Planos & Ideias

Novos inimigos à espreita

Publicada em 27/02/2012 12:03

Ao longo de 2010 e 2011, o mundo digital viu as duas mais famosas empresas do setor – Google e Facebook – consolidarem as suas lideranças e se tornarem quase que inatingíveis em seus mercados.

E, como acontece com qualquer empresa, a liderança isolada traz consigo a ambição de crescer em outras frentes, aliando a diversificação de negócios ao risco concreto da perda de foco.

Ignorando esse risco, Google e Facebook começaram a mirar um no outro de todas as formas possíveis: via Connect e mecanismos para se “curtir” páginas fora dos seus domínios, a empresa de Zuckerberg montou uma estrutura que traz para a sua rede todo o conteúdo marcado como interessante pelos usuários, criando os alicerces para um buscador inteiramente focado em relevância social.

O Google, por sua vez, chegou a alterar dramaticamente a sua (até então sagrada) política de privacidade para competir no mercado de redes sociais, contando com a impossibilidade de perder espaço no universo das buscas.

É em momentos assim, quando líderes deixam as suas fontes primárias de poder em busca de novos territórios, que o mundo costuma testemunhar as mudanças mais dramáticas.

Não levou muito tempo para o mercado perceber isso.

Pinterest vs. Facebook

No final de 2011, uma nova rede social, a Pinterest, chegou arrematando mais de 11 milhões de usuários em um espaço de menos de 3 meses – batendo o recorde de crescimento do próprio Facebook.

Sua estrutura é simples: permite que cada usuário marque as “coisas” que mais gosta Web afora – sendo tudo organizado em forma de vitrine em sua própria página. O grau de engajamento do Pinterest atingiu níveis tão altos que o próprio Mark Zuckerberg criou um perfil lá, provavelmente buscando um entendimento mais claro do que se trata e de como isso pode impactar as suas expectativas para o Facebook.

Screen Shot 2012-02-27 at 11.56.13 AM

Este ainda não deu uma resposta concreta – mas a Pinterest continua em uma escalada a ritmos exponenciais.

Baidu vs. Google

Na outra ponta, o buscador chinês Baidu potencializou o seu projeto de expansão para fora da China. Lá, “ajudado” pelas rígidas imposições do governo local em relação à liberdade de informação que acabaram minando o território do Google, o Baidu alcançou mais de 80% de um mercado que concentra cerca de meio bilhão de usuários.

No começo de 2012, a empresa anunciou a abertura de um escritório no Brasil com o objetivo de derrotar o Google na região.

Sua estratégia é prática: o primeiro serviço a ser lançado não será uma versão brasileira do buscador, mas sim uma enciclopédia eletrônica aos moldes da Wikipedia – segmento em que o Google nunca foi forte.

Em outras palavras, a ideia é iniciar os ataques pelos flancos que o líder mundial em buscas deixou descuidados, tendo como objetivo declarado se transformar no novo líder em buscas para a América Latina.

O que deve acontecer?

Seja qual for o resultado dessas novas guerras, alguns fatos são incontestáveis:

a) O Facebook precisará dedicar um pouco mais de tempo, esforço e foco para entender o fenômeno Pinterest e neutralizar essa ameaça antes que perca aderência perante os seus usuários – algo que, em redes sociais, pode acontecer da noite para o dia;

b) O Google não pode se dar ao luxo de perder mercado justamente no Brasil, país emergente mais estruturado, de dimensões continentais e portador de um dos maiores e mais promissores mercados da atualidade;

c) Ambos estão já tão imersos em suas estratégias de guerra um com o outro que talvez, independentemente dos seus recheados caixas, uma mudança de foco a esta altura para enfrentar novos entrantes seja simplesmente inviável;

d) Mesmo sendo Pinterest e Baidu os dois riscos mais claros para as hegemonias dos líderes digitais, não se deve ignorar a possibilidade de novos entrantes aparecerem para tumultuar ainda mais o cenário. A hora, afinal não poderia ser melhor para oportunistas.

Há como se escapar de uma eventual derrota?

Por quase toda a história da humanidade, os grandes impérios foram derrotados justamente pelos seus tamanhos.

