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19 de setembro de 2009
Colunistas

Weblogia

Risoletta Miranda é diretora executiva da FSB PR Digital

Publicada em 01 de maio de 2009 às 11h06
Atualizada em 01 de maio de 2009 às 11h08

Pensando em exabytes

Nativos digitais têm tempo livre? Sociólogo de 83 anos analisa o tema. Por Risoletta Miranda

Nesta exata tarde em que paro para escrever esta coluna sou bombardeada por informações em linha cruzada sobre a tal gripe suína que estoura em todos os lados do mundo; os detalhes sobre o câncer da Dilma Roussef; a declaração do médico do Botafogo de que o Maicosuel não vai jogar a final contra o Flamengo, no domingo; que o Rubinho reclamou do Nelsinho Piquet na corrida de Formula 1 do Bahrein ontem, atrapalhando-o; que a Forrester Research fez um seminário bacana sobre Social Media, em Orlando; que tem “novidade”  sobre as fotos antigas da Susan Boyle; que o Ronaldo Fenômeno esnobou as redes de TV depois do jogo contra o Santos em que fez dois golaços; que o Fábio Fernandes vai criar um agência de publicidade house no Vasco e ajudar a levantar a comunicação e o marketing do clube; que a Receita Federal recomenda “correr” para entregar a declaração do IRPF 2009; que o Roberto Carlos que ter 1 milhão de amigos no Facebook; que...... ufa... coisa a beça hein? Isso sem contar os trabalhos caseiros e domésticos e toda a agenda de trabalho corporativo. Palestras, projetos, pesquisas, enfim. Olhando para essa lista que é só de algumas horas de uma segunda-feira, me pergunto se estamos fazendo bem ao nosso tempo “humano” diante de um quadro desses.

No último final de semana li uma entrevista interessante do sociólogo polonês Sigmunt Bauman. Aos 83 anos ele entende bastante de tempo – convenhamos, tem por onde – e não apenas pela ampulheta bem usada, mas fundamentalmente porque é um apegado analista das conseqüências sociais trazidas pelo chamado progresso. E progresso, sabemos, aparece sempre “geminado” ao tempo.

A parte mais interessante da entrevista de Mister Bauman é sua declaração de que “estamos correndo atrás constantemente. Mas o que ninguém sabe é correndo atrás de quê.”

Meio assustador não é? Na análise do sábio mestre, ele também discorre de forma interessante sobre a noção do tempo dos nativos digitais. Sem parâmetros do passado para comparar o uso do próprio tempo eles se consideram como os novos sábios, muito mais atentos e disponíveis para receber informações do que os seus pais ou avós. O tempo desta geração virou o tempo preenchido no seu limite máximo. Chegam a construir uma nova valência de tempo. Tempo que, sabemos, continua inelástico, mas que diante dessa geração parece ter criado uma dimensão paralela, nos permitindo abrir vários browsers ao mesmo tempo, ver o vídeo na tela, enquanto a música do iPod explode no ouvido ao mesmo tempo em que o SMS quica no smartphone. Natural, natural. Ficando muito natural isto tudo...

Esse “novo” tempo - o do homo digitalis - sempre foi a minha linha mais apaixonada de análise quando penso nos meios digitais e em como eles têm sido um ponto inflexor de nosso “modus vivendi” e da qualidade de vida. O componente humano (defendo que eles, os computadores, ainda não nos venceram ok? Rs) na cadeia da informação onipresente é um enigma sem dúvida intrigante e excitante.

A capacidade de desconstruir a informação em vários pedaços e juntá-los depois de forma natural, concomitante ao consumo paralelo e transversal de outro lote de idéias, imagens, vídeos e notícias está nos fazendo mais felizes? Mais confortáveis? Mais sábios?

Não sei. O que me parece é que estamos mais questionadores, nos tornamos melhores consumidores (mais críticos), treinamos nossa inteligência em mais assuntos, questionamos nossos especialistas (como médicos, por exemplo) com mais segurança, exercemos a onipresença virtual através das redes de relacionamento como “polvos alienígenas”, desclassificamos velhas teorias sobre público e privado e, enfim, com certeza, chegamos ao fim do dia com um “buffer” respeitável de aprendizado.

Mas aí vem a pergunta que o sábio professor de 83 anos deixa no ar e que eu faço minha também: onde fica o tal do tempo da reflexão que antes não era preenchido por esse volume de informação? O do autoquestionamento, da conversa consigo mesmo e, porque não, o tempo do tédio? Estaremos nós virando sábios dos ‘mashups”, estruturados, bem falantes, bem pensantes  mas... “pasteurizados”?  Tipos antenados que comentam no Twitter sobre as fraldas dos filhos e a nova pesquisa do trabalho mas que nunca param para ouvir o silêncio? E, até onde esse silêncio faz mesmo falta? Até onde gastar o tempo com pensamentos próprios faz falta para nós humanos twitteiros? Segundo Bauman, no My Space, no Twitter e no Facebook, “o ser humano, enfim, conseguiu abolir a solidão, o olho no olho consigo mesmo.”

Pois é. Não estou escrevendo aqui sobre este tema para dar respostas e sim para desconfortavelmente jogá-los no meio das perguntas. Eu não as tenho. Só alguns palpites como os que emiti aqui. O que sei como profissional é que isto impacta demais a comunicação das marcas com seus targets incluídos e não incluídos digitalmente. Há de se ter um olhar além da comunicação, mais perto do antropológico, para rastrear esta nova horda de “novos” humanos que somos. Como pessoa eu fico intrigada imaginando qual será a capacidade que temos, no curto prazo, de conviver e, principalmente, entender, o nosso lugar de “sábios” neste mundo de exabytes em demasia (1 exabyte equivale a  mais de 1 bilhão de gigabytes). E que tipo de sábios – e isto é crucial - estamos nos tornando?

Não há um tempo na história da humanidade em que não tivesse o homem a necessidade em colocar a mão no queixo e pensar para onde iria. Desconfiar de sua sabedoria, temer pelo futuro, desafiar seus adversários com uma ponta necessária de sentir o medo de fracassar. Olhar para o futuro com a esperança de conquistar. Coisas que, convenhamos, nos ajudam a entender o fascinante universo que somos. Pois é, como diria uma amiga minha, as pessoas não são mesmo fascinantes? É... conectadamente fascinantes!

Risoletta Miranda é sócia e diretora da Addcomm, formada em jornalismo, MBA Marketing COPPEAD/UFRJ, especializada em Planejamento Estratégico de Marketing e Comunicação On Line e uma das criadoras do Conceito de VRM  – Virtual Relationship Management  – Addcomm. E-mail: rizzo@addcomm.com.br .

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