Classe C: o poder que a maior camada social do Brasil terá na internet
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Não é todo país em desenvolvimento que vê um grupo do
tamanho da população na metropolitana de Nova York ascender de camadas mais
baixas e, sustentado pela estabilidade econômica, se tornar a maior classe
social do país.
Tamanho não explica totalmente a trajetória da classe C no Brasil nos dois
últimos anos, que viu também seu poder de consumo elevado, o que faz do grupo
alvo obrigatório para empresas nos próximos anos.
Na internet não é diferente.
Potencializada pelas medidas de inclusão digital adotadas
pelo Governo nos últimos quatro anos, a classe C se vê responsável pelos
seguidos crescimentos na base de internautas no Brasil e começa a forçar as
empresas digitais e repensarem suas estratégias online, antes tão focadas nas
classes A e B.
Quem sustenta este crescimento estável, mas também explosivo dessa base desde
2006, quando éramos
apenas 14 milhões de internautas? A classe C, responde prontamente
Alexandre Magalhães, gerente de análise de mercado do Ibope//NetRatings.
Segundo Magalhães, o crescimento vem “desde 2006, mas agora
está se acentuando. Quem está ‘distorcendo’ (os números) para cima, no bom
sentido, é a classe C”, afirma.
No total, são cerca de 40 milhões de internautas no
Brasil, segundo a Cetelem, sendo que 6 milhões, no mínimo, são da Classe C e entraram na internet nos últimos três anos.
Entre 2005 e 2007, uma conjuntura de estabilidade
financeira, aumento do crédito aos menos favorecidos e crescimento nos empregos
com carteira assinada fez com que 19,5 milhões de brasileiros entrassem na
classe C, tornado-a a maior do Brasil, segundo estudo divulgado pela Cetelem,
realizado em parceria com a Ipsos.
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Com terreno fértil pela estabilidade econômica, a adoção
de computadores, motivada pelo programa Computador para Todos, foi recorde em
2007, com 10,7 milhões de PCs vendidos no Brasil, número maior que as 10
milhões de TV vendidas no mesmo período.
“Com certeza, são 6 milhões de clientes potenciais a mais passando por sua
loja”, exemplifica Franck Vignard-Rosez, diretor executivo de marketing,
parcerias e novos negócios da Cetelem Brasil. “É irreversível”, sintetiza.
Para Ari Meneghini, diretor executivo da Internet Advertising Bureau (IAB)
Brasil, os milhões de novos internautas dão massa crítica para que grandes
marcas que antes ignoravam a internet (a rede Casas Bahia é o principal exemplo
deste grupo) comecem a se movimentar para não perder na web uma clientela do
varejo tradicional.
“A internet vai ter que conversar com estas pessoas. O site do varejista precisa usar o linguajar e as referências daquela pessoa”, explica Mariana Balboni, gerente do Centro de Estudos sobre Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC.br). “A rede é muito rebuscada. É preciso trazer o universo da população de baixa renda e criar conteúdos com a mesma referência", detalha.
Além da linguagem, há possíveis assimilações digitais de
processos que a camada social vem enfrentando nos últimos anos, como a expansão
do crédito.
“A maior mudança será o crédito. Esta classe social precisa
dele para consumir e hoje são poucas as empresas capazes de oferecer isto de
maneira online”, discorre Meneghini.
A renda média disponível por que afirmou à Cetelem que
pretende usar a internet para buscar informações de produtos caiu
vertiginosamente de 1.041 reais em 2005 para 399 reais dois anos depois.
A “culpa” está, de novo, na integração de milhões de novos
consumidores que não contam com a parruda média das classes A e B, o que leva
os analistas a considerarem o escorregão no conceito “uma queda boa”.
Ainda que seja a mais representativa, a renda média para informações não está
sozinha – o faturamento médio de quem compra online caiu da média de 4 mil
reais em 2005 para 3,6 mil reais em 2007.
A queda indica que alguns dos novos internautas já estão virando consumidores
digitais, muito embora o
gap a ser vencido ainda seja gigantesco – apenas 5% dos brasileiros
compraram algo online em 2007, diz a consultoria.
Os 95% que ainda não realizaram compras pela internet fazem com que o potencial
do e-commerce brasileiro nos próximos anos se transforme em ouro puro para
empresas do varejo, estejam elas na internet ou ainda não.
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E quem vai puxar este consumo? Para Magalhães, os jovens. O contato com LAN
houses, principais
veículos de inclusão digital no País, faz com que os filhos da classe C
pressionem os pais por banda larga, serviço que hoje não tem mais tanto impacto
no bolso dos menos abastados, lembra ele.
Além de contrair a suposta teoria que a conexão dial-up seria a porta de
entrada online para usuários de baixa renda, a análise do consultor do Ibope
coloca nos jovens a responsabilidade pela adoção não apenas do PC, mas também
das compras eletrônicas nas classes mais baixas.
A atual taxa de crescimento dos internautas brasileiras
deverá continuar a atingir a classe C brasileira, fazendo com que a internet no
Brasil perca sua tradicional identidade voltada às camadas A e B e tornando o
grupo ainda mais importante para o consumo nacional.
“Este ritmo não pára nos próximos cinco anos, já que teremos o público da
classe D depois (da inclusão da classe C). O acesso ainda deve crescer muito,
primeiramente em lugares públicos e, posteriormente, nas residências”, explica
Magalhães, ecoando o estudo do NIC.br que aponta as LAN houses como o principal
ponto de acesso à internet no País.
Há, porém, um limite para a euforia de consumo, lembra Balboni. “Se as classes
D e E não forem capacitadas, não vão conseguir navegar. Mesmo com o
crescimento, há uma forte deficiência na escolaridade (das camadas sociais mais
baixas). Pode ter LAN house na esquina, mas o pedreiro não sabe ler de qualquer
jeito”.
Entre o pedreiro e o entusiasta, ainda há quase uma Nova York inteira para que
o varejo brasileiro, atraído pelos rios de dinheiro, aprenda a domesticar mais
consumidores para esta novidade chamada internet.


