Código aberto (ou livre) não é um movimento que atinje apenas
softwares. Por pressão das interações com usuários na mídia social,
marcas também podem ser atreladas ao conceito de construção coletiva,
queiram seus responsáveis ou não.
Problema é que, segundo Abel Reis, presidente e COO da AgênciaClick, as
empresas brasileiras ainda não exploram a maneira mais correta de
"conversar com seus consumidores - criar ambientes relevantes, e não
influenciar o conteúdo de blogs com promoções ou prêmios.
Nesta entrevista com o IDG Now!, Abel analisa também como a
mídia social forçará empresas a definirem mais pontualmente seus
objetivos e a visão que querem projetar ao mercado e explica como
publicitários podem aproveitar o conteúdo da pesquisadora danah boyd.
No Digital Age 2.0 2008, Abel será o mediador da apresentação de Boyd, já entrevistada neste Idéia 2.0 e que se concentrará nas dinâmicas da interação entre jovens dentro de redes sociais.
Como as pesquisas da Danah Boyd se aplicam ao mercado publicitário?
Ela tem um análise das redes sociais do ponto de vista antropológico
que pode ser relevante para entender a dinâmica dos grupos nos dias de
hoje e as implicações que eles têm para a publicação publicitária.
Não é um marqueteiro falando de redes sociais, mas um ponto de vista
sociológico. É como olhar um documento antropológico sobre consumidores
em um shopping center e usá-lo como guia para fazer sinalizações
adequadas no ambiente.
As pessoas (do setor) têm que olhar (o trabalho de Danah) como um
relatório de campo que traz uma série de indicativos de comportamento,
perfil e atitude (da nova geração) que têm que ser levados em conta no
planejamento de comunicação para estes ambientes.
(As pesquisas) têm todo um aproveitamento para tendência, perfil e
consumo no mundo digital e portanto tem maior interesse para comunicação
Já existe idéia de alguma discussão que vai propor a ela?
Existe uma questão que eu claramente queria ver ser endereçada que é o
problema da privacidade. Há um dilema na atual comunicação, já que, nos
veículos de massa, a questão das preferências individuais não são
relevantes, uma vez que a comunicação tem grande alcance.
Quando se faz comunicação publicitária em meios digitais (redes
sociais, principalmente), a questão das preferências e expectativas
individuais se torna importante. Para ter eficiência na mensagem
publicitária, é preciso considerar a fragmentação dos grupos e saber
mais sobre as pessoas.
Para saber mais, elas precisam estar dispostas a falar mais. Como fazer
isto de maneira não invasiva e que a linha entre a informação recebida
e a invasão de privacidade seja mais definida?
Quero entender quantos consumidores estão dispostos a negociar suas
próprias privacidades em troca de uma mensagem relevante com conteúdo
publicitário.
Qual o principal erro de empresas brasileiras que se arriscam na mídia social hoje em dia?
O erro mais predominante é pensar em intervenções e influências nos
conteúdos de blogs. As marcas não conseguiram no Brasil (e talvez no
mundo ainda não também) criar um ambiente que eu chamo de uma "marca
open source" efetiva e construir comunidades que tenham relevância
suficiente para que o consumidor queira participar da conversação ao
redor da marca.
A publicidade sempre trilhou um caminho em que a comunicação é
unidirecional. A mídia social traz a oportunidade para que as marcas
encontrem o que os consumidores esperam que ela seja. A diferença é que
você precisa construir ambientes participativos relevantes e estar
aberto a provocações e direções que a dinâmica vai trazer para você.
Sempre cito dois exemplos a respeito deste assunto. Há 6 meses, fiz um
levantamento e percebi que no Facebook haviam 35 comunidades de
Havainas, sendo que 32 eram voltadas a estrangeiros, sem que nenhuma
fosse oficial.
Por outro lado, se você procurasse por Victoria's Secret, haviam
muitas, mas a maior era a oficial. É preciso abrir um espaço
conversacional. As marcas ainda não construíram espaços abertos que
dêem oportunidade de ensejar conversações ou mesmo ouvir consumidor.
Aceitaria conduzir uma campanha em mídia social de companhias tradicionalmente fechadas, como operadoras de telefonia móvel?
Claro, sem dúvida. Você vai levar porrada a dar com pau, mas vai
prestar contas a dar com pau. Você vai ser muito criticado e vai abrir
espaço de muita polêmica, mas também vai ter a oportunidade de
responder com consistência a todas as polêmicas de maneira
absolutamente transparente.
Toda marca que se propõe a ter serviços ou produtos na vida das pessoas
tem que estar aberta a conversar com elas, não? As redes sociais são um
espaço maravilhoso para aprender sobre o que você quer ou não quer.
A recente palavra mágica da publicidade digital é "engajar". Como
você definiria o engajamento dos usuários com as marcas dentro de redes
sociais?
Engajamento é uma condição de diálogo e conversação que você abre com
seus consumidores. Engajar é conversar. Conversação é post, é mensagem,
é resposta de post, é link de blog que leva a post dentro da sua
comunidade.
Quando se fala em engajar, no fundo, o que eu quero ter é oportunidades
concretas de dialogar com ele em diversos ambientes, seja em blogs, no
Orkut, no Facebook ou no Twitter.
Entre os novos modelos de publicidade online, fala-se muito em um possível "mecenato digital". Este modelo tem futuro?
Sempre achei que marca não deve tentar aliciar seus consumidores. E
digo isto porque a marca é mais valiosa quanto mais relevantes são os
significados do universo que ela oferece aos consumidores. Em poucas
palavras, uma marca é um universo de significados ao qual você quer
pertencer.
A marca tem que ter seus objetivos claro e colocar isto à prova através
de serviços e ambientes conversacionais. Não só por que assim ela será
transparente, mas também para aprender sobre o que as pessoas esperam
sobre evolução da própria marca.
Isto forçaria as marcas a saberem exatamente o que querem entregar aos consumidores.
Sim, claro. Vivemos em um ambiente social de clara perda de
referências. As grandes narrativas foram pro saco. Deus morreu no
século 19. O comunismo morreu em 89. Paramos de acreditar em empregos
de longa duração em que você entrava e sabia o que aconteceria 30 anos
depois na década de 80.
Em um espaço com pouca referência, marcas são pontos de estabilidade em
comportamento, atitude e desejo. Se ela não sabe o que entrega, está
condenada a morrer. Esta clareza sobre o que ela entrega é uma clareza
sobre qual é sua missão e como pode ser importante a seus consumidores.
Diria que há um papel ético de sinalizar aos consumidores a atitude
correta diante do mundo, como (as campanhas) "Just do it" (da Nike) ou
"Think different" (da Apple). Se você tem clareza, pode ser
transparente e entrar em discussões sem medo de ser desrespeitado ou
ter sua reputação desmontada. Faz parte da dinâmica do diálogos com as
marcas com os mercados.