Na antiguidade, Cartago sediava um império tão vasto que decidiu atacar Roma com todas as suas forças em busca de total hegemonia na região. Ao fazer isso, ela deixou as próprias praias desprotegidas, abrindo espaço para que os italianos atacassem frontalmente a sua capital e reduzissem a pó uma das mais grandiosas civilizações da humanidade.

Diz a lenda que, observando as ruínas de Cartago, o general romano Scipius Aemilianus debulhou-se em lágrimas ao concluir que a aniquilação era o destino de todos, e que um dia a própria Roma seria reduzida a pó.

(Cerca de meio milênio depois, os Góticos invadiram Roma e puseram fim ao grande império, inaugurando o que se convencionou chamar de Idade das Trevas.)

Que comecem os jogos!

Seja em antigas civilizações ou em empresas modernas, uma coisa é fato: quanto maior o tamanho, mais difícil é saciar a própria sede de crescimento – e mais espaço acaba sendo aberto para que concorrentes apareçam contestando hegemonias.

Por outro lado, é quase impossível – principalmente no mercado capitalista moderno – manter-se saudável sem crescimento.

A pergunta que fica é se Google e Facebook serão derrotados por Baidu e Pinterest ou se estes serão apenas os primeiros sérios concorrentes de uma nova horda de entrantes sedentos por se transformar nos novos líderes do mundo digital.

Seja qual for o resultado dessa disputa, o fato é que hegemonias até então inquestionáveis já começam a ser postas em cheque – algo que costuma anteceder toda grande queda.

Para os usuários, resta acompanhar cada movimento desse novo jogo, testemunhando as ações de todos os players como uma verdadeira aula de estratégia pura (e em tempo real).

  • http://www.facebook.com/pabcarminati Paulo André Carminati

    então o autor da matéria. eu acho que você quis dizer  ”CARTAGO 
    http://pt.wikipedia.org/wiki/C… ” e não” cartagena    
    http://pt.wikipedia.org/wiki/C…“, me desculpa mas cometer um erro destes é grave. Não! é absurdo. Pelo amor de deus! edita está matéria.

    quem enfrentou os romanos foi cartago.

  • http://twitter.com/DeLuCa Cristina De Luca

    Paulo, grata pela correção.

  • http://twitter.com/ralmeida Ricardo Almeida

    Paulo, obrigado pela colaboração! Mas, dependendo da fonte literária ou mesmo do idioma, há mesmo uma confusão (e falta de consenso) sobre qual o nome correto para qual cidade. Em grande parte, isso se dá porque a cidade espanhola de Cartagena foi fundada simplesmente como “Cartago”, exatamente com o mesmo nome que a capital do império, por Asdrúbal (um general cartaginense). Com o tempo, ela foi rebatizada para “Nova Cartago” para se diferenciar e alguns começaram a chamá-la de Cartagena. O problema é que o nome Cartagena também passou a ser utilizado para se referir à capital do antigo império, cujas ruínas ficam hoje na Tunísia. Se buscar “Cartagena, Tunísia” no Google, por exemplo, verá um mar de resultados em diversos idiomas, indicando justamente essa falta de consenso.

    Em alguns idiomas, por outro lado, esse problema nem existe. No inglês, por exemplo, costuma-se falar apenas “Carthage” e “New Carthage”.

    Em português, apesar de realmente haver predominância da diferenciação entre Cartagena e Cartago, há fontes que chamam a capital cartaginense de Cartago e de Cartagena.

    Enfim… culpa do Asdrúbal, que deveria ter batizado a cidade espanhola com algum outro nome e facilitado a vida de todos!

  • goodgoodgood

    A comparação entre o Baidu e o Google não faz o menor sentido meu caro. Pinterest e Facebook, sim.

    No melhor dos mundos, pode-se dizer que o Google e o Baidu têm ringues próprios. No ringue do Google (mundo ocidental e boa parte da Ásia), o Baidu é e sempre será mal recebido e vaiado sempre que entrar em cena. No ringue chinês, o Google entra como um lutador ocidental cego e bêbado.

