Banindo a burrice

- Por Risoletta Miranda
Eu tenho algumas manias estranhas. Uma dessas manias é ter abandonado o objetivo de aprender coisas que eu sei “mais ou menos”. Das duas uma, ou faço o que sei (ou que estou convencida de que sei) ou tento fazer algo que não sei nem por onde começar. Fazer algo mais ou menos dá muito trabalho.
Ao longo do tempo fui aperfeiçoando essa, digamos, “conduta de vida”. O objetivo sempre foi claro: ser um pouco melhor no que domino e aprender a atuar com desafios na outra ponta que não domino. Por isso foram ficando pelo caminho atividades que sempre fiz mais ou menos. Exemplos: dividir por dois (ou qualquer operação de multiplicar), recordar caminhos (de qualquer natureza), arrumar a casa com decência, dirigir automóveis, anotar valores de cheques no talonário, guardar notas de cartão de crédito, combinar mais de duas cores numa mesma roupa, fazer maquiagem etc..
Em outra ponta, entre as coisas que eu – sem modéstia – acho que sei fazer, me orgulho bastante de: entender de futebol igual aos homens e não me preocupar com o preconceito deles, digitar rapidamente sem olhar para o teclado, concordância verbal, fazer peixe no sal grosso, bagunçar com critério máximo (5 estrelas) os quartos de hotéis onde me hospedo e ter a capacidade de me sentir surpreendida toda dia com as novidades da internet. Ser sempre uma “burra” diante do monitor. É a melhor maneira de aprender.
O intróito todo aí de cima ocorre porque, recentemente, fiquei elocubrando sobre como realmente o Google nos “jogou” numa outra esfera de conhecimento. Não apenas pelo tão propalado acesso à informação e sim, fundamentalmente, porque não nos dá mais a menor possibilidade de sermos preguiçosos ou “burros” simplesmente. Pois é, não dá mais! Sempre haverá alguém que o questionará: mas você não consultou o Google?
Se o seu cliente pergunta como se faz tapioquinha no Maranhão, você acha no Google. Se o seu colaborador pergunta o que é mesmo a web 2.0… tá tudo no Google. Se o seu médico diz que você tem pereba na unha, você vai pesquisar a árvore genealógica dela na web. Tá tudo lá. Com nome, sobrenome, amigos, inimigos, código genético, árvore genealógica, comunidade pró, comunidade contra, blog de adorador… Tudo!
Por isso não entendo muito bem porque algumas empresas ainda bloqueiam acesso a determinados sites da internet. Sob o argumento da baixa produtividade – provavelmente elaborado por um neurônio de bueiro – essas empresas estão perdendo a grande chance de ampliar a capacidade de sua geração de colaboradores através do braço virtual do Google. O que, certamente, lhes daria mais argumentos para preparar “aquela” estratégia para lançar um produto; “aquele” argumento para defender uma campanha; “aquele” achado maravilhoso do benchmark e por aí vai.
Então, chego eu à conclusão que se o Google baniu inevitavelmente a burrice do mundo nós deveríamos estar mais abertos para “aceitar” o crescimento das pessoas através desse meio, sem preconceitos, nos postando como “novos burros” diante da web. No sentido de que aprender é a melhor coisa da vida. Não aprender apenas o mais ou menos. Mas o que nos desafia de verdade. Nosso processo de adquirir conhecimento mudou. A língua portuguesa inevitavelmente está mudando. As empresas precisam mudar também. E rapidamente. Ou virarão estátuas de sal.
Risoletta Miranda é sócia e diretora da agência de propaganda digital Addcomm (www.addcomm.com.br), formada em jornalismo, MBA Marketing COPPEAD/UFRJ, especializada em Planejamento Estratégico de Marketing e Comunicação On Line e uma das criadoras do Conceito de VRM – Virtual Relationship Management – Addcomm.
rizzo@addcomm.com.br
Publicada em 21/09/2007 13:24







