologia, mas apenas constantes melhorias na performance, a maioria das pessoas (e empresas) não têm sentido a necessidade de trocar de máquinas no ritmo que vinham fazendo há até pouco tempo.
O segundo vetor está mais nos outros aparelhos eletrônicos: os jogos em Wii ou PS3 atraem mais que os jogos nos PCs; as novas TVs brilham mais para os consumidores; e os celulares têm trazido mais upgrades reais e novas possibilidades de uso.
Uma avaliação feita em 2006 pelo governo japonês mostrou que mais de 50% dos japoneses estão utilizando os celulares para responder e-mails e acessar a internet. A mesma pesquisa apontou que 30% das pessoas estão deixando, gradativamente, de usar os PCs para ler e responder e-mails, com 4% dizendo que já abandonaram completamente os computadores, em favor dos celulares, para esta tarefa.
Cada vez mais, também, os japoneses acessam os sites de relacionamento, como o Facebook e MySpace, e também os de troca de vídeos, como o YouTube, direto dos celulares. Mais impressionante ainda, o Mobagay Town, o site de relacionamento que mais cresce por lá, funciona exclusivamente em celulares.
As vendas globais de PCs ainda estão subindo, e deverão atingir a marca recorde de 286 milhões de unidades em 2007. Afinal, o resto do planeta não vive a contínua overdose de oferta de eletrônicos dos japoneses. Mas entre os mercados mais maduros também já se tem notado, se não uma queda, pelo menos uma diminuição na curva de crescimento, o que parece mostrar que o fenômeno japonês é o início de uma tendência, e não uma exceção.
De qualquer forma, o fato é que me peguei pensando se a recente substituição de Bill Gates por Carlos Slim, no topo da lista dos mais ricos da Forbes, é sinal dos novos tempos ou apenas coincidência. Algum palpite?
André Caramuru Aubert, um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil, é consultor. E-mail: andre@magically.com.br
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