Plural

Caiu a ficha ou vai queimar o filme?

Além de uma intensa vida executiva e também de ser professor em duas das melhores universidades de São Paulo, sou pai presente de dois filhos que estudam em colégios da classe média esforçada paulistana. Invariavelmente vou a festas de crianças e me socializo com os pais dos amigos dos meus filhos – que também, na sua grande maioria, é composta por executivos, empreendedores e profissionais liberais.

Nestas ocasiões, presto atenção às conversas travadas entre pais e filhos e observo o quanto a frequência dos discursos é destoante para as crianças que têm a idade máxima de sete anos. Vamos a algumas expressões que não fazem o menor sentido para a criança, mas muito sentido para os pais.

O pai chama o filho Felipe e dá-lhe uma dura porque ele não havia amarrado o cadarço do tênis e sai logo dizendo: “Felipe, a ficha não caiu?! Arruma este tênis”. O Felipe pensa consigo mesmo: “O que é ficha?”. O pai fala logo em seguida: “Assim você vai queimar o filme com os seus amigos”. Novamente, “o que é filme?, pensa Felipe. Por último, o pai fala: “Vamos, Felipe, é ‘nóis’ na fita. “O que será fita?”, pensa Felipe, já meio que concordando por osmose com o pai.

Semana de “cão”

Passam-se alguns minutos e o pai do Felipe desabafa para os demais pares na mesa que aquela foi mesmo uma semana de “cão” para ele na sua vida executiva. Com os olhos e ouvidos treinados, captei alguns sinais de expressões que não fazem o menor sentido nos dias atuais.

O que é ficha para uma criança de sete anos que nunca usou um orelhão?  Da mesma forma, filme para ele é o conteúdo de um DVD. Afinal,ele já nasceu na era das câmeras digitais. Fita fez sentido na minha época quando o meu sonho de consumo era um walkman da Sony. Hoje esse garoto fala em downloads no mini shuffle.

E olha que não estamos falando de uma década, mas sim  de expressões que ficaram obsoletas nos últimos cinco anos. Quando o pai do Felipe fala em um dia “cão”, posso entender que ele teve uma semana maravilhosa cheia de confortos e mimos dignos de um animal de estimação da classe média que, de fato, leva uma vida muitas vezes melhor que um humano.

Posto de etanol

São nestas sutilezas que identificamos o quanto as pessoas estão conectadas às mudanças tiranas e avassaladoras da nossa sociedade. Em breve, posto de gasolina deverá mudar de nome e também será uma expressão desatualizada já que o Brasil caminha para ser a “Arábia Saudita” do Etanol, sobretudo com a recente aquisição da Brenco pela ETH, que se tornará a maior produtora de etanol o mundo.

Hoje, mais de 90% dos carros produzidos no Brasil são flex. Portanto, o correto será nos próximos anos chamarmos de posto de etanol e não mais posto de gasolina, apesar de ser algo que nos acostumamos a chamar desde que iniciamos a nossa vida motorizada. Este é o novo Brasil. Ops, Brasil com “S” ou Brazil com “Z”?

Eis uma interessante questão a ser pensada nos próximos três ou quatro anos uma em vez que estamos nos inserindo definitivamente na economia global, com fundamentos, práticas, governança, lideranças, gestão, economia, consumidores, etc, o que faz inveja a qualquer país de primeiro mundo.

Brazil com “Z”

Reconheço que o Brasil com “S” ainda é muito extenso e necessitamos de uma longa caminhada para mudarmos para o Brasil com “Z”. No entanto, os nossos observadores internacionais começam a enxergar um novo Brasil mais moderno e mais global.  Para eles, o Brasil será sempre com “Z”.

Por Romeu Busarello
Romeu Busarello Diretor de Internet Tecnisa Professor dos cursos de MBA e Pós-Graduação da ESPM e IBMEC|INSPER
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