Opinião: RIM mira o consumidor, mas não pode se esquecer das empresas

Michael Gartenberg, da Computerworld/EUA
17 de agosto - 08h25 - Atualizada em 15 de julho - 23h17
Num mercado dominado pelo usuário final, as opiniões e as necessidades dos departamentos de TI impõem à fabricante um duplo desafio.

Notícias Relacionadas

Na semana passada, em um evento em Nova York (EUA), a Research In Motion apresentou seu mais novo smartphone, o BlackBerry Torch, e a mais recente atualização de seu sistema operacional, BlackBerry 6.

Como era de se esperar, o CEO da RIM fez festa para todos os novos recursos de hardware e software. Mas o que poucos esperavam - especialmente de uma empresa com forte viés corporativo como a RIM - é que todas essas novidades tivessem como alvo o consumidor.

A apresentação foi dominada por coisas como telas sensíveis ao toque e gestos multitoque, marcação e catalogação de fotos, sincronização de mídia e música, e a integração a redes sociais como Twitter e Facebook.

E tudo isso de uma empresa da qual, não faz muito tempo, seus principais clientes exigiam aparelhos que não tivessem câmeras, não tocassem música e não fizessem nada que não fosse diretamente ligado a negócios.

Mas o destaque não foram apenas esses recursos voltados para o consumidor. Igualmente notável foi que ninguém falou sobre as funções essenciais que fizeram da RIM e do BlackBerry os queridinhos do pessoal de TI. Não houve uma só menção aos recursos de gerenciamento de primeira linha da RIM, segurança forte e criptografia ou a possibilidade de integração com as principais aplicações corporativas.

Vossa excelência, o usuário final
Para mim, o evento simplesmente enfatizou uma tendência importante, que já foi alvo de discussão: quando se trata de mobilidade, o que a TI pensa não é necessariamente importante; o que vale é o que pensa o usuário final. Todos esses quesitos que há tempos têm sido os pontos fortes da RIM são superimportantes para o profissional de TI. Nenhuma delas importa tanto para o consumidor que efetua a compra.

++++

Até entendo por que a RIM escolheu esse caminho. Afinal de contas, ela tem o mercado corporativo praticamente cativo e já em ponto de saturação. E, se a RIM continuasse a fazer o que sempre fez com o BlackBerry, muito provavelmente teria de enfrentar perda de mercado. Isso porque os usuários finais começam a demandar os recursos que veem em smartphones de última geração, que rodam iOS e Android, e pressionam a equipe de TI para fazer com que esses aparelhos se tornem padrão dentro das empresas.

Assim, como a RIM vai atuar nesse novo mundo dominado pelos usuários? A julgar pelo Torch, ela ainda terá muito trabalho pela frente. A tecnologia dita amigável da RIM fica para trás na comparação com os aparelhos dos fabricantes que têm foco no usuário final.

O display do Torch é pequeno e de menor resolução se comparado às telas de 4,3 polegadas do Droid X ou do Evo 4G. E parece feia e pixelizada quando confrontada com a Retina Display de super-resolução do iPhone. O mercado de aplicações da RIM é ultrapassado pelos do Android e do iOS por diversas ordens de magnitude, e a experiência geral do consumidor é bem menos elegante que na concorrência.

Mercado de massa
Quando o iPhone foi lançado em 2007, a RIM insistiu na decisão de atender aos usuários de negócio, ao passo que o alvo da Apple foi o mercado de massa.

O primeiro iPhone evidentemente não poderia atender às necessidades de negócio. Mas com o tempo, tanto a Apple como a Google, além de atenderem ao mercado de massa, fizeram grandes avanços no acréscimo de funções exigidas pelas empresas, posicionando-se para capturar corações e mentes do usuário de negócio e do consumidor – que, em muitos casos, são a mesma pessoa.

O desafio da RIM agora é continuar atendendo às necessidades corporativas, ao mesmo tempo que equipa o BlackBerry com recursos mais sedutores, capazes de capturar de verdade o interesse dos usuários finais. Se não fizer isso bem, a RIM provavelmente perderá mercado e se caminhará para se tornar não mais que uma nota de rodapé no mercado móvel que, uma década atrás, ajudou a criar a definir.