Beirut nos ensina sobre a cultura do fã e uma palavra da moda: engajamento
Eles não fazem parte do casting de grandes gravadoras muito menos são um fenômeno do show business. Pelo contrário, eles são cria do novo ecossistema digital da mídia – seu principal canal de conexão com fãs no mundo inteiro é a internet, por meio do MySpace e, principalmente, do YouTube.

Banda atrai fãs pelo YouTube e ganhou Beirut Day in Brazil
Até aí, nada demais. Bandas que se tornam sucesso via web brotam a cada clique e atendem a todos os gostos. Mas chamo à atenção para uma que, se é não capaz de derrubar servidores de tantos acessos que provocam, sabe cativar muito bem um determinado nicho de público e derruba as fronteiras para suas músicas. E, talvez o mais importante, reúne em torno de si alguns dos elementos daquilo que podemos chamar de cultura da internet – ou cultura nos tempos da internet.
Estou falando da banda Beirut, que se tornou conhecida de alguns brasileiros depois de ter utilizada uma de suas músicas na minissérie Capitu, da Rede Globo, em 2008 (mesmo assim, não se tornou sucesso no País e continuou restrita a um nicho de público). Fundada em 2006 em Santa Fé (Novo México, nos EUA), Beirut é uma das pérolas que merecem ser pinçadas da web e apreciadas por diferentes razões.
A primeira delas é musical. Seu som é resultado de múltiplas influências, como folk, rock, sons dos Bálcãs e outras influências do Leste Europeu. Munido por ukulele, acordeons e instrumentos de percussão que podem ser nada mais nada menos que cestos de lixo, o Beirut é um saboroso liquidificador sonoro onde cabe de tudo. É uma banda multicultural por natureza, aberta ao diferente, refletindo na música uma tendência que é própria da sociedade conectada do século XXI.
Clipes na levada do YouTube
A segunda razão tem a ver com o lado musical, mas vai além. Os clipes da banda exemplificam bem um tipo de linguagem e de produção que ganha força em tempos de YouTube. Com raras exceções, como a da música Elephant Gun (que contou com produção tal qual a indústria de videoclipes sempre fez), os vídeos da banda buscam o olhar natural, a simplicidade, o momento. Como eles usam locações ao ar livre ou improvisadas e uma câmera só, pode-se presumir que são produções baratas.
Em geral, os filmes mostram a banda, liderada por Zach Condon, tocando em bares, ruas, praças, restaurantes ou galpões. A performance apresentada no vídeo é a que aconteceu no momento da captação das imagens, com burburinhos e outras interferências do ambiente (os clipes fazem parte do projeto La Blogotheche, com seu A Take Away Shows, mas isso é para outro post).
É simples, mas profissional
Não se trata de algo “caseiro”. Há uma equipe experiente trabalhando na produção. A maioria dos clipes do Beirut é dirigida por Vincent Moon, um filmmaker que mora em Paris e já fez clipes para REM e Arcade Fire.
É ele o homem por trás da proposta, da ideia visual que se alimenta de uma aparente trivialidade: os vídeos buscam uma linguagem que aproxime a experiência retratada no vídeo – a performance da banda – daquilo que internauta presenciaria se estivesse lá, no bar ou praça onde o Beirut gravou o clipe. Um olhar natural, dentro do que é possível conceber como natural ao que é filtrado pelas lentes de uma câmera. É como se, pela tela do YouTube, você também estivesse lá.
Se observarmos os números, é possível dizer que os internautas aprovam a ideia. Uma conta rápida no YouTube mostra que, juntos, dez clipes do Beirut foram vistos mais de 12 milhões de vezes. Só o clipe de “Nantes” foi assistido quase 3,4 milhões de vezes no YouTube.
Clipes mostram banda em ruas, bares e cafés
“Beirutando” no Brasil
Um terceiro aspecto – talvez o mais fantástico – diz respeito ao tão falado “engajamento”, algo desejado por profissionais de marketing do mundo inteiro. Sem ter a intenção, a banda inspirou a criação de um troço chamado Beirutando. E adivinhe onde? Sim, no Brasil.
O Beirutando (?!) propõe que em um determinado dia grupos em diferentes estados brasileiros toquem em locais públicos músicas do Beirut ensaiadas ao longo do ano.
A ideia nasceu de duas garotas do interior de São Paulo – Íris e Tainá, segundo o blog do projeto – fás da banda americana. Hoje, o Beirutando tem núcleos ativos também no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco. As redes sociais são o ponto de contato para compartilhar informações e experiências.
“Beirutar não significa fazer cover de Beirut, mas ter a simples vontade de ir até um lugar público e tocar as músicas de Zach Condon para as outras pessoas, mostrando assim, um som diferente do que é comum ouvir nas cidades, nas ruas”, escrevem as organizadoras no blog.
Integrantes do Beirutando tocam “Nantes” em Recife
Os encontros começaram em fevereiro de 2009, com músicos e fãs da banda. Alguns dos ensaios foram registrados em fotos e vídeos estão no Myspace , YouTube e no blog.
O ápice da empreitada foi no dia 30 de agosto de 2009, quando os grupos fizeram apresentações públicas nessas regiões. E, vejam só, conseguiram, por meio do assessor de imprensa da banda, um encontro com o Beirut quando o grupo esteve no Brasil no ano passado.
Zach Condon e companhia curtiram a parada. No site da banda há uma saudação entusiasmada ao “Beirut Day in Brazil” (clique em News para ler).
Diga se não é um belo exemplo da cultura do fã da qual fala Henry Jenkins, do MIT (Massachussetts Institute of Technology), em “Cultura da Convergência” (Editora Aleph)?



Jornalista, é Editor de Opinião e Redes Sociais do Now!Digital, que edita o IDG Now! Formou-se pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, já trabalhou em redações de TV, jornal e foi colaborador de diferentes revistas. 












