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21 de setembro de 2009
Colunistas

Brasil 2.0

Cid Torquato é consultor especializado em Economia Digital

Publicada em 26 de novembro de 2007 às 07h00

Feliz Ano Velho 2.0

Após acidente, Cid Torquato fala sobre tecnologias que lhe permitem voltar a usar o computador.

“Subi numa pedra e gritei:
- Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.
Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que ouvi a melodia: biiiiiiin.
Estava debaixo d’água, não mexia os braços nem as pernas, somente via a água barrenta e ouvia: biiiiiiin.”

Assim começa o livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, quando ele descreve os segundos fatídicos que o separaram da normalidade para a tetraplegia. Não muito diferente do que aconteceu comigo, cerca de 30 anos depois, em uma noite de maré baixa, acompanhado de outros personagens, em um cenário bem diferente, o arquipélago de Brijuni, na Croácia, que tem um litoral conhecido por suas praias de águas cristalinas, com fundo de calcário, cujo reflexo do sol pode ser visto pelos astronautas no espaço.

Errei no cálculo e o resultado foi uma lesão raquimedular da quinta vértebra, a famosa C5, que me deixou tetraplégico, mudando radicalmente o curso da minha história, que recomeçou com a colocação de uma placa de titânio em Zagreb e continuará com intermináveis sessões de fisioterapia pelo resto da minha vida.

Hoje, pouco mais de dois meses depois da tragédia, estou clinicamente em ótimas condições, mas a sensação é de claustrofobia, por estar preso dentro de um corpo que conheço, mas que não mais me pertence por completo, pelo menos por enquanto, até que eu vá recobrando, aos poucos, os movimentos, comandos e controles, que, na verdade, já começam a voltar, ainda que lentamente.

De certa forma, o ponto mais surpreendentemente negativo de um processo como este, que envolve médicos, hospitais, terapeutas e centros de reabilitação, é enfrentar a empresa de seguro de saúde, no meu caso, uma das maiores do país, que sonega direitos aos seus segurados e se nega a pagar por intervenções e procedimentos fundamentais para os tratamentos necessários. Tais direitos, contudo, são facilmente reconquistados através de mandados de segurança e de ações judiciais diversas, aos quais – as empresas sabem e jogam com isso – nem todos os prejudicados recorrem.

Por outro lado, é comovente receber a corrente espontânea de solidariedade que se forma ao nosso redor, desde as centenas de manifestações de apoio, até contribuições concretas, que podem ir da oferta de equipamentos e novas tecnologias, passando pela dedicação de tempo, carinho e companhia, chegando, mesmo, a doações e presentes, às vezes de onde menos se espera.

Quanto às questões tecnológicas, que já me permitem retomar parte de minhas atividades profissionais, é interessante descobrir o que existe de disponível para facilitar o uso do computador.

Hoje, apesar da dificuldade de encontrarmos informações, há um sem-número de recursos incríveis, que facilitam a vida de descapacitados dos mais diversos matizes e patologias.

Vale a pena conhecer os sistemas de reconhecimento de voz, como o Motrix, o SpeechMagic da Philips e o famoso Dragon NaturallySpeaking, ou mesmo o Reconhecimento Síntese de Voz no GNU/Linux, para os amantes de open source, entre vários outros.

Embora com poucos dados no mercado, a Digibrás, do grupo CCE, lançou, no Brasil, um mouse ocular, em linha com o que há de mais avançado no mundo, produtos que podem ser encontrados em sites internacionais como o espanhol Ceapat, o Abledata e o Assistive Technologies, cujo acervo é simplesmente impressionante, bem como os brasileiros Tecnologia Assistiva, Clik e Home Control, sobre automação residencial.

No mesmo contexto, é importante familiarizar-nos com as normas do World Wide Web Consortium, mais conhecido como W3C, que estabelece padrões de acessibilidade e inclusão de deficientes para navegação na Internet em geral.

Com estas e outras informações, além da experiência que venho acumulando, quem sabe não seja o caso de criarmos, no Ano Novo, apesar da ironia e do trocadilho, o C.I.D., ou melhor, o Centro de Informática para Deficientes. O que acha?

*Cid Torquato é advogado e consultor especializado em Economia Digital. E-mail: cid@torquato.org

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