O que une conexões "gatonet" em LAN houses, Kraftwerk tocando no baile da saudade em Belém e a explosão no acesso à web pelas classes C e D nos últimos quatro anos?
A apropriação própria de ferramentas tecnológicas por grupos à margem da "elite" que represa não apenas grande parte das conexões no País, mas também dita os rumos da cultura decorrente da internet.
O painel "Digital Frontier: Aprendizes do Século XXI", mediado por Marcelo Coutinho, do Ibope Inteligência e colunista do IDG Now!, misturou extremos do setor de tecnologia.
De um lado, Oswaldo Barbosa, diretor geral de mercado consumidor e online da Microsoft, divisão responsável pelo juggernaut Messenger no Brasil. Do outro, Carla Barros, pesquisadora da ESPM que pesquisa o impacto da tecnologia na comunidade carente de Vila Canos, no Rio de Janeiro.
O debate começou com a análise, até então inédita de Coutinho, que mostrou que o acesso doméstico à web entre os lares que ganham até 10 salários mínimos triplicou em 4 anos, enquanto a cifra se mantém inalterada no mesmo período. A análise se apoiou em dados do PNAD, divulgados em setembro.
Tanto a centralização de serviços financeiros em LAN houses como a popularização de uma indústria (o tecnobrega nas regiões Norte e Nordeste) nascida em um ambiente pobre tecnologicamente provam apropriações de ferramentas usadas amplamente pelas classes A e B de maneira que expressem os ambientes em que vivem.
Não é a toa que a entrevista com Carla, em que ela descreve sua experiência em Vila Canos, é a que mais rodou neste Idéia 2.0 entre todos os outros entrevistados aqui como forma de divulgação do Digital Age 2.0.
Existem formas de expressão e mercados fomentados pela apropriação totalmente ignoradas pelas classes citadas por Coutinho como as já incluídas digitalmente, aquelas que não crescem nos últimos quatro anos.
"As classes A e B estão se tornando periferia da periferia, que já descobriu seus métodos e culturas de expressão", explica Lemos, citando frase do antropólogo Hermano Viana, seu sócio no Overmundo.
Durante o debate, Lemos anunciou que seu novo livro (detalhado em podcast neste Idéia 2.0) já está disponível para download gratuito sob uma licença Creative Commons.