Qualquer um que saiba dos esforços que Jeff Bezos fez para montar sua Amazon entre 1993 e 1994, como conta Eduardo Vieira no seu "Bastidores da Internet no Brasil", deve entender a pretensão deste engenheiro em tentar revolucionar a literatura mundial com o lançamento do seu Kindle.
A pretensão aparece na capa do Amazon, que traz uma carta assinada por Bezos dizendo imaginar há anos como levar "as emoções e experiências dos livros" para um aparelho eletrônico, na reportagem da Newsweek onde Bezos se porta como um Messias que pode melhorar "a criação mais divina da humanidade" e nos figurões que a Amazon chamou para incensar seu Kindle.
Não foi este entusiasmo, porém, que respingou na blogosfera mundial. Houve, sim, um consenso: de que o Kindle não vai dar certo de maneira nenhuma e Robert Scoble, ex-evangelista da Microsoft alçado à popularidade por seu blog Scobleizer, liderou os ataques, mesmo comprando um e publicando um vídeo do seu orgulhoso desempacotamento.
Na segunda-feira, misturou opiniões de Seth Godin, Mathew Ingram e Jeremy Toeman malhando o Kindle para afirmar que "mesmo se Jeff Bezos falhe, nós temos um aparelho que pressionará o mercado simplesmente por considerar um mundo onde você pode ler livros em uma tela ao invés do papel".
Historicamente feroz contra o DRM, o BoingBoing foi um dos primeiros a notar a presença da restrição nos livros e revistas e malhar a incapacidade do Kindle compartilhar obras digitais - qualquer um que compre livros pode vendê-lo, doá-los, queimá-los, argumenta o blog.
A conclusão? Que o Kindle é promissor, sim, mas ainda bastante confuso - não aceita PDFs, por exemplo.
O que se pouco falou foi da iniciativa da Amazon de sair do seu histórico negócio que fez de Bezos um milionário para tentar criar uma demanda que, posteriormente, se transforme em lucro para o serviço. Ler livros digitais hoje é um martírio - mais popular e-reader do mundo, o Sony Reader ficou sem concorrência por longos anos.
Com uma tela de 15 centímetros feita em papel eletrônico e a capacidade de baixar livros, revistas e jornais por EVDO dentro dos seus 400 dólares, o Kindle já cria uma certa expectativa por ser realmente a primeira alternativa palpável do que o mercado chama de "iPod dos livros".
Uma professora de literatura, conservadora até a alma, dizia que o mundo poderia se converter em digital que ela ainda assim preferiria sua cadeirinha de balanço com o livro no colo.
Só leitores compulsivos entende um certo fetiche pelo papel, pelo cuidado exagerado em não estragar as páginas e marcar com atenção a frase onde a leitura foi interrompida ou erros de português assinalados em grafite.
Só leitores compulsivos também entendem o orgulho que dá entrar num quartinho transformado em biblioteca e ver o acúmulo de lombadas coloridas, desbotadas, empoeiradas ou novas em folha garimpados por anos.
Talvez o Kindle tenha sucesso em seguir outro ponto de vista do seu irmão musical, o iPod - só nas versões posteriores à primeira, é que começaram realmente a entusiasmar o mercado. O Kindle ainda tem bastante estrada pela frente.

2 Comentários
Falta de Percepção
É uma pena que o Kindle tenha tantas restrições: DRM, PDFs e etc.. O problema continua sendo os direitos autorais e não dá para mantê-los e ainda conseguir realizar uma venda expressiva do produto, quando o verdadeiro interesse em e-readers é facilitar a leitura de livros que já se encontram disponíveis on-line gratuitamente.
Ainda há uma parcela do mercado que não fez o dever de casa sobre a revolução digital..., eles não atingiram aquele turning point a partir do qual se vislumbra uma nova realidade.
26-11-2007 14:39