WiMax promete de TV no celular a carros conectados
Sentado em um café, o adolescente tira seu smartphone do bolso e verifica sua lista de contatos no comunicador instantâneo. No ônibus, a garota assiste ao programa de auditório ao vivo em seu celular. Apressado, o executivo estaciona o carro na avenida Paulista, em São Paulo, para atender uma ligação por VoIP em seu notebook.
Todas as ações descritas acima independem do WiMax e já estão disponíveis para usuários no Brasil atualmente graças a serviços de operadoras e equipamentos preparados para as “antigas” redes sem fio.
Leia neste especial:
> A revolução da banda larga chega pelo ar
> WiMax para 700 mil brasileiros em 2010
> Interesse entre pequenas e grandes operadoras
> Anatel x Minicom: batalha pode atrasar WiMax
> Imagens: Licenças para WiMax
> Fotos: WiMax no Brasil
A introdução da banda larga sem fio, no entanto, permitirá que atividades que explorem mobilidade atinjam uma faixa da população muito mais ampla do que os proibitivos preços dos serviços citados comportam.
Até que seja possível navegar por banda larga sem fio com a tecnologia WiMax, no Brasil, ainda existem diversos obstáculos a serem passados.
O primeiro deles é a discussão sobre as regras do leilão, conduzido pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), para definir quem pode participar e em quais regiões.
O segundo é a atual escassez de equipamentos que suportam o acesso a redes WiMax. O Fórum WiMax, responsável por certificar os produtos usados na irradiação e recepção do sinal, autorizou os primeiros aparelhos em janeiro de 2006.
Deriva deste fator a falta de precisão quanto aos preços de equipamentos para WiMax no mercado brasileiro. “Agora, o WiMax é caro. O preço do modem que faz atendimento residencial sai entre 400 e 500 dólares”, estima o consultor de telecomunicação, Eduardo Prado.
Mesmo que a demanda por serviços de banda larga sem fio estejam explodindo no Brasil, como define o levantamento “Análise do mercado brasileiro de banda larga e WiMax 2005-2010”, da consultoria Maravedis, o mercado do país ainda é “sensível a preços”.
A adoção em larga escala do WiMax no Brasil, segundo Prado, acontecerá apenas a partir de 2009, quando o preço do modem de acesso deverá cair para até 75 dólares, sem taxações das operadoras.
O consultor em telecomunicações, ex-executivo da Intel, Ronaldo Miranda, concorda com Prado e acredita que o mercado brasileiro só vai andar entre 2008 e 2009. “O melhor exemplo é o acesso wireless. Mesmo com diversos hotspots espalhados, a web sem fio só explodiu quando o preço do notebook caiu bastante”, diz o executivo, afirmando que, mesmo com as redes prontas, a adesão dos usuários será vagarosa no começo.
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A disputa entre os padrões fixo e móvel do WiMax deverá também atrasar os investimentos das empresas. Mais otimistas, previsões como a de Eduardo Tude, presidente da Teleco, esperam que as redes WiMax comecem a se tornar populares já no mesmo ano em que estão previstos os primeiros serviços. “Ter escala é a questão.E isto deverá acontecer em 2007”, diz ele.
A Motorola, que divide o ranking de empresas que mais investem em WiMax atualmente junto a Intel e Samsung, também prevê seus investimentos no Brasil para 2007. “Cada produto tem um ponto ótimo. Para o do WiMax, precisaríamos esperar pela grande penetração que, para nosso uso interno, acontecerá em 2007”, revela José Geraldo Almeida, gerente de novos negócios da empresa.
Exemplos práticos
Quando o WiMax se tornar uma realidade, porém, são diversos os impactos na vida do usuário, ao começar por seu acesso doméstico à internet.
A assinatura paga para provedoras atualmente para acessar a internet permite que você desfrute da grande rede por apenas um ponto: o seu computador na sua casa.
Esta é a principal limitação dos sistemas de banda larga atuais, como DSL e cabo. Com o WiMax essa barreira é derrubada.
Teoricamente, porém, a introdução do padrão 802.16e (o WiMax móvel) permitiria que usuários pagassem apenas uma mensalidade à provedora de WiMax para acessar as redes em qualquer lugar coberto.
Os exemplos de utilização prática variarão conforme o modelo de negócio escolhido por cada uma das operadoras envolvidas na licitação da Anatel.
Mais uma vez, a principal diferença entre o WiMax e as redes Wi-Fi já disponíveis em grandes cidades brasileiras, por provedores como Telefônica e Vex, seria o alcance.
Em vez de se conectar a diferentes redes enquanto estiver em movimento, o usuário poderia assistir ao seu jogo de futebol no celular, por exemplo, sem cortes ou riscos de desconexão.
A alta penetração de redes WiMax do padrão móvel poderá impulsionar também a conectividade de produtos que passam longe da informática, como veículos e eletrodomésticos.
Um carro que carregue um chip WiMax poderá acessar conteúdo em movimento, como mapas da cidade para seu sistema de navegação por GPS, estações de rádio pela internet ou arquivos musicais que serão armazenadas em seu disco rígido ou tocarão em seu rádio.
