
Sem Fios
André Caramuru é consultor e um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil
Publicada em 25 de setembro de 2006 às 18h05
Atualizada em 25 de setembro de 2006 às 18h06
O celular mudou a sua vida?
Qual o impacto das mudanças comportamentais com esse novo mundo móvel? Por André Caramuru.
Arnaldo Jabor, numa entrevista à revista Trip de agosto, afirmou que o celular mudou imensamente a maneira como as pessoas se relacionam, e que ele nem sabe até que ponto isso aconteceu. Depois, o site da revista lançou um fórum, sugerindo que os leitores comentassem aquela afirmação. Como sobre qualquer outra coisa, há os que são a favor e os que são contra.
Na verdade, essa é apenas mais uma manifestação de um debate que não é novo. Está ligado a uma polêmica maior, que envolve um julgamento ético da tecnologia, de uma forma geral, e dos celulares, em particular. Há tempos que é assim: a televisão aliena versus a televisão educa; a internet é antro de pornografia versus a internet democratiza o saber; videogame imbeciliza versus videogame desenvolve os reflexos. Agora está na vez dos celulares.
Desde que surgiram, havia os que não gostavam, porque a privacidade dos momentos fora do alcance dos telefones comuns desaparecera; havia os que gostavam, porque melhoravam a segurança pessoal; havia os que não gostavam, porque levavam perigo ao trânsito. Havia ainda os que não gostavam porque eram obrigados a ouvir o barulho do telefone tocando e a subseqüente conversa alheia nos restaurantes, no cinema, no teatro... (o que levou inclusive à publicação de guias sobre bons modos no uso do celular). E por aí a coisa ia, sendo que, até este ponto, eles eram apenas telefones.
Agora, com esse processo de transformar os celulares, cada vez mais, em canivetes suíços, a coisa ficou bem mais complicada. Telefone é detalhe. Os celulares serão cada vez mais televisão, rádio, internet móvel, tocadores de MP3, máquinas fotográficas, filmadoras, cartões de crédito. Se os mais antigos (qualquer um com mais de 30 anos) ainda ficam surpresos, os adolescentes encaram as novidades com a mais absoluta naturalidade.
O “fenômeno celular” ainda está para ser estudado em todas as suas implicações. Sociólogos, especialmente no Japão, na Europa e nos Estados Unidos, têm-se dedicado ao tema, mas a verdade é que as mudanças costumam ser mais rápidas do que as análises. O livro japonês “Personal, Portable, Pedestrian, Mobile Phones in Japanese Life”, de Mizuko Ito e outros, apontou fenômenos interessantes, como por exemplo a utilização tipo “Orkut móvel”, que os adolescentes japoneses estão fazendo, ou ainda a força agregadora que o celular passou a ter entre as donas de casa daquele país, que agora se sentem bem menos isoladas do que antes. Rich Ling, em “The Mobile Connection”, traçou um amplo panorama da questão, com foco mais na Europa.
E uma visão norte-americana, sempre com originalidade, está em “The Virtual Community and Smart Mobs: The Next Social Revolution”, por Howard Rheingold. Este autor, aliás, é um pioneiro da discussão a respeito das comunidades virtuais (não é preciso dizer que ele é do time dos que “gostam” das novas tecnologias), escrevendo sobre o assunto desde os tempos dos BBS de fundo de quintal. “The Virtual Community”, dele, de 1993, foi um dos primeiros trabalhos sérios sobre o impacto do mundo on line no relacionamento entre as pessoas, e o primeiro livro que eu li sobre o tema. James Katz, diretor da cadeira Mobile Communications Studies, da Rutgers University, é outro nome importante, e seu livro “Magic in the air: Mobile communication and the transformation of social life” é talvez o mais completo sobre o assunto.
Mesmo com todas as diferenças entre as culturas asiática, européia e norte-americana, todos concordam com a profundidade e a intensidade das mudanças comportamentais nesse novo mundo virtual e móvel. Para o caso brasileiro, não conheço estudos (se alguém conhece, por favor me avise), mas não há dúvida que as implicações das tecnologias móveis são igualmente grandes. Com o que sabemos, o que já pode ser concluído?
1) As novas gerações não resistem às novas tecnologias; apropriam-se delas com naturalidade e inventam novos usos.
2) O celular não é, para as novas gerações, simplesmente um telefone: ele é uma extensão do “eu”, algo personalizado e considerado fundamental para a vida e o relacionamento.
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