
APIs, Gates e Pelé
A Microsoft está sem Bill Gates. Quem sabe agora, aprenda a inovar. Por Daniel Domeghetti
Ao anunciar a abertura de parte dos APIs de seus produtos, a Microsoft mais uma vez cedeu ao óbvio. Ou evolui, ou sai de cena.
Clayton Christensen diz que as empresas líderes que se tornam reféns de grandes clientes, de grandes produtos e de grandes modelos de negócios não inovam e são banidas do mercado. Quem não inova perde o bonde da competitividade. A Microsoft encontra-se mais uma vez em uma encruzilhada estratégica.
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Tecnologia é sobre evoluir. Ganhar dinheiro a partir da inovação. Bill Gates sempre soube ganhar dinheiro, mas nunca foi bom em inovação.
No mundo fechado dos anos 80-90, copiar/comprar o inovador e colocar o produto mais rapidamente no mercado funcionava. No mundo aberto, da internet e do intangível, empresas fechadas são bichos mais atrasados na escala darwinista da evolução corporativa.
Copiar e/ou comprar está no DNA da Microsoft desde sempre. Não prever ou reagir lentamente às rupturas também. Primeiro a Xerox com os sistemas operacionais tipo Windows. Depois o Netscape com os navegadores de Internet e Linus Torvalds com o Linux. No começo do milênio, seu maior rival de ego, Steve Jobs, com a revolução “i” do entretenimento online e, mais recentemente, a pedrada final do Google e os serviços online gratuitos. Nada disso veio da Microsoft.
A empresa não entende de cenários e conjunturas; entende de fazer melhor o que já faz. A Microsoft é boa em incrementar o que faz; e comprar quem ameaça sua posição, quem faz o que ela não faz, mas precisaria fazer.
Com sua estratégia fechada-dominante, no mundo fechado dos anos 80-90. A Microsoft dominou a onda dos sisops (sua vaca leiteira até hoje) e quase perdeu a onda dos navegadores. Mas conseguiu vencer. Havia fit entre sua estratégia e o comportamento do mercado.
No mundo aberto da Internet, era óbvio era que a gigante de Redmond jamais conseguiria vencer as redes de colaboração e produção compartilhada de softwares. É bom, é aberto, é barato. Perdeu a hegemonia de boa parte das categorias de produto, mas acima de tudo perdeu desenvolvedores, evangelizadores e admiração de muita gente do meio. Brigou enquanto deu. Gastou energia, dinheiro, prestígio e perdeu.
Gates se afastou obcecado pelo Google. Quer comprar o Yahoo!. O Yahoo! não quer. Quer dominar os serviços web. Mais uma vez vai tentar remendar comprando o que deveria ter enxergado... se fosse uma empresa aberta em seu DNA.
Mais ou menos como Tyson, Michael Jackson e os próprios Estados Unidos, a Microsoft paga o preço do domínio. Quem está no topo não enxerga bem o cenário. Se perde estrategicamente em seu esquema e decide errado, faz besteira.
Empresas abertas inovam. Empresas fechadas quebram. Essa é a lei da física. Leiam Clemente Nóbrega.
Agora a convergência móvel assusta. Google, Nokia e mais um bando de empresas de tecnologia, internet, mídia, telecom e eletroeletrônicos são concorrentes da Microsoft.
Estamos vivenciando uma guerra por padrões, mercados, usuários, internautas, consumidores... tudo num liquidificador só temperado com legislações e regulamentações diferentes. Tudo muito incerto.
A Microsoft não vai quebrar. Tem dinheiro e capacidade de reação. A Microsoft pode ser líder em algumas linhas de produto, mas não vai mais ser hegemônica. Gates se tocou disso. Gates fez como Pelé. Saiu enquanto era o número 1.
Daniel Domeneghetti é CEO da DOM Strategy Partners, consultoria estratégica 100% nacional responsável pela Metodologia IAM (Intangible Assets Management). E-mail: dd@ec-corp.com.br
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