19 de Setembro de 2008

Entrevista: danah boyd e a maneira como os jovens interagem nas redes sociais

selo_danah_11_160Danah boyd não tem idade para ser considerada uma "nativa digital". Isto não significa que a pesquisadora, nos estágios finais da sua tese de doutorado na Escola de Informação da Universidade de Berkeley, esteja longe de entender o mundo das redes sociais.

Danah encarna próximo à perfeição em um perfil classificado como "live digital" pelos autores do livro "Born Digital": alguém que não cresceu com a internet, mas acostumou-se e vive a revolução digital de maneira tão intensa quanto ou superior aos mais jovens.

Mais que isto: danah (a grafia do seu nome em letras minúsculas é escolha sua) é também a líder da ascenção de pesquisadores que vêm construindo uma bibliografia acadêmica sobre um assunto ainda explorado superficialmente dentro de universidades: a maneira como usuários interajem nas redes sociais.

A tese de doutorado de danah se concentra exatamente neste ponto: como jovens se apresentam em interações dentro de redes sociais (Facebook e MySpace, principalmente) e negociam sua socialização com o que ela chama de "audiência invisível".

Nesta entrevista, ela fala sobre a tensão existente entre os nascidos na era digital e os que se acostumaram a ela e detalha a formação de identidade dos jovens em um ambiente pontuado por diferentes avatares.

Danah abre o segundo dia do Digital Age 2.0, que acontece nos dias 1 e 2 de outubro, no WTC Hotel, em São Paulo, com uma palestra chamada "Navegando em um mundo conectado e entendendo a audiência das redes sociais", que terá mediação do presidente e COO da AgênciaClick, Abel Reis.

Existe algum perfil médio entre aqueles chamados de "nativos digitais"?
Não existe um perfil médio. Existem, sim, práticas dominantes. Por exemplo, a grande maioria dos adolescentes norte-americanos usa redes sociais para se comunicar com seus amigos e contatos. Seus perfis são estruturados ao redor de suas atividades.

Usuários mais velhos geralmente usam redes sociais para se comunicar com pessoas que conhecem e perderam contato. Entre eles também é mais provável o uso de comunidades de interesse, ou até para namoros online. Esses dois hábitos os colocam em contato com estranhos freqüentemente. Adolescentes são muito menos propensos a interagir com estranhos.

Qual é o ponto mais importante que os "imigrante digitais" devem saber antes de lidar com os jovens acostumados com a internet?
A internet reflete e amplia todos os tipos de dinâmica. Ela pode ajudar negócios e políticos a atingir audiências mais amplas, mas a mesma escala pode significar que uma foto constrangedora pode ter alcance maior.

A internet permite que pessoas se conectem por grandes distâncias, mas isto também significa que existem todos os tipos de colisões culturais, o que força pessoas a negociarem um ambiente no qual nem todo mundo pensa como você.

A internet faz com que o tempo e o espaço entrem em colapso, mas o contexto também é atingido. Por isto, é bastante difícil dizer se você está curtindo com seus amigos ou se engajando em negócios quando interaje online.

Estas dinâmicas são parte da mudança de cultura trazida por uma mídia conectada como a internet. É fácil ser nostálgico e lembrar o quão simples as coisas eram ou ter medo e reclamar dos potenciais custos sociais ou ser utópico e imaginar como a tecnologia salvará o mundo.

A realidade não é nada próxima do drama. A internet está realmente reformulando muitas dinâmicas sociais, mas a humanidade provou que se adapta muito bem às mudanças.

A pluralidade de identidades que o ciberespaço nos permite representa uma ameaça à formação da personalidade dos "nativos digitais"?
Isto é um mito. Desde o começo dos anos 80, pessoas vêm falando sobre como  a internet fragmentaria e permitiria desordens com múltiplas personalidades. Esta é uma bobagem completa.

As pessoas incorporam a internet em seus cotidianos. Interajem online com um mesmo número qde pessoas que fazem no mundo offline. O telefone não fragmentou a identidade só porque permitia que as pessoas falassem por grandes distâncias sem olhar nos olhos dos outros.

Mas só porque você aparece no Carnaval com uma fantasia que não teria coragem de usar no trabalho isto não significa que sua identidade foi de repente fragmentada ou você experimentou uma deformidade na sua identidade.

A internet redefine o ambiente social no qual trabalhamos nossa identidade, mas não a destróia. Nós aprendemos a funcionar dentro de uma estrutura existente.

A liberdade que temos online vai até o ponto onde começam os interesses de companhias responsáveis pelas nossas conexões de banda larga?

Estejamos nós falando sobre o controle direto de banda larga da China ou as regulamentações de provedores no Brasil, não vamos esquecer que os governos têm um papel nisto e seus interesses definitivamente estão envolvidos no processo.

