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21 de setembro de 2009
Colunistas

Sem Fios

André Caramuru é consultor e um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil

Publicada em 13 de março de 2007 às 17h33
Atualizada em 14 de março de 2007 às 15h12

Dinheiro eletrônico

Quem ganha com o pagamento por celular? Veja a opinião de André Caramuru Aubert.

Em primeiro lugar, cabe colocar as coisas em perspectiva. O grande passo para a humanidade foi inventar o dinheiro. O segundo foi desatrelar a moeda de seu valor intrínseco (por exemplo, uma moeda de ouro tinha valor intrínseco; uma nota de cinqüenta reais não tem valor intrínseco algum).

O primeiro passo ocorreu porque trocar cabras por galinhas, in natura, nem sempre era confortável ou factível. Para que isso se tornasse possível, foi necessário que se criasse um consenso entre o indivíduo e a comunidade, e o valor atribuído à moeda fosse por todos aceito na mesma medida.

Já o segundo passo foi mais complicado, porque ele exigiu que existisse uma confiança irrestrita do indivíduo e da comunidade na instituição, em geral o Estado, que garante o valor representado por aquela moeda.

Mas a emissão de “papel moeda” por parte dos governos sempre esteve longe de alcançar a demanda por valores envolvidos nas transações comerciais diárias. Assim, gradativamente, outras formas de pagamento foram surgindo, com cartas de crédito, letras de câmbio, cheques e, a partir da década de 1950, cartões de crédito.

Estas novas formas puderam se firmar porque, além do indivíduo, da comunidade e do Estado, uma nova entidade aparecia garantindo a exeqüibilidade da transação, como os bancos e as administradoras de cartões.

Então, fez-se a internet. E com ela, o dinheiro, consubstanciado em “dinheiro eletrônico”, encontrou uma nova forma de circulação. Se quando a moeda surgiu quem mais ganhou foi o indivíduo, que passou a poder ir fazer compras sem ter que levar suas galinhas, com o “dinheiro eletrônico” quem mais ganhou foram os bancos e as administradoras, que passaram a poder intermediar as transações reduzindo dramaticamente seus custos.

O consumidor acha que ganhou muito com o internet banking, pois faz consultas, pagamentos e aplicações sem pegar filas. Isso é verdade, mas é também verdade que ele pegava filas porque o banco subdimensionava sua estrutura de atendimento...

O mobile payment é apenas uma natural evolução deste processo. Se você faz com o PC, por que não fazê-lo com o celular? Alguns bancos, aliás, já oferecem “celular banking” há um bom tempo. Mas ambiciona-se mais do que isso.

Se o computador pode ser melhor para, por exemplo, comprar livros na Amazon, pois você tem conforto e espaço de tela para pesquisar vários livros, ler resenhas etc., o celular será mais adequado para qualquer transação que você costuma fazer quando está na rua, da conta do boteco à compra do sapato.

Eu já posso, para dar um exemplo concreto, adquirir um ingresso para um filme pelo celular e, quando me dirigir ao cinema, simplesmente apontar o aparelho para a catraca e, via infravermelho ou bluetooth, ter minha entrada autorizada.

Não é ruim. Não precisarei levar minhas galinhas ao cinema para trocar por ingressos (bem, isso eu já não fazia...), poderei evitar filas, será mais fácil garantir um lugar marcado etc. (na prática esse serviço ainda é limitado a algumas redes de cinema, operadoras e administradoras de cartão, mas deverá ser expandido em breve).

Mas quem mais vai ganhar com isso, não tenham dúvidas, são as administradoras dos cartões e os bancos, que ocuparão um espaço estratégico em mais um mercado, e com custos operacionais razoavelmente baixos.

Outro que ganha é o governo. Quanto mais eletrônicas se tornarem as transações financeiras, mais fácil se torna xeretá-las e, em alguns casos, tributá-las. Finalmente, há quem diga que o comércio também terá vantagens, com o aumento de compras por impulso que a nova ferramenta deverá proporcionar.

No fim das contas, a conclusão é que o mobile payment, está aí e veio para ficar. Sim, enquanto quase todos nós procuramos formas de ganhar algum dinheiro, acabamos de ser contemplados com mais uma forma de gastá-lo. Aproveitemos, pois.

André Caramuru Aubert, um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil, é consultor. E-mail: andre@magically.com.br

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