Com comunicação online e operação via satélite, uma agência fluvial montada pela Rede Ponto Certo para Bradesco trafega Rio Solimões adentro e permite que comunidades ribeirinhas de Manaus tenham acesso a serviços bancários.
O editor-assistente do IDG Now!, Robinson dos Santos, foi até lá conferir o projeto e conta a história aqui no Nave Digital. Veja abaixo a reportagem.
Por Robinson dos Santos *
Tabatinga (AM) – Tal como faz seu pai, e fazia seu avô 20 anos atrás, André Luiz de Araújo, de 28 anos, conduz com tranquilidade seu grande barco Voyager III pelo sonolento rio Solimões até Atalaia do Norte. Como piratas de verdade, vamos abordá-lo no dia 9/2 em pleno rio, já perto de Tabatinga, uma cidade distante 1.000 km de Manaus (ou 1.600 km pelo rio) e um canto do mundo em que o Brasil encontra – de um lado do rio – o Peru e, do outro lado da rua, a cidade de Letícia, na Colômbia.
Entre uma transação e outra, a paisagem
Ao partir de Manaus recheado com 60 toneladas de mercadorias, de alimentos perecíveis a bicicletas, de geladeiras a DVD players, além de passageiros que pagam 300 reais pela viagem, ele e sua tripulação sabem que vão passar os próximos oito dias e noites no rio, abastecendo comerciantes e moradores das comunidades ribeirinhas com as últimas novidades da Zona Franca. Mas André viaja com algo que seus antecessores nem sonhavam: uma agência bancária móvel, que permanece online graças a uma conexão permanente via satélite.
Inaugurada no começo de dezembro, a novidade foi implementada pela Rede Ponto Certo para o banco Bradesco. Dentro do barco, cuja pequena loja de conveniência a bordo também funciona como correspondente bancário, a gerente Luzia Morais ajuda seus eventuais clientes a operar a tela touch screen do totem do terminal de autosserviço do Bradesco, projetado e instalado pela Rede Ponto Certo – que, além de consultas e concessão de empréstimos, também permite a abertura de contas. Os funcionários do barco foram os primeiros a abrir, e o povo das comunidades vêm aderindo à facilidade.
“Foi muito bom, temos bastante cliente”, diz Luzia, a respeito da chegada do atendimento no barco. Sua rotina é bem diferente da que se costuma esperar de um bancário de terra firme. Luzia mora em Tabatinga mas, para começar o trabalho, viaja até Fonte Boa. De lá, passa pelas comunidades ribeirinhas, como Belém do Solimões, e também por Tabatinga, até chegar a Atalaia do Norte. Só este último trecho leva oito horas para ser percorrido pelo barco (nos rios amazônicos, a distância é medida em horas, não em quilômetros).
Cruzeiro popular
O atendimento começa às 8 horas da manhã, mas “se for cinco da manhã e chegar no porto, estou aqui para atender”, conta. Como única funcionária do Bradesco no barco, ela faz de tudo, da abertura de contas à ajuda na operação do totem. “Em crédito, geralmente faço o online, que está pré-aprovado. Os outros eu preencho a proposta e mando para a agência, pois não tenho como aprovar aqui”, explica. E sua agência não tem a assepsia a que estamos acostumados nos bancos das cidades. Da janela da sua saleta, ela vê, além do totem eletrônico vermelho, dezenas de redes coloridas que, penduradas no teto da embarcação, servem de camarotes improvisados nesse cruzeiro popular.

Agência bancária móvel opera por satélite
Mas uma coisa a agência fluvial do Voyager III pode dizer que tem, tal como as da capital: a comunicação online. Se você tiver um cartão de débito do Bradesco, poderá consultar seu saldo, como se estivesse na Avenida Paulista – e provavelmente utilizando de um ambiente bem mais seguro. O diretor de relações institucionais da Rede Ponto Certo, André Martins, acredita que a agência fluvial é a única do mundo a operar em trânsito – uma opinião, diz ele, ouvida de um diretor do Banco Central. “De fato, não encontramos nada parecido”, argumenta.
Esse posto móvel – que, no jargão do Bradesco, recebe a sigla PAA (posto de atendimento avançado) – é o primeiro do tipo. Mas não é o único a operar com satélite. O banco, por meio da Rede Ponto Certo, também instalou sistemas baseados em satélite em Belém do Solimões, uma comunidade remota organizada com ruas, lotes, escola, igreja e um campo de futebol, habitada por cerca de 5 mil índios da etnia ticuna e distante três horas (de “voadeira”, um barco rápido) de Tabatinga, sentido Manaus.
