Planos & Ideias

Santa Maria e o nosso estúpido motor de evolução social

Publicada em 29/01/2013 7:53

Por volta das 2:30 da manhã de domingo, 27 de janeiro de 2013, um incêndio de proporções trágicas dominou uma boate na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, e clamou a vida de centenas de pessoas.

No mesmo dia, enquanto as famílias ainda iniciavam o doloroso processo de luto, a força da comunicação já havia viabilizado não apenas a disseminação do fato como também a mudança de toda uma sociedade.

Cronologia de uma mudança social

1. Quase que instantaneamente após o incêndio, posts inundaram redes como Twitter e Facebook, somando um total de 70 mil menções apenas no domingo do incidente – sem contar cliques em “curtir” (palavra pouco adequada à ocasião, diga-se de passagem) e compartilhamentos.  Apenas para citar um exemplo, a soma de cliques em “curtir” e “compartilhar” em um poema do gaúcho Fabrício Carpinejar somou mais de 300 mil.

2. A tsunami de menções nas redes sociais ultrapassou as fronteiras do anonimato e chegou à imprensa rapidamente, gerando postagens em todos os portais brasileiros e em veículos internacionais, como NY Times, BBC, El País, Clarin e Al Jazeera.

3. A cada notícia postada, mais menções apareciam nas redes sociais, fazendo termos como #nightclub e Santa Maria chegarem aos Trending Topics do Twitter.

4. Os minutos seguintes testemunharam manifestações de apoio e solidariedade por parte de personalidades de todos os tipos – de Lady Gaga a Germano Rigotto, ex-governador do RS, passando ainda pela Presidenta Dilma, que cancelou viagem oficial para estar mais próxima das vítimas.

5. A comoção pública abriu espaço para a colaboração comunitária e, em instantes, foi criada a página http://facebook.com/somossantamaria . Por meio dela, os próprios usuários começaram a organizar a ajuda vinda de todos os cantos do mundo – de ofertas locais de hospedagem para familiares de fora de Santa Maria até doações de sangue.

6. A página, que somou mais de 3 mil fãs em horas, foi divulgada espontaneamente por diversos usuários – incluindo perfis pessoais e corporativos. A Coca-Cola, por exemplo, disseminou uma mensagem de luto – carregando nela elementos do seu logo – pela rede (vide imagem). Foi um dos primeiros (mas não únicos) casos de empresas que, efetivamente (e independentemente de qualquer boa intenção), pegaram carona na tragédia para aumentar a sua divulgação.

7. Em paralelo, a polícia anunciou estar utilizando as redes sociais para buscar testemunhas e agilizar todo o processo investigativo. Até o momento, esse processo já culminou nas primeiras prisões de integrantes da banda responsável pelo show pirotécnico que gerou o incêndio.

8. Agora, o público cobra ações concretas do Estado para que tragédias como essa jamais voltem a ocorrer. Infelizmente, esse tipo de cobrança realmente costuma ganhar espaço e efetividade apenas depois que vidas são ceifadas de forma tão desnecessária. Foi o que ocorreu quando a boate República Cromañón, em Buenos Aires (Argentina), passou por um incidente semelhante em 2004, vitimando 194 pessoas. A partir dessa data, o governo local passou a exigir mais sinalizações, menos tolerância das autoridades quanto aos limites de lotação e assim por diante. Nenhum outro evento semelhante ocorreu no país vizinho depois disso.

Tragédias geram diálogos; diálogos geram mudança
Esses oito pontos listados acima sintetizam o fluxo completo de um evento que realmente deve mudar o país sob diversos aspectos – do legal ao emocional. Tendo essa tragédia como pano de fundo, os cidadãos gritaram suas dores pelas redes, chamaram a atenção da imprensa nacional e internacional, se mobilizaram, viram marcas mesclarem boa ação a oportunidade de marketing e testemunharam as primeiras ações da polícia e do governo.

De certa forma, mesmo que com algumas intenções questionáveis, o fato é que absolutamente todos os representantes da sociedade – de vítimas a cidadãos que nada tinham a ver com o caso, de empresas a governo, de imprensa a políticos – participaram desse ciclo comunicacional. Todos sentiram que deveriam agir e intervir de alguma maneira, deixando as suas marcas em um processo que deve realmente mudar a forma com que o Brasil encara a segurança em eventos de todos os portes.

A grande sensação de impotência vem não apenas da impossibilidade de se voltar no tempo e evitar o incêndio, mas sim da certeza de que apenas tragédias como essa são capazes de mobilizar toda a sociedade e trazer mudanças.

É como se humanidade precisasse de caos para buscar a ordem; de desastres para garantir a segurança.

Infelizmente, é mesmo apenas de tragédia em tragédia que as sociedades vão mudando, se moldando e firmando os seus pilares – potencializados agora pela força das redes sociais que, mais do que qualquer outra ferramenta, aceleram a formação da opinião pública.

Entender essa espécie estupidez coletiva entranhada em nosso DNA é fundamental para que consigamos lidar não apenas com eventos do gênero, mas  também com as nossas próprias vidas pessoais e profissionais. É esse, afinal, o nosso mundo: feito exatamente à nossa própria imagem.

  • Marco Aurélio

    É triste ver a dor das pessoas ser tratada como produto.
    É recorrente na história a caça às bruxas feita após uma tragédia, que poderia, na pior das hipóteses, ser minimizada.

    Gosto de dizer sempre ‘quem faz certo, não erra’. Porque não fazer bem feito da primeira vez? Não é ser perfeito ou infalível, mas feito com a melhor qualidade.

    Acho que o brasileiro tem o ‘DNA’ de querer ganhar com o risco, enquanto não dá problema é feito, depois do problema é revisto o risco e contornado o problema.

  • http://www.facebook.com/thales.fagundes Thales Fagundes

    Nossa sociedade é formada por hipócritas, omissos e negligentes.
    A hipocrisia está em fazer blablabla em rede social, pegando carona no CAOS, lamentando pela tragédia recente mas nada se faz, presidente não chora e televisão não faz plantão pelas centenas de mortos em cada feriado, no sertão mineiro ou nordestino tem gente abrindo cactos para matar a sede HÁ DÉCADAS, nas ruas há mendigos espalhados mas não da ‘ibope’.
    A negligência é pelo Estado, inoperante, corrupto .
    Adivinhe quem são os omissos?

  • HJGU

    É oportuno lembrar que no nosso Congresso tem apenas 3 dias de trabalho por semana. E mesmo nesse pouco tempo, em vez de criar leis sérias e objetivas (como proibir fogos em lugares fechados), ficam lá legislando em causa própria e fazendo falcatruas (vide noticiário).

    Os políticos e as fraldas devem ser trocados com frequência. E pelo mesmo motivo

  • http://twitter.com/bassvix BassVix

    Mais triste é que daqui a pouco os noticiários vão esquecer, vai deixar de ser notícia, é só ver quando cai um avião, quanto tempo a notícia se mantém quente.

    Pior é ver que agora TODAS as prefeituras agilizaram os bombeiros para fazerem vistoria em locais assim, como se só agora viram o perigo.

  • Alessandro

    … Acho que o brasileiro tem o ‘DNA’ de querer ganhar com o risco…
    é o famoso jeitinho brasileiro.

  • gaspar