Entrevista: Bertrand Piccard explica volta ao mundo em avião com energia solar
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Leia entrevista exclusiva com Bertrand . Ele explica como será esta nova travessia estratosférica. Embarque nesta viagem junto com ele.
Como surgiu a idéia deste seu novo desafio?
- A idéia me surgiu logo após o Breitling Orbiter 3. Nossa volta ao mundo em 1999 ergueu uma onda de entusiasmo. É precisamente este entusiasmo que é necessário para sensibilizar a humanidade para os desafios que nos esperam no século XXI : conciliar interesses econômicos e ecológicos; promover a idéia da utilização das novas tecnologias para não apenas fornecer credibilidade às fontes de energia alternativas, mas também demonstrar que é preciso economizar os recursos atuais.
Mais sobre o projeto:
> Fotos: veja o Solar Impulse
> Imagens: uma geração de aventureiros
> Aventureiro dá volta ao mundo em avião solar
> Boeing cria avião movido a hidrogênio
O que você pretende provar com mais esta aventura?
Quero mostrar o que se pode fazer graças às energias renováveis e encorajar o seu uso pela população. Desejo produzir um símbolo capaz de mexer com as consciências. O Solar Impulse será nosso embaixador nesta empreitada. A mensagem que queremos passar é que, desde já, tornou-se imperativo desenvolver novas tecnologias que permitam nossa sociedade reduzir seu consumo energético. Como é quase impensável que a população mundial aceite reduzir seu padrão de vida, devemos desenvolver equipamentos eficazes que consumam menos, como os motores híbridos ou as novas lâmpadas elétricas, por exemplo, ao mesmo tempo que desenvolvemos fontes alternativas de energia. Dentro da minha equipe já existem várias pessoas que dirigem carros híbridos, como o Toyota Prius e o modelo da Lexus, que utilizam duas vezes menos combustível que um veículo convencional.
Ainda existe um longo caminho até o vôo de volta ao mundo em 2011. Quais são os principais desafios a frente?
Quero dar a volta ao mundo sem combustível nem poluição, a bordo de um avião que deverá poder decolar e voar tanto de dia quanto à noite - unicamente com a ajuda da energia solar. É uma aventura quase impossível que ninguém até hoje ousou tentar e sobre a qual o público ainda não captou a dificuldade. Fazer voar um avião de 80 metros de envergadura não é uma coisa fácil! O principal desafio consistirá em ascender até 12 mil metros de altitude durante o dia, para carregar as baterias, e então utilizar durante a noite a energia assim acumulada descendo progressivamente até uma altitude de 3 mil metros. É uma tentativa de se atingir o vôo perpétuo, e também uma grande epopéia aérea.
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De quanto dinheiro você precisa para realizar esse sonho impossível?
O orçamento total do projeto está próximo dos 80 milhões de francos suíços (R$ 136 milhões) para a construção de dois aviões e 20 milhões de francos suíços (R$ 34 milhões) para as operações de vôo. O orçamento é totalmente financiado por patrocinadores particulares, como a Solvay, o Omega, a Dassault e o Deutsche Bank, assim como diversos investidores privados (entre os quais Buzz Aldrin, o segundo homem a pousar Lua, e o escritor brasileiro Paulo Coelho). Já temos assegurados 65 milhões de francos suíços (R$ 110,5 milhões). Paralelamente, firmamos acordos de cooperação com órgãos científicos como a ESA, a Agência Espacial Européia.
Como será o vôo? Por que dessa vez ele não será sem-escalas?
Em princípio, será uma volta ao mundo com etapas, com uma parada em cada continente. No momento é impossível embarcar dois pilotos ao mesmo tempo por razões de peso. Cada etapa durará 4 ou 5 dias, o que é considerada a duração máxima que um piloto pode suportar em uma cabine tão reduzida. Nós previmos cinco etapas, portanto a volta ao mundo deverá durar um pouco mais de três semanas.
O que você irá comer? Como resolverá o problema das necessidades fisiológicas?
O piloto ficará sentado sobre um assento-higiênico e a alimentação certamente será a mesma dos astronautas, mas eu ainda não tenho certeza se haverá feijoada liofilizada!
O governo Bush está finalmente buscando alternativas para o petróleo e as energias não-renováveis. A Casa Branca dá especial atenção ao biocombustível, com ênfase no metanol, seguindo o exemplo brasileiro com o álcool combustível (etanol). Mas quase nada está sendo dito com relação à energia solar, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, apesar do enorme potencial desta fonte no caso brasileiro. Por que a energia solar ainda é negligenciada?
Biocombustíveis podem alimentar motores a combustão, o que está de acordo com o modelo atual da indústria do petróleo, que não teria que mudar os seus canais de distribuição. A energia solar entra na lógica da eletricidade e provavelmente será fornecida pelas geradoras elétricas, que são lucrativas e obviamente não estão com pressa de investir em novas tecnologias.
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Você pertence a uma linhagem de aventureiros, iniciada em 1931 por um avô balonista, e continuada em 1961 por um pai submarinista. É sabido que o personagem Professor Girassol, dos quadrinhos de Tintin, foi inspirado em seu avô Auguste, e que o capitão Jean-Luc , na nave estelar Enterprise (na telessérie Segunda Geração) seria um descendente seu vivendo no século XXIII. Você decidiu ser um aventureiro por causa do peso desta linhagem? Ou a culpa é da genética?
Carregar o sobrenome é difícil quando eu falho, e fácil quando eu tenho sucesso! É ao mesmo tempo uma grande pressão e um cartão de visitas que me abre portas. Sei que esperam muito de mim. Isto não me coloca muitos problemas, mas me torna muito exigente com relação a mim mesmo. Quando se quer ter sucesso com projetos de grande envergadura, não existe espaço para a mediocridade. É preciso a todo o custo tentar atingir a excelência, e isto passa por escutar os outros e sempre colocar em questão as próprias certezas. Na minha família o objetivo principal nunca foi simplesmente bater recordes, mas explorar horizontes desconhecidos, descobrir novos caminhos, novas maneiras de agir. Eles me transmitiram esta paixão. Desde muito pequeno eu fui jogado no mundo da exploração. Entre 10 e 12 anos, quando vivíamos na Flórida, assisti a seis decolagens dos foguetes do Projeto Apollo, assim como numerosas reuniões na Nasa. Os astronautas e exploradores que conheci viviam existências extraordinárias. Fiz de tudo para levar este tipo de vida, mesclando uma existência ao mesmo tempo útil e apaixonante.
O último astronauta que pisou a Lua decolou de lá em 1972, mas ninguém jamais retornou à fossa das Marianas desde que seu pai lá desceu faz quase meio século. Há cinco anos, você me disse que algum dia poderia tentar repetir o feito. Quando você vai começar a construção do submarino para esse mergulho ?
Ao invés de repetir o feito de meu pai, eu prefiro iniciar algo completamente novo, como o Projeto Solar Impulse…
Mais sobre o projeto:
> Fotos: veja o Solar Impulse
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