    O Google nunca será bem-vindo na China continental, assim como o Baidu nunca será aceito pela esmagadora maioria dos ocidentais. A única coisa que poderia mudar tais percepções culturais seria uma eventual aquisição do Google pelo Baidu daqui há 10, 20, 30 anos. Impossível?

    No lugar do Baidu, seria mais adequado mencionar uma briga entre o Google x Yahoo (fortíssimo na Ásia), porém, o Yahoo está mais para lutador aposentado (ou falecido) que qualquer outra coisa.

    p.s. Português tem P maiúsculo. 

    Abraço.

  • http://www.facebook.com/ricardoralmeida Ricardo Almeida

    goodgoodgood, fala isso então para o Baidu. Ao entrarem no Brasil, eles declararam de forma bastante explícita que o objetivo é tomar o lugar do Google aqui no Brasil – e é nisso que estão focando as suas táticas. É justamente essa entrada no ringue do Google, para usar a sua terminologia, que faz da questão do Baidu interessante para se observar.

  • http://www.thesocietyofmind.com/ goodgoodgood

    Falo isso para você. você usa ou usará Baidu?

  • http://www.facebook.com/ricardoralmeida Ricardo Almeida

    Hoje, não – mas isso não significa q não vá usar no futuro. Também não usava Facebook há 6 anos, mas hj mal consigo respirar sem ele – e o mesmo se aplica ao Google, que substituiu para mim e para muitos outros o Altavista.

    A própria história mostra que não há impérios que durem para sempre e que movimentos migratórios são mais frequentes do que se supõe. O Baidu sabe que não está preparado para brigar com o Google de igual para igual – tanto que está entrando como enciclopédia online no primeiro momento. Mas ele tem verba e muita vontade, o que costuma ser essencial.

    Se vai conseguir, é impossível dizer agora. Mas que é possível, isso é.

  • http://www.thesocietyofmind.com/ goodgoodgood

    Pontos bastante sensatos, principalmente com relação ao Google/Altavista e possivelmente Facebook/Orkut. Há um porém no qual eu insisto: todos esses que mencionou são ferramentas ocidentais, nas quais todos confiamos de uma forma ou de outra, mesmo sabendo que o don't do evil não é tão don't assim.

    Volto a te perguntar: você confia/confiaria nos resultados do Baidu? Você compartilharia dados pessoais com ele? Garanto que a esmagadora maioria dos americanos não confiam e dificilmente confiariam. Seria mais fácil o Baidu comprar qualquer um deles (Google, Facebook) e mantê-los de forma indireta.

    Há uma longa estrada de imagem e confiabilidade pela qual o Baidu, Weibo e Cia. precisam caminhar e melhorar…

  • http://www.facebook.com/ricardoralmeida Ricardo Almeida

    Hoje, não – mas isso não significa q não vá usar no futuro. Também não usava Facebook há 6 anos, mas hj mal consigo respirar sem ele – e o mesmo se aplica ao Google, que substituiu para mim e para muitos outros o Altavista.

    A própria história mostra que não há impérios que durem para sempre e que movimentos migratórios são mais frequentes do que se supõe. O Baidu sabe que não está preparado para brigar com o Google de igual para igual – tanto que está entrando como enciclopédia online no primeiro momento. Mas ele tem verba e muita vontade, o que costuma ser essencial.

    Se vai conseguir, é impossível dizer agora. Mas que é possível, isso é.

  • Guest

    Pontos bastante sensatos, principalmente com relação ao Google/Altavista e possivelmente Facebook/Orkut. Há um porém no qual eu insisto: todos esses que mencionou são ferramentas ocidentais, nas quais todos confiamos de uma forma ou de outra, mesmo sabendo que o don't do evil não é tão don't assim.

    Volto a te perguntar: você confia/confiaria nos resultados do Baidu? Você compartilharia dados pessoais com ele? Garanto que a esmagadora maioria dos americanos não confiam e dificilmente confiariam. Seria mais fácil o Baidu comprar qualquer um deles (Google, Facebook) e mantê-los de forma indireta.

    Há uma longa estrada de imagem e confiabilidade pela qual o Baidu, Weibo e Cia. precisam caminhar e melhorar…

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