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16 de dezembro de 2008
Colunistas

Digitalis

Patricia Peck é advogada especialista em Direito Digital

Publicada em 02 de junho de 2008 às 08h00

Espionagem eletrônica

Empresas brasileiras permitem que o espião entre pela porta da frente. Por Patrícia Peck

Cresce o número de empresas vítimas de espionagem eletrônica no Brasil. Normalmente, a vulnerabilidade está na própria falta de informação e orientação dos funcionários para que não seja facilitado o acesso aos segredos da empresa por terceiros. Em muitos casos há até a colaboração interna, conhecida como “risco insider”.

Há uma sutil diferença entre o limite do que é considerado “inteligência competitiva” e onde começa a prática de espionagem. Com a facilidade de uso das ferramentas de trabalho tecnológicas, as informações da empresa vazam por todos os lados, do e-mail a porta USB do computador, saindo pela porta da frente em um aparelho de MP3 inofensivo.

Para se proteger é essência alinhar uma estratégia que amarra aspectos técnicos e jurídicos, com uso de alguns softwares de monitoramento, adequação legal para que o mesmo possa ser feito sem riscos para a empresa, definição de alguns processos e sua documentação em norma própria e, acima de tudo, conscientização dos usuários de maior acesso a informações privilegiadas, dos gestores ao conselho.

Tem sido comum a espionagem através do uso de senhas que são de executivos com altos poderes hierárquicos, pois, normalmente, neste perfil de cargo, o profissional é assessorado por diversas pessoas e, muitas vezes, se estabelece de modo quase institucionalizado uma conduta extremamente insegura de compartilhamento de sua senha com seus auxiliares para realização de tarefas.

Por que a secretária tem de ter a senha do chefe? Como garantir governança corporativa em uma empresa em que haja segregação de funções, ou seja, mais de uma pessoa é necessária para executar uma atividade de alto risco e impacto crítico no negócio, de modo a sozinho não poder fazer um grande estrago, mas na área um sabe a senha do outro, dentro de um combinado para fazer o trabalho fluir mais rápido. Isso é completamente indevido, inadequado e quebra regras de conduta exigidas na assinatura de Códigos de Ética tais como o exigido por Sarbanes-Oxley.

Além disso, precisa vigiar os terceirizados, já que os mesmos possuem livre acesso a vários tipos de informação, além de na área de TI serem responsáveis, em muitos casos, em dar suporte aos usuários (tipo Help Desk).

É boa prática ter um Código de Conduta do Terceirizado com assinatura de termo de responsabilidade entre o funcionário do terceiro e a empresa contratada e entrega de uma via a empresa contratante.

Há vários tipos de espionagem eletrônica, entre elas, a mais comum é chamada de Sigint (signals intelligence) que se originou na interceptação, decodificação, tradução e análise de mensagens por uma terceira parte além do emissor e do destinatário pretendido. Isso ocorreu recentemente com a consultoria Booz Allen Hamilton, em que um executivo recebeu um email cujo conteúdo tratava da descrição de aviões, motores e equipamentos para radar, mas continha um código conhecido como “Poison Ivy” (espécie de cavalo de tróia) destinado a capturar os dados.

Com a baixa cultura de segurança da informação nas empresas, associada a característica solícita do brasileiro, o espião não precisa mais invadir ou interceptar, ele entra pela porta da frente. Precisamos estar mais atentos, sob pena de responsabilidade por negligência e omissão, conforme reza o artigo 1016 do Novo Código Civil Brasileiro.

Dra. Patricia Peck Pinheiro, advogada especialista em Direito Digital, sócia da PPP Advogados, autora do Livro Direito Digital pela Editora Saraiva (www.pppadvogados.com.br).

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