
Panorâmica.com
Claudio Ferreira é jornalista de tecnologia e cultura
Publicada em 28 de setembro de 2007 às 13h11
Atualizada em 02 de outubro de 2007 às 12h18
O último livro do mundo
Muitas vozes anunciam a morte do livro, mas quando ela será decretada? Por Claudio Ferreira.
Neste mês de setembro, milhares de pessoas passearam pelos corredores do centro de convenções Riocentro, no Rio de Janeiro, para entrar nos 950 stands da Bienal do Livro, se relacionar com os autores e comprar novos ou velhos títulos. Uma autêntica celebração, um chamamento ao culto do objeto chamado livro. Mas será que em 2015 essa cena será apenas, como disse o poeta Drummond, um "retrato na parede" carcomido pelo tempo?
Tenho uma relação pessoal, íntima com os livros. Li, ainda muito garoto, “Tesouros da Juventude”, um misto de enciclopédia e de cânone da literatura juvenil ao conter histórias de Julio Verne, Monteiro Lobato e outros, coleção que era dos meus irmãos mais velhos. Comprei os policiais da Agatha Christie com oito ou nove anos no Círculo do Livro – que editava livros com capa dura e vendia por meio de um catálogo-revista – com o dinheiro pedido aos meus pais ou com os trocos de pequenas compras no mercado do bairro que eu, sem compaixão, embolsava. Portanto, lá se vão uns bons 30 anos de "vida em comum"!
Ainda lembro da minha mãe falando: "esse menino quer sempre comprar um livro, que coisa!". Como se a minha vontade de ler e acumular os volumes fosse algo meio esquizóide. É claro que não posso me comparar ao José Mindlin, que amealhou 35 mil livros ao longo de oitenta anos, mas já li um bom número, comprei outros tantos (ainda e sempre insuficiente, é claro!) e não pretendo parar tão cedo.
Neste exato momento busco estimular o meu filho de oito anos a entrar nesse mundo feito de letras e papel. Mas será que o filho do meu filho vai entender o que significa(va) ter um livro em mãos? Para alguns cavaleiros do apocalipse o fim do suporte de papel está próximo, mas será que isto é verdade? Há quantos anos você escuta isso em relação aos livros ou mesmo aos jornais, de que a Internet ou mesmo outros meios de eletrônicos vão acabar com a boa e velha polpa processada? E esqueçamos, por hora, qualquer viés de idéia ecológica de não derrubarmos mais árvores, ok?!
Quem lembra do filme Minority Report – Spielberg dirigindo Tom Cruise em um relato de ficção policial baseado em livro de Philip K. Dick (Blade Runner) –, quando figurantes lêem um jornal com informações atualizadas segundo-a-segundo em um meio digital? Esse novo meio é motivo de pesquisas há algum tempo em lugares como o MIT (Massachusetts Institute of Technology), berço para a tecnologia de tela da empresa E Ink, que já é utilizada pelo Sony Reader, lançado no ano passado nos Estados Unidos por 300 dólares e ainda engatinhando nas vendas.
O futuro?
Além do device da Sony, outras duas iniciativas pretendem ganhar espaço na reabertura da discussão de substituição do papel. No mês de outubro, pelo menos essa é a previsão, a Amazon.com deve anunciar o Kindle, um dispositivo para leitura de livros eletrônicos que será vendido por algo entre 400 e 500 dólares. Por enquanto, o que se sabe é que ele vai funcionar por meio de uma conexão sem fios a uma loja de livros eletrônicos que estará dentro do site da Amazon, e o leitor não precisaria mais portar um computador ou laptop.
Até o final do ano, o Google – sempre ele com suas ramificações tentaculares e dinheiro aos montes – vai oferecer acesso online a cópias digitais integrais de livros mediante uma assinatura, fruto de recente acordo com editoras, depois de liberar o acesso de trechos em sua ferramenta. O objetivo é que o leitor não precise mais comprar o livro físico.
Mas será que isso é o futuro? Não custa lembrar que outras iniciativas em plena década de 1990, como o Rocketook ou o Softbook Reader, sofreram da falta de títulos e de dispositivos pouco ou nada atraentes. Uma estranha atração, aliás, é o que une as pessoas aos livros, faz com que eles sejam mais do que objetos, tenham valor e sentido maiores que o próprio meio físico em si.
É certo que o Sony Reader já foi um avanço para o setor com sua tela de seis polegadas, memória para armazenar 80 livros e bateria suficiente para durar 7,5 mil "páginas". Porém, alguns tecnólogos mais radicais dizem que o modo como lemos livros, assim como aconteceu com a música com o iPod, ainda vai mudar e muito, e em breve. Será?
Não consigo pensar na idéia do "não-livro". Ainda penso no objeto como algo lúdico e palpável. Eu, como muitas pessoas, julgo o livro pela sua forma e pela sensação tátil. Nada como folhear as páginas e sentir o seu cheiro, mesmo que embolorado. Ver uma capa bem elaborada, ler um título intrigante ou estimulante. Ler e entender como o autor conectou as páginas e as letras.
Temo que essas sensações se percam com as gerações futuras, que tudo vire um asséptico mundo a la Fahrenheit 451, a obra de Ray Bradbury filmada em 1966 por Truffaut, que mostra um futuro sombrio no qual os livros são proibidos e queimados como uma forma de controle social. Um livro que tem como título exatamente a temperatura na qual as folhas queimam.
Não sei se para você, que está me lendo na Internet agora, é fácil ou estranho pensar em um mundo sem livros ou no qual eles sejam relegados ao posto de algo ultrapassado e condenado. Não tenho ranços saudosistas, pelo menos não com tanta freqüência. Confesso, por exemplo, que não tenho muitas saudades do vinil, porém já começo a ter saudade dos livros.
Tendo a concordar com o escritor, semiótico e genial intelectual italiano Umberto Eco, que disse em entrevista ao jornal O Globo, ainda em 1998, "os livros são como o martelo e a colher: depois de criados, não houve mais forma de melhorá-los. O mesmo ocorre com o espremedor de limão. Os objetos de leitura formam parte desses maravilhosos utensílios que a humanidade inventou e ainda nos vão acompanhar por muito tempo, para sempre". Eu, humildemente, espero que ele esteja certo!
Claudio Ferreira é jornalista e escreve sobre tecnologia há 10 anos e sobre cultura desde sempre. E-mail: cferreira2006@gmail.com
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