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04 de julho de 2009
Colunistas

Sem Fios

André Caramuru é consultor e um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil

Publicada em 28 de maio de 2007 às 08h00

Games em celular

Os jogos em celular são o próximo eldorado da indústria? Leia análise de André Caramuru Aubert.

Um dos periódicos sobre mobilidade que assino traz a seguinte manchete: “Resultados: Vendas totais da EA caem 4,4% no primeiro trimestre; vendas de produtos móveis crescem 144% no mesmo período”.

Esta chamada é apenas mais um capítulo na onda, constantemente alimentada pela mídia, de que o negócio dos jogos para celular é a explosão do momento. Será?

Primeiro, vamos aos fatos. Com faturamento anual na casa dos três bilhões de dólares, a Electronic Arts registrou, no primeiro trimestre do ano, queda de 4,4% nas vendas. Por outro lado, as vendas de jogos para celular da empresa, no mesmo período, experimentaram crescimento de 140%.

A manchete não está, portanto, mentindo. E há mais: animada com a evolução da área móvel, a EA anunciou que deverá lançar, ao longo de 2007, entre 30 e 35 jogos para celular e 4 para iPods. Vamos então nos juntar aos otimistas e celebrar os jogos para celular como o novo eldorado da tecnologia? Não com tanta pressa.

Em primeiro lugar, não há derrapagem nos jogos de uma forma geral. Apesar do início de ano ruim, a Electronic Arts (assim como o mercado de jogos eletrônicos de uma maneira geral) deverá continuar a crescer em 2007, alimentada pelo lançamento de novos consoles, como o Nintendo Wii, e o prosseguimento da curva ascendente de jogos online.

Em segundo lugar, o crescimento de 140% dos jogos para celular é enganoso, pois ocorreu sobre um faturamento relativamente pequeno em 2006. As vendas de jogos para celular da EA totalizaram 36 milhões de dólares no primeiro trimestre (lembrem-se de que a empresa fatura acima de três bilhões de dólares por ano), fazendo os tais 140% sobre apenas US$ 15 milhões no mesmo período em 2006. Em 12 meses, os jogos para celular representam apenas 5,9% das vendas totais da empresa. Dito assim, os números impressionam bem menos, não é verdade?

Continuando: na maior parte das vezes, os jogos disponíveis atualmente para celular são bastante simples, vítimas de três limitantes básicas: tamanho de tela; memória e processamento; e teclado.

Embora com tendência a melhorar, e de fato há jogos para smartphones mais sofisticados, a maior parte deles parecerá muito simples quando comparados aos disponíveis para consoles ou PCs.

Dessa forma, enquanto você aceita (ou seu filho o obriga a) pagar cento e cinqüenta reais por um jogo para PlayStation, você não pagará mais do que dez reais por um jogo para celular, e achará caro. Destes dez reais, em geral não mais do que dois ou três ficarão para o produtor. Ou seja, se os custos de produção são mais baixos, as margens são também muito menores do que nos jogos para console.

Por outro lado, pode-se argumentar que, com o mundo caminhando para um celular per capita nas regiões com algum poder de consumo, os jogos para celular podem atingir uma escala que nem a soma de todos os consoles e PCs permitiria.

Mas mesmo isso é discutível. Afinal, temos que levar em conta que, apesar do número crescente de usuários de celular, a maior parte simplesmente não tem interesse em games. E como os jogos são simples, a concorrência é gigantesca, com milhares de microdesenvolvedores mundo afora se acotovelando por um lugar ao sol.

As operadoras (o principal canal de venda) não “marketeiam” os jogos, simplesmente deixando-os nos portais para quem quiser comprar e a pirataria, que já chegou aos celulares, tende a crescer.

Finalmente, o suposto ganho de escala recebe o tiro de misericórdia em função dos problemas de compatibilidade causados pela ausência de padrões dominantes: nem sempre o que roda em um Motorola roda em um Nokia, e mesmo nem sempre o que roda no seu velho Nokia roda no novo. E isso não fica melhor nos smartphones, divididos entre os sistemas operacionais PalmOS, Symbian, PocketPC, Linux...

Com as margens apertadas e todos os problemas listados acima, vê-se que a festa não deverá ser tão rica quanto falam alguns, e que a Electronic Arts pode estar planejando lançar alguns joguinhos, mas não descuidará nem por um segundo de seu portfólio de jogos para console e PCs, como seus Spiderman, Fifa Soccer, NBA etc.

O que não quer dizer que o mercado móvel já não seja significativo hoje, e que o potencial de crescimento não seja promissor. Só que, quando se olha mais de perto, ele parece bem menos mágico do que em geral se alardeia por aí.

André Caramuru Aubert, um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil, é consultor. E-mail: andre@magically.com.br

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