Correspondentes indígenas
Dois desses índios, Lucila Paganta e Juvenal Macun, que são donos de mercearias, aceitaram atuar como correspondentes bancários do Bradesco. Em dezembro, eles receberam os terminais de ponto de venda, modems e antenas de satélite com o logotipo Ponto Certo, eles oferecem diversos serviços bancários, como saques, depósitos, consultas, pagamentos e até abertura de contas – um teclado de PC ligado ao terminal permite o preenchimento do cadastro completo.
Lucila Paganta ampliou seus negócios e já constrói uma loja maior, com ajuda de um empréstimo. Ela comemora a vinda de mais clientes ao seu estabelecimento, e diz que hoje até moradores de outras comunidades a procuram, para comprar ou sacar dinheiro usando seu cartão de débito.
Serviço permite fazer saques
“É muito sofrido ir ate Tabatinga e receber dinheiro”, conta Lucila, que toca o pequeno empório com suas irmãs (são sete, mais quatro irmãos). “De canoa, são oito horas de viagem. Tem roubo, tem assalto, fica dificil. Aqui não, é muito mais fácil”, afirma. Desde que começou a operar como correspondente, ela já abriu 11 contas e fez 180 transações. A tarefa de operar a maquininha ficou com as irmãs, pois Lucila não estava quando o técnico veio para fornecer as instruções.
A notícia de que Lucila tinha virado “banqueira” se espalhou, e os reflexos nos negócios foram imediatos. “Graças a Deus [o movimento] aumentou. Tem pessoas que estão querendo dinheiro [para saque], mas depende da minha venda. Todas as comunidades dos igarapés estão vindo. Eles nem vão mais a Tabatinga, vêm direto para cá. Não consigo nem almoçar mais”, conta, rindo.
Mais reservado, Juvenal não é tão falante quando Lucila. Mesmo assim, o pequeno comerciante aceitou ser correspondente e já fez 100 transações. Quando o visitamos, porém, sua máquina estava travada, com uma mensagem em inglês no visor. “Alguém fez alguma coisa com a máquina. Não deixe seus filhos mexerem”, aconselhou o diretor André Martins, da Rede Ponto Certo. Para voltar a operar, será preciso a visita de um técnico.
Não que a vida tenha ficado muito mais fácil em Belém do Solimões. A mesma casa de madeira que tem uma antena de satélite e um reluzente aparelho de som Sony está há oito meses sem abastecimento de água, culpa de um defeito na bomba que ninguém ainda consertou. Como paliativo, a comunidade tem que coletar água da chuva para cozinhar.
Posto móvel funciona em trânsito
Não há sistema de esgoto, e o fornecimento de energia elétrica é intermitente. A principal marca da presença governamental na comunidade é uma escola estadual de ensino fundamental que, quando a visitamos, servia de dormitório a dezenas de índios que vieram participar das primeiras Olimpíadas do Ewaré, com provas como canoagem, zarabatana e arco e flecha.
Nativos digitais
E a geração dos nativos digitais também deixa sua marca na comunidade de Belém do Solimões. Enquanto comerciantes como Lucila e Juvenal penam para operar as máquinas, paralisando diante de mensagens de erro, seus filhos e irmãos mais novos não têm medo de mexer nos terminais – consequência, talvez, do uso de computadores no ensino da única escola da comunidade, onde professores da rede pública do Amazonas lecionam acompanhados, na sala, por colegas indígenas.
A Rede Ponto Certo diz que já instalou 1.500 equipamentos para correspondentes bancários do Bradesco, em pequenas cidades e vilas dos estados do Piauí e de Minas Gerais. E já existem 300 terminais de autosserviço espalhados pelo Brasil, todos mantidos e monitorados pela empresa – 80 deles com conexão via satélite. A meta, diz André Martins, é fechar 2010 com 1.000 terminais, e o Bradesco já sinalizou o desejo de ter mais duas agências fluviais, uma no Amazonas e outra no Pará, na Ilha do Marajó.
Comunidades ribeirinhas são atendidas
A chegada do banco via satélite a comunidades indígenas ribeirinhas certamente não vai resolver os problemas mais urgentes. Mas, ao dar a oportunidade para que seus moradores desenvolvam seus negócios, pode, a médio prazo, mudar a vida de mais pessoas. Inclusão bancária e inclusão digital mostram que não são parentes distantes, e que em alguns casos podem ser até irmãs. Há uma luz na beira do rio.
* O jornalista viajou a convite dos responsáveis pela agência fluvial.
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