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09 de novembro de 2009
Colunistas

Panorâmica.com

Claudio Ferreira é jornalista de tecnologia e cultura

Publicada em 15 de agosto de 2006 às 18h07
Atualizada em 16 de agosto de 2006 às 18h26

Arte versão 2 ponto 006

Duas mostras em São Paulo ampliam a percepção da arte tecnológica. Por Claudio Ferreira.

Se é verdade que a arte moderna morreu no século 20 e tenta ressuscitar do túmulo no século 21, uma das formas possíveis de recriação é aquela propiciada pelas novas tecnologias. Mas nada de um computador ligado emitindo barulho de estática em uma sala escura, como podem pensar alguns, repletos de ceticismo quanto aos novos caminhos trilhados pela arte contemporânea, tão cheia de happenings e tentando chegar a aquele que a vê muitas vezes pela via do estranhamento.

Podemos falar de experimentos que unem equipamentos de ponta com interatividade levada ao extremo humano, como nas duas mostras recém abertas em São Paulo, que revelam os caminhos de interseção entre tecnologia e arte: a FILE e a Art.ficial 3.0. Dois bons exemplos da criação arte/tecnologia atual.

A FILE, em caixa alta mesmo, é a sigla de Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, que traz como sua grande estrela o artista espanhol-catalão Marcelli Roca e seu Epizoo, no qual os visitantes podem, por meio de um mouse, manipular todos, ou quase todos, os músculos e a pele do corpo do artista. Bizarro, beirando o escatológico ou apelativo dirão alguns, a "instalação" pode ser encarada como uma metáfora da própria Internet, na qual a pessoa dá vida a uma ou várias personas virtuais ao "manipular" o seu mouse. A interatividade óbvia se mescla ao voyeurismo, de ver o corpo do artista se desfigurar ou reconfigurar diante de seus olhos, sensações também típicas das relações da web.

Outra experiência que confunde o real e o virtual é a motivação da artista belga Naziha Mestaoui, chamada de H2O, a fórmula da água para quem ainda não sabe, na qual o visitante pode se inserir como um novo personagem no cotidiano de uma mulher ao pisar em um tapete. Uma brincadeira entre os limites da realidade virtual e a vida pessoal do humano – subtema moderno ainda tão atual, secreto e ilimitado quanto era na época de Marcel Proust ou Balzac.

 Punk-arte

Estas são apenas algumas das experiências do FILE, que se não deve agradar a quem ainda vê a arte do século 21 com estranhamento, mostra como a tecnologia está sendo a palheta e a tela do novo artista plástico. O mesmo ideário ambivalente se faz presente no Emoção Art.ficial 3.0, que está em sua terceira edição como o nome revela. A grande novidade da edição é a escolha dos artistas pela equipe do Itaulab, departamento que desenvolve projetos de mídia como modelagem em 3D. O resultado é uma mostra espartana, com apenas 13 trabalhos, que reforça a metalinguagem ao trabalhar dentro do tema moderno "Interfaces cibernéticas".

>Veja algumas da obra da exposição

Traduzindo, vemos mais formas de interatividade possíveis. Algo que, aliás, não é tão novo na arte, vide as pesquisas sensoriais de muitos escultores no século passado ou o boom da vídeoarte nos anos 90. O mais intrigante e interessante dos trabalhos é o de Edmond Couchot e Michel Bret, chamado de Les Pissenlits. Aqui, o visitante pode soprar microfones que, de acordo com a intensidade usada, vão despetalar dentes-de-leão formando diferentes mosaicos de cor, luz e sombra na tela do computador.

Entre um sem-número de interpretações possíveis da visão destas mostras, uma delas pode ser convergente para o atual momento das artes dentro do ponto de vista da tecnologia. Em pleno século 21, os equipamentos e sistemas trazem além do experimento em si o acesso a todos. Não é absurdo apontar que as possibilidades da computação pessoal de baixo custo podem ser comparadas, mesmo que de forma irônica, ao advento do punk na música do final dos anos 70.

Não é preciso mais saber qual a melhor forma de se misturar uma tinta para obter um efeito de cor ou ser um expert em perspectiva quando o seu PC pode fazer isso em um programa de forma automática, basta ter uma idéia e a concretizar. Essa universalização, no entanto, traz efeitos colaterais, fazendo com que, de acordo com os ditames da arte contemporânea, tudo possa ser arte. Assim como qualquer grupo de adolescentes com idéias parcas podia fazer punk-rock... Mas sempre pode surgir um Clash que merece ser conhecido entre tantas coisas.

 FILE – Galeria de arte do Sesi
Avenida Paulista 1313
Cerqueira César, São Paulo-SP
de 3a a sábado, das 10 hs às 20 hs,
domingo das 10 às 19 hs.
De 14 de agosto a 3 de setembro. Grátis.


Emoção Art.ficial 3.0
Itaú Cultural
Avenida Paulista 149,
de 3a a 6a, das 10 hs às 21 hs
sábado e domingo, das 10 hs às 19 hs.
Vai até o dia 24 de setembro. Grátis

Claudio Ferreira é jornalista e escreve sobre tecnologia há 10 anos e sobre cultura desde sempre, no momento finaliza livro sobre os dez anos da internet comercial no Brasil. E-mail: cferreira2006@gmail.com

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