
Sociedade Digital
Marcelo Coutinho é consultor e professor de pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas.
Publicada em 06 de outubro de 2008 às 07h35
Atualizada em 06 de outubro de 2008 às 15h57
A nova cyberperiferia
Atenção profissionais de marketing: atendente de Lan House virou canal de distribuição. Por Marcelo Coutinho
O extraordinário crescimento do uso das tecnologias digitais pelas classes populares no Brasil vai obrigar as empresas envolvidas em toda a cadeia da comunicação a repensarem as ameaças e oportunidades de negócios nos próximos anos. Essa foi uma das principais conclusões do debate de Carla Barros, Fábio Seixas, Osvaldo Barbosa e Ronaldo Lemos no Digital Age 2.0 da semana passada.
Uma análise do banco de dados agregados do IBGE entre 2003 e 2007 ajuda a quantificar o fenômeno. O número de domicílios que possuem um computador com acesso à Web passou de 5,7 milhões em 2003 para 11,3 milhões no ano passado.
Separando este crescimento por faixas de renda, o número de domicílios com acesso entre as camadas mais ricas (rendimento acima de 10 salários mínimos), passou de 3,2 milhões para 3,8 milhões no mesmo período, chegando mesmo a diminuir entre os domicílios que apresentam rendimentos acima de 20 salários mínimos (embora esta queda precise ser relativizada por conta do aumento real do salário mínimo no período –em termos percentuais, nesta faixa de renda, passamos de 71% para 83% de domicílios com conexão).
Domicílios Particulares Permanentes

Já o número de domicílios com acesso, com rendimento até 10 salários mínimos mais do que triplicou, passando de 2,1 milhões para 6,8 milhões –um crescimento de 217% em 4 anos! A esse fenômeno precisamos adicionar também o crescimento do acesso em Lan Houses –segundo Carla Barros, da ESPM, somente na favela da Rocinha existem cerca de 150 lan-houses, incluindo quartos ou “puxadinhos” com 4 ou 5 computadores em cada um.
Quando observamos os dados do Comitê Gestor, verificamos que as classes populares apresentam um uso menos variado da Internet do que as camadas mais ricas, exceto em 2 aspectos: comunidades sociais e games. De acordo com Osvaldo Barbosa, da Microsoft, elas também utilizam menos comunicadores instantâneos como o MSN Messenger, mas ainda assim sua taxa de utilização é elevada: 60%.
São justamente estas tendências que fazem prever um uso ainda mais acentuado das diversas tecnologias digitais da Web 2.0, na qual o Brasil já é um dos líderes: de acordo com a pesquisa “Social Media Research”, da Universal McCann, que entrevistou 17 mil pessoas em 29 países, o Brasil é um dos líderes na leitura diária de blogs (52%, contra 31% da média mundial), atualização frequente de páginas pessoais em redes sociais (57% dos internautas) e upload de vídeos (68% dos internautas brasileiros já fizeram, contra 25% dos americanos).
Algumas das implicações destas tendências podem ser vistas em Belém do Pará, onde uma pesquisa da FGV sobre Open Business Models mostrou a existência de uma vasta rede de produção musical sustentada inteiramente na distribuição de conteúdo gratuito.
De acordo com Ronaldo Lemos, coordenador da pesquisa e co-autor do livro “Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música”, bandas deste ritmo bastante popular no Norte e entre as camadas de baixa renda das grandes cidades (a banda Calypso é a mais conhecida do Brasil, segundo outra pesquisa da FGV) distribuem CDs gratuitamente entre os camelôs de Belém, para que eles os revendam por baixo preço ou mesmo distribuam como “brinde” para seus fregueses. Esses CDs se encarregam de popularizar as bandas, que cobram entre R$ 5.000 e R$ 10.000 para fazer um show ou animar uma festa. Número de festas mensais realizadas no Pará com apresentações destas bandas: 850. Façam as contas e repitam a pergunta que alguns destes artistas fizeram para os pesquisadores da FGV: “quem precisa de uma gravadora?”.
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