Entrevista: Desenvolvedores de software livre não são hackers
Por Daniela Moreira, repórter do IDG Now!
Publicada em 09 de fevereiro de 2005 às 14h00
Atualizada em 03 de março de 2006 às 12h49
A Softex e a Universidade de Campinas realizaram, em 2004, um estudo com mais de 3,6 mil pessoas para retratar o mercado de código aberto no Brasil.
Com o objetivo de radiografar o mercado de software livre e de código aberto no Brasil, a Softex ( Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro ) e a Universidade de Campinas realizaram, em 2004, um dos maiores estudos a respeito desse modelo no mundo, entrevistando mais de 3,6 mil pessoas.
O resultado do trabalho é uma análise do perfil dos desenvolvedores e usuários de software livre no Brasil, das razões que incentivam ou barram a adoção desses sistemas no país e do impacto do uso dessa modalidade de programa na indústria nacional de software.
Giancarlo Stefanuto, coordenador de planejamento e estudos da sociedade Softex, fala sobre os resultados da pesquisa, traçando um perfil do software livre no país.
IDG Now! – Qual é a participação do software livre no mercado brasileiro?
Giancarlo Stefanuto – Embora ainda faltem dados mais completos em relação à informatização no país como um todo, o que pudemos levantar, em termos comparativos, é que 3% dos desktops e 15% dos servidores utilizam Linux, hoje. Esse número pode triplicar até 2008, segundo estimativas de mercado. O sistema operacional é tomado como referência porque pudemos notar que as empresas ainda estão no início da mudança de plataforma. Portanto, mesmo com o uso de aplicações de gerenciamento de rede, banco de dados, produtividade, servidores de e-mail e browsers, a principal uso de software livre no Brasil ainda se concentra nos sistemas operacionais. Também é possível notar uma maior adoção de plataformas abertas na área de infra-estrutura; poucas empresas optam por levar o software livre até as estações de trabalho dos funcionários.
IDG Now! – O que leva os usuários a adotarem o software de código aberto?
Giancarlo Stefanuto – A redução de custos é a principal motivação. Mais de 65% dos usuários citaram a economia como principal motivo para adotar o software livre. O desenvolvimento de novas habilidades foi a segunda razão mais citada e a flexibilidade a terceira. Segurança e estabilidade também são fortes fatores de motivação.
IDG Now! – E para os desenvolvedores, qual é o principal motivo para trabalhar com o software livre?
Giancarlo Stefanuto – A principal razão para utilizar o código aberto e não o modelo proprietário é a possibilidade de desenvolver novas capacidades, segundo as empresas que criam software. Isso porque o investimento nos profissionais pode ser muito mais barato, já que ele vai buscar apoio e informações nas comunidades. Compartilhar conhecimentos e resolver problemas sem depender do proprietário do sistema também são fortes razões para que um desenvolvedor opte pelo software livre.
IDG Now! – O que pode impedir uma empresa de adotar o software livre?
Giancarlo Stefanuto – De uma forma geral, a preocupação com possíveis implicações jurídicas era o principal impeditivo para a adoção do software livre nas companhias brasileiras, mas a posicionamento favorável do governo em relação à questão ajudou a minimizar essa percepção. Uma eventual mudança de governo e de postura em relação ao software livre pode comprometer o ritmo de crescimento dessa modalidade.
IDG Now! – De quanto é a economia proporcionada pela plataforma aberta?
Giancarlo Stefanuto – O grau de economia proporcionado está ligado ao tamanho da empresa. Grandes companhias mencionaram redução de 2 milhões de reais a 10 milhões de reais por ano com o uso de software livre, mesmo com os custos de manutenção e treinamento. Mas isso varia do quão informatizada é a empresa. A adoção do software livre também é mais apropriada para certas indústrias. Para algumas companhias, manter o código aberto pode significar um risco para a concorrência. Quando o sistema é estratégico para o negócio, revelar sua constituição pode comprometer o diferencial competitivo da empresa. Já em áreas como governo, educação e saúde o compartilhamento de modelos de programas pode trazer um beneficio geral.
IDG Now! – E para os desenvolvedores? Quando é vantajoso trabalhar nesse modelo?
Giancarlo Stefanuto – Para as empresas desenvolvedoras, o modelo de software livre é viável se a vocação for de serviços. O software de código aberto não combina com aquela história de vender caixinhas. Já para quem está apto a oferecer customização, treinamento e serviços o modelo se aplica melhor.
IDG Now! – Quem desenvolve software livre no Brasil?
Giancarlo Stefanuto – O estudo serviu para derrubar alguns mitos nesse quesito. Acreditava-se que a grande maioria dos desenvolvedores de software livre eram hackers, pessoas com tempo livre e sem nenhum compromisso profissional com o desenvolvimento. O que pudemos constatar é que mais de 50% dos desenvolvedores brasileiros trabalham para empresas privadas, mais de 10% estão em empresas públicas e apenas 10% se concentram em universidades. Além disso, mais de 40% têm nível superior de instrução. O perfil do desenvolvedor brasileiro não deixa nada a desejar para o europeu.
IDG Now! – Qual é a importância do modelo de código aberto para a indústria de software?
Giancarlo Stefanuto – O formato de desenvolvimento do software livre é uma revolução sem precedentes na forma de colaboração para criação e distribuição de tecnologia. Não é possível prever se esse modelo vai persistir ou vai evoluir para algo diferente, mas trata-se de
uma quebra de paradigma na indústria de software. As comunidades de desenvolvimento criaram um manancial de tecnologia de ponta que está ao alcance de qualquer pessoa.
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