Harry Potter e o fenômeno da napsterização do mercado de livros
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O último livro da saga do bruxo Harry Potter ainda deve levar alguns meses para chegar às prateleiras brasileiras, mas quem quiser saber se afinal de contas o herói morre no final pode conferir não só as últimas páginas, mas todo o conteúdo da sétima edição da série em português, na internet - resultado de um esforço de tradução de um grupo amador de pottermaníacos no Orkut que se autodenomina “Máfia dos Livros”.
Mas o fenômeno não foi exclusividade do Brasil - versões de “Harry Potter and the Deathly Hallows” em vários idiomas, assim como o próprio original, se espalharam pela rede logo após o lançamento do livro em inglês, no dia 21 de julho.
A agilidade com que milhares de fãs tiveram acesso à obra, sem pagar nenhum centavo por ela, levantou uma questão entre os observadores do mercado editorial: seria, afinal, a tão temida onda de digitalização, cujo Napster foi um dos precursores, que - a exemplo do que os downloads ilegais fizeram pelas indústrias fonográfica e cinematográfica - abalará as estruturas de editores e livreiros pelo mundo afora?
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Tudo indica que ainda não. Nos Estados Unidos, onde o mercado de e-books já é mais maduro, as vendas de livros eletrônicos vem crescendo significativamente - saltaram de 4 milhões de dólares no segundo trimestre de 2006 para 8,1 milhões de dólares no mesmo período deste ano -, mas os 20 milhões de dólares gastos com obras digitais em 2006 ainda são muito tímidos frente aos 24,2 bilhões de dólares movimentados pelo mercado editorial tradicional naquele país.
Embora seja possível encontrar cópias digitais gratuitas em português de quase todos os grandes best sellers - “O Código Da Vinci”, “O Caçador de Pipas” e “A menina que roubava livros”, para citar alguns exemplos recentes -, o calcanhar de Aquiles do mercado editorial no Brasil não é digital, mas sim físico. O xerox ilegal de livros acadêmicos gera um prejuízo anual estimado em 1 bilhão de reais para o mercado editorial nacional.
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Neste cenário, a internet desponta não como problema, mas como solução. Uma das alternativas para combater as cópias ilegais é a venda fragmentada de obras. É o que propõe o projeto Pasta do Professor, inaugurado no início deste semestre letivo pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR).
O projeto prevê a criação de pastas virtuais com as bibliografias exigidas por cada disciplina - no modelo que já comum nos centros de cópias das universidades hoje -, onde serão postadas versões digitais dos trechos exigidos pelo professor. Em um ponto físico na faculdade, o aluno poderá comprar os trechos impressos, substituindo as cópias ilegais por exemplares legítimos.
O alvo são os alunos que precisam apenas de parte dos livros e que não são atendidos pelo mercado editorial hoje, segundo Bruno de Carli, porta-voz da ABDR, que reúne diversas editoras do ramo de livros técnicos e científicos. “Nós vendemos litros, quando o consumidor quer comprar 100ml”, compara o executivo.
O diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas e chairman da iCommons, Ronaldo Lemos, conta que em 2002 a faculdade procurou as editoras para propor este tipo de acordo, sem sucesso. “Já chega tarde”, aponta. Autor do livro "Direito, Tecnologia e Cultura", que está integralmente disponível na web, Lemos conta que a versão online tem, em média, quatro vezes menos downloads do que o número de unidades físicas vendidas.
Não é só na área acadêmica que os e-books ainda não se configuram como uma ameaça para a indústria. Basta lembrar que quase todos os best sellers do momento podem ser baixados na web - o que não chega a afetar, contudo, seu desempenho nas prateleiras. Voltando ao exemplo da pottermania, a própria comunidade que traduziu o último Harry Potter recomenda na página inicial: “Comprem o livro em novembro!”.
A franquia é outro ótimo exemplo para ilustrar como os efeitos da pirataria digital ainda são diminutos. Todos os livros do bruxo estão disponíveis integralmente na web - desde o primeiro até o sétimo -, o que não impediu que a série batesse recorde após recorde de vendas, acumulando mais de 350 milhões de exemplares vendidos. A editora Rocco, que publica a série no Brasil, já se manifestou dizendo que não vai processar o grupo que traduziu o último livro.
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A explicação para o retardamento da explosão dos livros digitais está, na opinião dos observadores do mercado, no fato de que o livro ainda não foi superado como mídia ideal - ao contrário do CD ou do DVD. O papel ainda é a mídia mais portátil, flexível e de maior definição disponível para o formato de texto.
O ponto de virada, apontam os especialistas, pode ocorrer quando a indústria desenvolver um dispositivo portátil, a um custo acessível, que torne a experiência de leitura no formato digital satisfatória. “Quando tivermos um equivalente ao iPod para os livros, não tenho dúvida que os livros digitais vão explodir”, opina Lemos.
Alguns fabricantes de eletrônicos apostam suas fichas neste tipo de tecnologia. Um exemplo é a Sony, que no final do ano passado lançou o Portbale Reader System (PRS-500) com tecnologia de papel eletrônico da empresa E-Ink. O impeditivo para a popularização do aparelho, contudo, ainda é o preço: 350 dólares, no mercado norte-americano.
Se os leitores digitais de fato se popularizarem, oferecendo ao consumidor a possibilidade de carregar centenas de livros na palma da mão, o cenário pode mudar rapidamente e a indústria de livros de fato terá, de um lado, uma nova janela de oportunidade, e de outro uma boa briga contra a pirataria pela frente, os especialistas concordam.
Neste meio tempo, o papel da rede como formadora de futuros leitores é positivo, na opinião de Eduardo Blücher, coordenador do grupo de estudos de novas tecnologias da Câmara Brasileira do Livro (CBL). “Com a popularidade dos blogs e ferramentas de mensagem instantânea, o jovem nunca passou tanto tempo lendo quanto hoje”, conclui.


