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04 de julho de 2009
Colunistas

Sem Fios

André Caramuru é consultor e um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil

Publicada em 15 de outubro de 2007 às 11h08

Celulares e furúnculos

Afinal, a tecnologia é boa ou nociva? Por André Caramuru Aubert

Afinal, a tecnologia é boa ou nociva? O computador aliena os jovens no mundo virtual ou é uma ferramenta de acesso a informações sem precedentes na história? A internet traz com facilidade todos os vícios e pornografias do planeta ou permite acesso instantâneo a praticamente todo o conhecimento acumulado pela humanidade ao longo dos séculos? Afinal, estão certos os luditas ou os tecno-entusiastas?

Outro dia, de manhã, lendo os quadrinhos no Estadão, dei boas risadas com uma tira de Frank & Ernest, de Bob Thaves, que mostrava um monte de gente falando alegremente no celular enquanto Frank comentava com Ernest que a tecnologia andava em círculos, pois se a TV tinha calado as pessoas, o celular as estava fazendo falar novamente.

Depois, pensando melhor, gostei ainda mais daquela tira. Bob Thaves morreu há pouco mais de um ano, e não sei se essa tira em particular é criação dele ou de seu filho Tom, que já vinha se preparando para assumir o trabalho algum tempo antes. Não importa. O que é ótimo, nela, é a forma leve e otimista, nada comum, com que trata os celulares.

Não nos esqueçamos que o movimento ludita está sempre a postos. Pois vejam este trecho de uma crônica do Luis Fernando Veríssimo publicada no mesmo Estadão em 4 de outubro: “Podem me chamar de monstro, mas às vezes me divirto com a possibilidade de que não seja apenas outra lenda urbana que os celulares destroem, aos poucos, o cérebro de quem os usa. Seria um consolo saber que a pessoa da mesa ao lado que discute seus negócios, ou o furúnculo da tia Djalmira, aos berros no celular está fritando o próprio cérebro. E que não demoraria muito para que nós - eu e os outros 17 que resistiram - herdássemos a Terra, e voltássemos a nos comunicar civilizadamente, de preferência com silenciosos sinais de fumaça.” A crônica segue, então, no tom destrutivamente engraçado de Veríssimo, mas o que importa aqui é que sinto que ela traduz o pensamento de muita gente, especialmente dos mais velhos. E deixa implícito que a comunicação via celular seria “não civilizada”.

Ora, a conta do celular, na crônica de Veríssimo, fica parecendo alta demais. A falta de educação não é novidade trazida pela tecnologia móvel, assim como o sinal de fumaça (ou o telégrafo, a máquina de escrever, a caneta de pena de ganso etc.) não é garantia de civilidade. Semana passada, num restaurante, fomos obrigados a ouvir tudo, só para ficar na imagem do Veríssimo, sobre “os furúnculos da tia Djalmira” que uma barulhenta família discutia na mesa ao lado, sem nenhum celular por perto - não havia ali nem celulares e nem bons modos.

Como a maior parte das criações tecnológicas, o celular, em si, traz mais possibilidades positivas do que negativas. Mas não está isento do mau uso que se queira fazer dele. Se um sujeito fica dentro de uma sala de cinema com o celular ligado, e atende quando toca, a culpa não é do celular. Este dono de celular é, provavelmente, o mesmo tipo que come a pipoca tentando fazer mais barulho do que um porco devorando a lavagem e que comenta o filme com a pessoa ao lado de forma a que todo o cinema compartilhe de sua opinião.

O celular permite que eu encontre meus filhos, ou eles a mim, a qualquer hora do dia (ou da noite), mesmo quando não estou em São Paulo. Posso listar centenas de outros benefícios, alguns até mais significativos (emergência médica, policial), mas só isso já seria suficiente para justificar a minha simpatia por esta tecnologia. Dentro de uma perspectiva mais genérica, o celular de fato está fazendo com que as pessoas possam se comunicar mais umas com as outras (não só por voz), e esse é um fenômeno que tem atraído a curiosidade de um número cada vez maior de estudos sociológicos, psicológicos etc. no mundo todo, incluindo o Brasil.

Entretanto, como às vezes acontece com a arte, a tira de Frank & Ernest conseguiu condensar brilhantemente a questão, inclusive deixando implícito que a tecnologia não é, em si, boa ou ruim, e que aquelas que permitem interação entre as pessoas são, em princípio, melhores do que aquelas em que os usuários são mais passivos. Ou seja, celular, PC e internet são preferíveis a, por exemplo, TV ou rádio FM. E todas, no fim das contas, podem ser usadas para o bem ou para o mal. O fato é que, naquela pequena tirinha, Frank & Ernest valeram por centenas de páginas de estudos acadêmicos.

André Caramuru Aubert, um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil, é consultor. E-mail: andre@magically.com.br

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