Entenda como as novas fronteiras da privacidade na rede afetam você
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A privacidade não morreu – ela apenas está se transformando. Esta foi a conclusão a que chegou o etnógrafo Tim Lucas depois de inúmeras viagens pela América Latina para ouvir usuários de redes sociais e serviços online – jovens, principalmente.
Lucas é fundador da TWRAmericas, operação brasileira da consultoria TWR, que estuda hábitos de consumo nos Estados Unidos e no Reino Unido e a relação dos consumidores com suas marcas preferidas dentro de novas mídias, e comando o blog bilíngüe da companhia.
Com experiência tanto no Reino Unido, onde nasceu, como no Brasil, onde mora atualmente, o etnógrafo não apenas analisa nesta entrevista ao IDG Now! a maneira como encaramos a privacidade com a abertura das redes digitais, mas também traça comparações entre britânicos e brasileiros.
A facilidade com que é possível se expor hoje nos leva a uma realidade em que esferas pessoais, profissionais e acadêmicas se fundem em apenas um ambiente que exige, tanto dos empregados como das empresas, novas posturas e limitações – Lucas acredita que as companhias devem ajudar seus funcionários a moldarem essas novas fronteiras da identidade digital.
Na entrevista a seguir, Lucas também discorre sobre as diferenças na maneira como interagimos com contatos próximos ou distantes dentro das redes sociais e detalha mudanças na maneira como estamos projetando nossas identidades na internet.
A divulgação de informações pelo Facebook ou pelo Orkut (como viagens de férias ou casamentos, por exemplo) introduz que tipos de mudanças na maneira como interagimos com nossos amigos e família?
Acho que as pessoas estão usando o Facebook tanto para substituir como para melhorar modos antigos de comunicação, o que nos permite ter novos padrões de interação - um exemplo muito pessoal é que estava em Londres em agosto e consegui assistir pelo Skype o ultrassom da minha mulher e nosso primeiro filho no hospital aqui em São Paulo.
Esta foi uma experiência incrível que não era possível anteriormente. Nós também somos capazes manter contatos que poderíamos perder no passado e descobrir novos familiares sobre os quais não sabíamos. A maneira como estas relações se desenvolvem provavelmente não deve ter mudado muito - se descobrirmos que o membro da família reencontrado é chato, provavelmente pararemos de responder após certo tempo!
Em sua apresentação no evento New Business Communication, em São Paulo, você menciona que a privacidade não foi extinta, apenas sua definição mudou. Que mudanças são estas?
Ainda pensamos sobre questões envolvendo privacidade, mas estamos mais abertos aos potenciais benefícios dos (lados) positivos da privacidade, o que significa que estamos alegres por mostrar mais se achamos que isto nos trará benefícios sociais em longo termo.
Podemos indicar diferenças regionais na maneira como este novo conceito de privacidade se desenvolve?
Diferentes países têm pequenas diferenças no conceito de privacidade e as pessoas que autorizamos acessar nossas informações podem ser um pouco diferentes (quanto à conceituação de privacidade). Por exemplo, aqui no Brasil acho que as pessoas confiam menos no governo, mas confiam mais em marcas e propagandas quando comparado ao Reino Unido - isto está possivelmente ligado às diferentes histórias de relacionamento político com o Estado (em cada um dos países).
Outro exemplo é que no Reino Unido as pessoas não têm medo de sequestro (ao divulgarem informações online), mas poder ser mais reticentes no compartilhamento de segredos pessoais com suas famílias, por exemplo (me parece que brasileiros estão menos preocupados quanto a isto).
Após minha apresentação (no New Bussiness Comunication), um estudante veio falar comigo sobre os problemas em Columbia já que crianças deixam mensagens no Facebook sobre seus movimentos e seus pais são sequestrados. Acho que estas pequenas diferenças são baseadas em definições e relações culturais relativas á privacidade offline que ainda são relevantes online.
O constante contato com pais (por meio de redes sociais ou comunicadores, como o Windows Live Messenger) muda a maneira pela qual as crianças serão educadas?
Diria que a classe social tem um grande efeito sobre como as crianças são educadas. Acho que uma observação ainda mais interessante é como crianças estão mudando para o aprendizado e o reconhecimento P2P.
Existem ótimos trabalhos do (instituto) Pew (Internet & American) Life Project que indicam algumas destas mudanças. No passado, as crianças recorriam aos pais quando precisavam de guias e ajuda, mas agora existe um compartilhamento P2P de pensamentos e conselhos que as crianças buscam reconhecimento tanto nos contatos como nos seus pais.
Estamos nos encaminhando para uma realidade na qual, ao invés de identidades pessoal e corporativa separadas, teremos apenas um que poderá ser explorada de acordo com a situação?
Haverá um desafio interessante para as companhias no futuro. A maioria delas está apenas começando a considerar a realidade nas quais seus funcionários já vivem. Acho que a maioria dos indivíduos está encarando a necessidade de experimentar e gerenciar suas identidades e alguns deles são mais felizes em permitir que estas áreas se misturem assim como outros são mais felizes em mantê-las separadas.
No entanto, esta é apenas parte de uma mudança maior – nossos clientes podem nos ligar na madrugada ou podemos ver e-mails no fim de semana. Estamos tentando determinar nossas próprias fronteiras, mas as empresas poderiam ajudar empregados em determinar algumas destas fronteiras.
Na América Latina, você tem notado a migração de redes sociais com sucesso regional (como Hi5 e Orkut) para o Facebook? Esta é uma tendência inevitável?
Percebi (esta migração) no Peru e no Brasil, os únicos países que estudei especificamente, principalmente entre parte da população com mais contatos em outros continentes e classes sociais mais altas.
Se é inevitável? Não. Com mais escolha, haverá maior filtragem de diferentes pessoas em diferentes redes sociais. A grande questão, no entanto, é como o Orkut reagirá.