Em projetos mais sofisticados, o usuário poderá até mesmo fazer o download de arquivos digitais que serão usados em seu carro, como um novo som para a buzina ou para o alarme.
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Mais próxima à realidade, o WiMax poderá ter um impacto direto na maneira como o telefone celular é usado, aproximando-o dos computadores pessoais.
A principal mudança está na transmissão de voz. Ligações móveis hoje são feitas por protocolos que usam estações rádio-bases (ERBs) para levar a sua voz para o terminal da sua mãe, por exemplo.
Por ser um protocolo de troca de dados, o WiMax poderia oferecer ligações por voz em pacotes de dados, pelo sistema VoIP.
Não bastasse a queda nas receitas com a maior participação do VoIP móvel, as operadoras de telefonia poderão temer também a competição com empresas de mídia e produtoras de conteúdo que resolvam explorar redes WiMax para transmitir TV ao vivo ou vender músicas e filmes em aparelhos móveis.
Pesquisa da Analysys divulgada em setembro afirma que, até 2012, a receita de ligações por VoIP em telefones celulares atingirá 25,9 bilhões de dólares, ultrapassando a cifra de 18,8 bilhões de dólares equivalente aos serviços fixos do tipo nos Estados Unidos.
Além do VoIP, o tráfego de dados pelo WiMax permitiria a reprodução nos aparelhos de conteúdo multimídia que redes GPRS não suportam, como TV ao vivo ou download de músicas.
Engana-se, porém, quem imagina que vai ligar o notebook em casa e usar as redes de acesso WiMax como se fossem oferecidas pelo governo ou com taxação semelhante aos serviços de banda larga convencional.
Pelo menos até que o WiMax se torne popular como método de transmissão de dados, operadoras que detém autorizações para explorar as redes poderão formular sistemas de negócios que podem ser comparados com a atual diferença entre telefonia fixa e celular.
“A primeira onda do WiMax não vai ser mobilidade, e sim levar a banda larga com custo flexível para lugares onde não há hoje”, destaca Miranda.
A falta de penetração fará com que planos de acesso cabeados ou por wireless compensem mais para o usuário do que o acesso WiMax, no primeiro momento, segundo Miranda.
“Com maiores investimentos das operadoras e aparelhos mais baratos, os preços das ligações móveis foram caindo em comparação às fixas. O custo WiMax deve seguir o mesmo caminho”, afirma.
Todas estas vantagens do WiMax ilustram que o Wi-Fi vai acabar? Longe disto. “São utilizações completamente diferentes”, afirma Tude.
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No ambiente doméstico, o alto preço dos primeiros equipamentos e serviços deverá tornar o WiMax restrito a poucos usuários até o final de 2007, quando as redes estiverem populares o suficiente, segundo previsões de Tude, da Teleco.
Tude também aponta a possibilidade de restrições nas redes Wi-Fi como uma vantagem frente ao WiMax. “Quando você tem uma rede local, as pessoas continuam no ambiente privado. No WiMax, o acesso é feito diretamente pela internet”.
Inclusão Digital
Um dos principais fatores apontados por analistas para a importância do WiMax no mercado brasileiro não é a mudança que ele promoverá em áreas urbanas, mas sim o impacto inicial em regiões sem infra-estrutura online.
“O mercado brasileiro tem uma deficiência em banda larga enorme. Além dos serviços serem caros em comparação com o resto do mundo, a oferta é geograficamente limitada pelas áreas de atuação das concessionárias”, afirma Tude.
“Por ter cobertura maior e custo menor, o WiMax tem potencial para realizar uma expansão muito grande da banda larga no Brasil”, analisa.
Os preceitos são simples. Oferecer banda larga pelos sistemas DSL e cabos implica que operadoras gastem milhões de reais em equipamentos e mão-de-obra para desenrolar quilômetros de fios pelas estruturas de comunicação das cidades cobertas.
Os altos gastos não compensariam em regiões onde não há massa crítica o suficiente para retornar o investimento da operadora. Ou seja, se não há usuários suficientes, não interessa à operadora prover o serviço.
Em WiMax, o prazo e os custos para implementação caem bastante em comparação ao sistema tradicional. Segundo estimativas de Tude, é possível colocar em funcionamento uma rede WiMax em seis meses em determinadas regiões, após a compra da licitação. “Não é preciso montar uma rede inteira para o assinante entrar, já que a operadora nem sabe onde ele está. Basta colocar a torre de transmissão e começar a operar”, explica.
Graças ao alto número de autorizações (são 1.037 licenças de exploração divididas em 67 áreas de numeração), a chance de que pequenos provedores se interessem em explorar redes WiMax no sertão da Bahia, nos confins do Pará e nos planaltos do Mato Grosso são enormes.
“A infra-estrutura é tão acessível para operadoras que chega a ser mais barata do que redes de telefonia celular”, afirma o analista-sênior do IDC Brendan Conroy. “Serviços federais ligados à educação e à saúde deverão ser um dos setores mais beneficiados pelo WiMax no Brasil, ainda mais pela atual concentração alta de acesso”, completa.


