
Sem Fios
André Caramuru é consultor e um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil
Publicada em 11 de agosto de 2006 às 18h35
Atualizada em 11 de agosto de 2006 às 18h47
Mobilização Digital
Como o celular está ajudando a montar uma rede global de mobilização. Por André Caramuru.
As tecnologias digitais podem mudar o planeta? Quer dizer, é óbvio que elas mudaram e continuam a mudar, e muito, o planeta, e todo mundo sabe disso. Vamos então melhorar a pergunta: será que elas podem ser encampadas pelo “povo”, numa espécie de guerrilha virtual, e ajudar a melhorar as coisas? Os um pouco mais velhos vão se lembrar daquele software protetor de tela que exibia torradeiras voadoras passeando pela tela do PC, e que estava em virtualmente todos os computadores pessoais na distante década de 1990.
A empresa que criou este software, a Berkeley Systems, foi vendida em 1997 por Joan Blades e Wes Boyd, o casal que a criou, por 14 milhões de dólares, deixando-os subitamente ricos. E eles estavam, além disso, desiludidos com o Congresso americano, que na ocasião tentava cassar o mandato de Bill Clinton por causa daquele famoso evento “para-sexual” (não achei palavra melhor) com a Monica Lewinsky no Salão Oval.
Com tempo e dinheiro de sobra, Joan e Wes começaram uma lista por e-mail para pressionar os congressistas a aliviar a barra de Clinton. O movimento foi chamado de Move On, que resumia a proposta deles, algo como “certo, censurem o cara, mas vamos em frente”. Em um mês eles tinham conseguido surpreendentes 300 mil assinaturas, e o número não parou de crescer.
Eles gostaram da experiência, tentaram outras mobilizações (a polêmica eleição de Bush, a guerra no Iraque...) e com o tempo foram aperfeiçoando o processo, que acabou gerando uma ONG. Chamada MoveOn, que tem se dedicado a mobilizar as pessoas, virtualmente, para apoiar, protestar, se manifestar.
Recentemente, uma marcha virtual (!!!) contra o genocídio de Darfur reuniu mais de 100 mil pessoas. Não é engraçado? O país que fez marchas gigantescas contra a segregação racial, contra a guerra do Vietnã, pelos direitos dos gays, agora inventa a marcha virtual.
Inspirados no MoveOn, o canadense Ricken Paten, o americano Tom Perrielo e o britânico Tom Pravda, todos veteranos de serviços diplomáticos e causas sociais mundo afora, e parceiros numa ONG chamada Res Publica, decidiram que dava para criar algo novo.
O que eles querem é montar um mecanismo global de mobilização popular usando SMS, o nosso popular “torpedo”. A proposta não é pouco ambiciosa. Desde o primeiro momento, ainda nesse ano ou no início do próximo, eles pretendem operar em 17 países e 12 línguas.
Em cinco anos, eles esperam estar em 76 países, formando um Orkut social por celular de mais de 5 milhões de ativistas. Entre as causas que eles pretendem abraçar estão a defesa da paz no Iraque, o combate ao aquecimento global e o fim da miséria no mundo. Haja celular!
Pretensões à parte, a idéia é interessante. Além de usar celulares, uma ferramenta hoje absurdamente popular (alguns países já têm mais de um celular por pessoa; mesmo o Brasil, atrasadinho, já passou dos 90 milhões de celulares), o projeto é democrático e global.
Ao contrário do MoveOn, que é bem americano e para americanos, o Res Publica é para todo o mundo, em várias línguas (inclusive o Brasil e a língua portuguesa). Outra premissa deles é que, em muitos países, o torpedo é muito mais usado do que voz. Não é o caso do Brasil, mas é assim em parte da Europa e em quase toda a Ásia.
Se vai funcionar ou não, ainda é cedo pra dizer. Mas se der certo, você também poderá ser um Che Guevara, só que digital e conectado, sem ter que aturar os discursos do Fidel Castro e nem correr o risco de morrer fuzilado na selva boliviana. Recarregue seus créditos, escolha as suas causas e aperte o gatilho.
André Caramuru Aubert, um dos pioneiros em tecnologias móveis no Brasil, é consultor. E-mail: andre@magically.com.br
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