Entrevista: tecnologia e vontade social
Por Daniela Moreira, repórter do IDG Now!
Publicada em 06 de março de 2006 às 08h05
Atualizada em 17 de março de 2006 às 10h43
São Paulo – Para Jean Paul Jacob, pesquisador da IBM, uma boa idéia, nem sempre gera um bom produto.
Há 45 anos, ele se dedica a adivinhar o futuro e – por que não? – a ajudar a construí-lo. O doutor Jean Paul Jacob é um visionário brasileiro que vive nos Estados Unidos, na Califórnia, e gerencia as pesquisas do Centro IBM de Pesquisas de Almaden. Conheça alguma das idéias que este futurólogo tem sobre a evolução da tecnologia e acompanhe a sua visão do nosso amanhã.
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Convergência é a palavra do momento. Qual é o aparelho que de fato a oferece hoje e qual dispositivo o fará no futuro?
Jean Paul Jacob - A vontade universal das pessoas é conectar-se e comunicar-se com outras pessoas, com informações e com entretenimento, a qualquer hora e de qualquer lugar. Isso basicamente quer dizer que as pessoas querem ser o centro do universo, o que, aliás, eu considero correto.
A tecnologia que nos permite fazer isso tem que ser superportátil. Tem que ser algo que caiba no bolso, ou um penduricalho, um colar ou relógio ou pulseira e coisas que ainda não sabemos muito bem o que são. A primeira tal convergência aconteceu mesmo em instrumento que carregamos conosco chamado telefone celular.
Houve várias tentativas de fazer com que o relógio tivesse essa função. Ele é mais portátil, mais leve e mais cômodo, mas o que aconteceu é que o celular assumiu essa convergência tremenda, e ainda não vimos o final dela. E hoje, pra minha grande surpresa, menos pessoas usam relógio do que há dez anos atrás. Isso porque elas tendem a ver a hora no seu telefone celular. Ou seja, até mesmo o relógio ele está substituindo.
O celular também esta substituindo a carteira de dinheiro. Em vários paises do mundo, inclusive aqui, nos Estados Unidos, você chega a um parquímetro e, com o seu telefone celular, você o aciona, vai para uma reunião ou qualquer coisa que tenha que fazer. Quando ele está expirando, você não precisa correr para a rua para pressionar os guardinhas ou colocar talões avulsos de zona azul. Pelo seu celular você acrescenta crédito naquele parquímetro. A resposta final, então, poderia ser o celular. Mas não é. Seria então uma evolução do celular? Bem, o celular de hoje não tem nada a ver com o de dez anos atrás.
Como será o celular do futuro?
Jacob - Tudo depende da aceitação das pessoas. Há uns três anos, fiz uma aposta com um colega meu da IBM. Ele achava que, no futuro, as pessoas só iriam utilizar celulares handsfree, ou seja, que deixassem as mãos livres. Eu disse que discordava porque achava que socialmente não é aceitável você andar pela rua e ir conversando com o ar.
Tive uma experiência em que eu estava no avião, sentado em uma poltrona, e um sujeito que nunca vi na vida olha pra mim e diz: eu discordo totalmente do que você me disse ontem. Eu olhei pro individuo e pensei: eu não conheço esse cara. Mas ele continuou falando e estava zangado. E finalmente eu disse pra ele: eu acho que eu nem o conheço.
Quando ele virou pra mim eu vi que do outro lado estava pendurado um desses handsfree e ele estava falando com outra pessoa, não era comigo. Então eu apostei contra o handsfree. Há uns dois meses, ele declarou que eu ganhei a aposta. Mas ganhei não porque eu tinha razão, que socialmente inaceitável, mas porque o celular mudou de função radicalmente nesses últimos três anos.
De um instrumento de comunicação ele passou a ser um instrumento que você tem que ter na sua mão. Por exemplo, os jovens usam o celular para mensagens instantâneas. Muitas imagens chegam ao celular, então é preciso que você segure o instrumento na mão, mas nem eu nem o meu amigo tínhamos pensado nessas aplicações. O celular hoje é o instrumento de convergência. No futuro o que será? Eu acho que teremos coisas mais interessantes e um pouco melhores, porque a tela do celular ainda é pequena para tudo que colocamos nela.
Como este problema será solucionado?
Jacob - Com a tecnologia de DLP (Digital Light Processing), hoje é possível colocar um projetor em um instrumento muito pequeno. É possível que no futuro ao invés de você tiver de olhar em uma tela muito pequena de celular, você projete a imagem na parede ou em uma folha de papel, como texto.
Esses chips poderiam entrar no celular, relógio ou jóia qualquer. Essa coisa que projeta na parede terá todas as funções do celular e permitirá até clicar em algo como se a parede fosse uma tela de computador porque a posição de seu dedo também é medida por esse instrumento. Hoje já existem teclados que funcionam assim. Você toca as teclas, que são projeções, o projetor reconhece a posição do seu dedo e reconhece a tecla em que você está tocando.
Com aparelhos que concentram cada vez mais funções, você vê algum dispositivo fadado a desaparecer?
Jacob - A convergência continuará existindo, mas continuarão existindo instrumentos muito simples, que só tem uma função e são muito mais baratos, como se pode observar hoje no Brasil. A coexistência de tecnologia é muito comum. Mas, ao longo do tempo, teremos a televisão analógica sendo substituída pela digital, fazendo a convergência com o computador.
A máquina fotográfica com filmes está desaparecendo. Aparece no lugar a máquina fotográfica digital, que, na realidade por convergência, é também uma máquina de filmar.
Os toca-discos de vinil já desapareceram. Os desaparecimentos são evolutivos, as pessoas nem notam. O telefone fixo está desaparecendo, o telefone rotativo, aquele que a gente tinha que colocar o dedo no buraco e levar o disco até um ponto e soltar já desapareceu. As coisas vão desaparecer assim, lentamente sendo substituídas ao seu redor, mas você mal percebe.
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