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Se o PC já mudou a maneira como você escreve, o que dizer do Twitter?

Caros leitores, estou cá com minhas teclas a pensar umas coisas esquisitas: o processador de textos transformou nosso modo de escrever? Redigir reportagens, teses, cartas para a namorada ou bilhetes infames direto no computador alterou nosso estilo da escrita? Indo além, mudou a maneira como argumentamos por meio de palavras escritas?

As interfaces interferem na maneira como organizamos nossa comunicação

As interfaces influenciam no modo como organizamos nossa comunicação

O fato de não precisarmos mais – como quando fazíamos na época em que redigíamos textos longos no papel ou à máquina – preparar mentalmente as frases antes de dar forma a elas teve algum efeito colateral?

Reflitam comigo.

Hoje funcionamos quase no automático. Sentamo-nos diante do PC ou notebook – agora iPad e demais tablets -  e mandamos brasa. É mais ou menos assim: a tela em branco não perdura em seu estado imaculado nem um minuto, e lá vai o tec tec tec. Depois damos uma olhadela. Não, está ruim. Apaga. Começa de novo. Piorou, refaz. Tec tec tec. Bom, melhorou. Uma hora engrena. Vai, mano! E assim caminha a humanidade.

O tec tec tec e o cheiro de celulose

Agora voltemos no tempo (quer dizer, voltemos, nós, que vivemos a era jurássico-celulósica em sua plenitude; quem já cresceu com a tela do PC, tente imaginar como era o processo).

Na Era jurássico-celulósica, estruturávamos mentalmente as frases antes de passá-las ao papel. Afinal, ninguém queria refazer o que havia redigido à máquina

Na Era jurássico-celulósica, estruturávamos mentalmente as frases antes de passá-las ao papel. Afinal, ninguém queria perder tempo refazendo o que havia redigido à máquina

Para escrever à máquina ou na folha de papel, o exercício natural era estruturar minimamente que fosse as primeiras frases mentalmente, para que, quando as escrevêssemos, o texto estivesse encaminhado. Era uma maneira de reduzir o retrabalho. Afinal, não dava para deletar (eis uma palavra filhote do que veio a seguir) folhas datilografadas ou enfeitadas com letras forjadas em cadernos de caligrafia.

Bom, mas você pode perguntar: e daí?

Para explicar, chamo agora o Steven Johnson, o “culpado” por este texto. Foi a leitura do livro dele, “Cultura da Interface” (Zahar), que me fez matutar sobre o assunto. Na verdade, essa questão já me intrigava, pois tentei tempos atrás rascunhar crônicas à mão – algo que fiz durante anos com naturalidade – e me senti um completo incapaz. Não fluiu. O jeito foi ir para o notebook…

O design das ideias

Formado em semiótica pela Brown University e em literatura inglesa pela Columbia University, Johnson investiga como o design de interface – pense no computador, por exemplo – transforma nossa maneira de criar e comunicar.

Diz ele:

“A coisa realmente interessante aqui é que o uso do processador de textos muda nossa maneira de escrever – não só porque estamos nos valendo de novas ferramentas para dar cabo da tarefa, mas também porque o computador transforma fundamentalmente o modo como concebemos as frases, o processo de pensamento que se desenrola paralelamente ao processo de escrever”, escreve Johnson.

Ele continua:

“Podemos ver essas transformações operando em vários níveis. O mais básico diz respeito a simples volume: a velocidade da composição digital – para não mencionar os comandos de voltar o verificador ortográfico – tornam muito mais fácil aviar dez páginas num tempo em que teríamos de rabiscar cinco com caneta e papel. A efemeridade de certos formatos digitais – sendo o e-mail o exemplo mais óbvio – também criou um estilo de escrita mais descontraído, mais coloquial, uma fusão de certa escrita com conversa por telefone.”

“Mas, para mim”, continua Johnson, “ o efeito colateral mais intrigante do processador de textos reside na relação alterada entre uma frase em sua forma conceptual e sua tradução física na página ou na tela. Nos anos em que ainda escrevia com caneta e papel, ou usando a máquina de escrever, quase invariavelmente elaborava cada frase na minha cabeça antes de começar a transcrevê-la para a página. Havia um claro antes e depois no processo: eu planejava de antemão o sujeito e o verbo, os advérbios e as orações subordinadas; ficava ajeitando o arranjo por um ou dois minutos, e quando a mistura parecia correta, voltava para o bloco pautado amarelo.”

“Tudo mudou depois que o canto da sereia da interface Mac me induziu a escrever diretamente no computador(…) o processador de textos eliminava o sacrifício que as revisões normalmente impunham.”

“Ao cabo de alguns meses, percebi uma modificação no modo como eu trabalhava com frases: processos de pensamento e digitação começaram a coincidir. Uma expressão vinha à minha mente – um fragmento de frase, uma frase de abertura, uma observação parentética – e antes que tivesse tempo de ruminá-la, as palavras já estavam na tela”, diz o autor.

Ainda é difícil saber como a lógica dos fragmentada dos microblogs vai agir em nós e nas próximas gerações

Ainda é difícil saber como a lógica fragmentada e instantânea dos microblogs vai agir em nós e nas próximas gerações

E vejam vocês: Johnson escreveu isso em 1997, ou seja, nos primórdios na web, quando um troço chamado Twitter nem de longe passaria pela cabeça do mais visionário dos seres que habitam o Vale do Silício.

O que pensar então das transformações na forma como escrevemos provocadas pela emergência dos 140 caracteres? E pelas mensagens enviadas por meio de smartphones, iPhones, iPads?

  • doglas

    dodo

  • Clayton, muito interessante mesmo, são aquelas coisas que eu leio e penso: como eu não tinha enxergado isso com tanta clareza antes... É a graça da boa leitura! De fato, a mudança de não ter que preparar melhor o texto mentalmente antes de sair metendo os dedões no teclado (rsrs), muda bastante as coisas. Grato pelo post, para mim bastante enriquecedor.

  • Horácio, obrigado. Aproveito para emendar ao que você abordou a agilidade da comunicação, o que envolve interface mais amigáveis, entre outras coisas.

  • Muito boa a reflexão. Acredito que estamos passando por um processo que pode ser comparado à teoria da evolução das espécies, de Darwin. Estamos selecionando naturalmente as ferramentas, as melhores interfaces, as formas mais digestíveis de produzir e consumir informação. A quantidade de novas interfaces eletrônicas que surgem dia a dia, aumenta exponencialmente, mas apenas algumas se tornam populares e levam as massas a aderir. Acredito que estamos distante de um período de estabilidade nessa evolução, talvez, apenas no início dela. Parabéns pelo texto, um abraço.

  • Mariana

    Legal! Pensando também no Darwin, parece que no Twitter fazemos o processo de seleção natural das palavras: só ficam as indispensáveis para transmitir a ideia dentro de 140 caracteres!
    Interessante.

  • Olá, Frank. Como vai? Muito obrigado por suas palavras. Faz sentido sua colocação sobre a seleção das interfaces com as quais melhor nos adaptamos. A próxima etapa dessa jornada são os dispositivos móveis. Abraços e até breve.

  • Nao

    Evoluimos para algo melhor. Nossa escrita está piorando graças aos twitters e chats. Por sinal, twitter é a coisa mais inutil já inventada.

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