Não consigo controlar muitos dos canos que chegam a minha casa - eletricidade, águas, gás, etc. Dependo da combinação de mercado livre com regulamentação do governo para fomentar uma infra-estrutura e torná-la aberta, segura e de fluxo livro. Quando a infra-estrutura é colocada em risco, sou forçada a confrontar a realidade em que estou completamente dependente disto.

A rede é uma neutralidade, seja pública ou privatizada, seja fibra para banda larga ou espectro para web sem fio. Mais uma vez, sou forçada a depender em uma combinação de mercado livre e regulamentação do governo.

Agora mesmo no meu país, nenhuma das forças estão trabalhando para mim e isto é muito problemático. Tanto a inovação como a liberdade do consumidor estão restritas. As coisas estão piores no espaço móvel que no de banda larga, mas ambos estão bem ruins. Meu entendimento é que o seu país, neste aspecto, é melhor, mas não ótimo.

Quanto a questões de utilidades no passado, devemos nos perguntar como melhor atingir o que queremos. Pode o mercado livre resolver nossas necessidades? Qual o melhor papel que o governo pode ter para ganhar um acesso neutro, aberto e igualitário? Esta é a questão da nossa geração.

A paixão dos usuários em redes sociais pode ser encarada como um modelo de negócios?
Bom, grandes partes da internet dependem de propaganda que, por sua vez, depende de um constante aumento no consumo. A publicidade funciona quando está no contexto - se você está olhando para uma informação ou para referências culturais. A publicidade é uma péssima interrupção a interações sociais.

Encontrar um modelo de negócios para suportar interações sociais quase sempre dependeu ou do controle de acesso (ingressos para eventos) ou do fornecimento de álcool para facilitar as conexões sociais (bares ou clubes, por exemplos) ou da relação de um serviço secundário onde cobrar é aceitável (restaurantes ou cinemas, por exemplo).

Redes sociais não entram em nenhum destes modelos. Eles lembram mais espaços abertos, gratuitos e públicos (como a praia ou o parque). Por mais que existam exceções, a maioria das praias e parques não tem um bom modelo de negócio, a não ser que você cobre impostos.

Qual o caso de comunidade online baseado em algo (um carro, uma marca, um time de futebol, etc) que mais lhe impressionou?
Olha, eu não sou isenta. Estou muito impressionada com comunidades online que engajam civicamente as pessoas. Fiquei extremamente admirada pela ação coletiva que ocorreu entre os cidadãos filipinos que usaram SMSs e outras formas de mídia social para se organizar e confrontar a autoridade de seu Governo.

Mais próximo a mim, também me surpreendi pelos adolescentes que usaram o MySpace para protestar contra o tratamento indecente dado a imigrantes ilegais.

Se você não segue o GlobalVoices (em português), você deveria. Trata-se de uma incrível comunidade online de pessoas que traduzem posts em blogs de diferentes línguas para que pessoas ao redor do mundo possam saber o que acontece regionalmente.

Quão decisivas podem ser as redes sociais às eleições presidenciais dos Estados Unidos?

A tecnologia é uma ferramenta. Os jovens entre 18 e 30 anos serão bastante decisivos nas eleições e, sem surpresas, estão usando redes sociais para declarar suas preferências. Redes sociais são um canal de comunicação e uma plataforma que produzem públicos conectados.

A importância está na maneira como as pessoas as usam e eu acho que números significativos de jovens estão usando e usarão (os serviços) por mensagens políticas. Nós já vemos as redes como um lugar chave onde pessoas enviam informações a seus amigos sobre diferentes candidatos.

Além do Orkut (danah participou de um estudo sobre a popularidade da rede no Brasil), o que mais você sabe sobre a ação de brasileiros na mídia social?
Sigo o trabalho de Raquel Recuero (responsável por coordenar a mesma pesquisa) e sigo tendências globais. Sei que MySpace, Facebook e Twitter estão ganhando tração entre determinados grupos da população no Brasil, mas nenhum conseguiu passar o Orkut e eles não são nem um pouco populares como nos Estados Unidos.

Vocês têm um rico ecossistema de mídia social - sites como MSN Live, YouTube, Blogger e Fotolog. Sites menores (como Plurk e Blip.tv) estão crescendo ou já são amados por grupos de nichos. A mídia tradicional, como a Globo, também faz um bom trabalho em atingir as pessoas.

O fenômeno de mídia social que vocês têm no Brasil é liderado principalmente pelos jovens, mas quase não existem muitas forças de restrição que aqui (nos EUA) ao redor do uso de mídia social pelos jovens. Na verdade, os problemas de violência no seu "mundo real" incitam uma participação muito mais rica dos jovens em ambientes mediados.

Publicado por Guilherme Felitti, às 07h00