Circuito Deluca

De Stallman para Dilma

Publicada em 08/12/2010 11:53

A intenção parece ser a melhor possível: tornar nosso regime de direito autoral mais útil e justo. Imbuído dela, por Richard M. Stallman, criador do Projeto GNU, do movimento social mundial pelo Software Livre, da Free Software Foundation e, principalmente, da licença GPL, a a primeira licença copyleft, encaminhou à Presidenta Dilma Rousseff uma carta aberta com sugestões para a reforma da legislação de direito autoral, coordenada pelo Ministério da Cultura.

O texto, em inglês, foi traduzido para o português e divulgada para a imprensa por Alexandre Oliva, conselheiro da FSFLA, Fundação Software Livre América Latina, que tece algumas considerações sobre o processo. Segundo Oliva, a comunidade de software livre está preocupada com a possibilidade de o projeto de lei de direito autoral do Ministério da Cultura, em processo de revisão após consulta pública para envio ao Congresso, não contemplar melhorias propostas pela comunidade, como a criação de uma Licença do Compartilhamento. Há até uma petição on-line com manifestações nesse sentido.

Já veio ao Brasil diversas vezes, inclusive para se reunir com integrantes do Congresso Nacional, o Presidente Lula e a própria Dilma.

A seguir, a íntegra da carta.

Cara presidenta eleita Rousseff e cidadãos do Brasil

No debate brasileiro sobre a lei de dirieito autoral, uma melhoria importantíssima foi sugerida: a liberdade de compartilhar obras publicadas em troca de uma taxa cobrada dos usuários de Internet ao longo do tempo. Reconhecer a utilidade à sociedade do compartilhamento de arquivos via Internet entre os cidadãos será um grande avanço, mas esse plano levanta uma segunda questão: como utilizar o valor arrecadado? Se usado adequadamente, ele oferece a chance de um segundo grande avanço, em apoio à arte.

As editoras costumam propor usar o dinheiro para “recompensar” os “titulares dos direitos” — duas más ideias juntas. “Titulares dos direitos” é uma forma disfarçada de direcionar o dinheiro principalmente às editoras em vez de aos artistas. Quanto a “recompensar”, esse conceito é inadequado, pois significa pagar a alguém para fazer um trabalho, ou compensar essa pessoa por tirar algo dela. Nenhuma dessas descrições se aplica à prática do compartilhamento de arquivos, já que os ouvintes e espectadores não contrataram as empresas nem os artistas para realizarem um trabalho, e compartilhar mais cópias não lhes tira nada. (Quando eles alegam ser prejudicados, é em comparação com seus sonhos.) Editoras utilizam o termo “recompensar” para pressionar outros a verem a questão da forma como elas a vêem.

Não há necessidade de “recompensar” ninguém pelo compartilhamento de arquivos entre os cidadãos, mas apoiar os artistas é útil para a arte e para a sociedade. Se o Brasil adotar um sistema de taxa de licença para o compartilhamento, ele deve projetar o sistema para distribuir o dinheiro de forma a apoiar os artistas com eficiência. Com este sistema em funcionamento, os artistas se beneficiarão quando as pessoas compartilharem suas obras e incentivarão o compartilhamento.

Qual a forma eficiente de apoiar a arte com esse dinheiro?

Primeiramente, se o objetivo é apoiar os artistas, não dê a verba às editoras. Apoiar as editoras praticamente não apóia os artistas. Por exemplo, as gravadoras pagam aos músicos uma pequena parte ou nada do dinheiro que elas recebem pela venda de álbuns: os contratos de gravação dos músicos são minuciosamente projetados para que os músicos não recebam “seu” quinhão das vendas de álbuns a menos que um álbum venda um tremendo número de cópias. Se a arrecadação pelo compartilhamento de arquivos for distribuída às gravadoras, ela não alcançará os músicos. Contratos com escritores não são tão ultrajantes assim, mas até mesmo os autores de “best-sellers” podem receber pouco. O que a sociedade precisa é apoiar melhor estes artistas e autores.

Proponho, portanto, distribuir as verbas somente para os participantes criativos e garantir, por lei, que as editoras sejam impedidas de cobrá-las de volta ou deduzi-las do que devem ao autor.

A taxa seria cobrada inicialmente pelo provedor de conexão à Internet (prestador do Serviço de Comunicação Multimídia). Como ela deve chegar ao artista? Ela pode passar pelas mãos de uma agência estatal; ela pode passar por uma entidade arrecadadora, contanto que as entidades arrecadadoras sejam reformadas para que qualquer grupo de artistas possa iniciar a sua.

Entretanto, os artistas não podem ser compelidos a trabalhar para as entidades arrecadadoras já existentes, pois estas podem ter regras anti-sociais. Por exemplo, as entidades arrecadadoras de alguns países europeus proíbem que seus membros publiquem qualquer coisa sob lcienças que permitam o compartilhamento (por exemplo, usando qualquer uma das licenças “Creative Commons”). Se a verba do Brasil para apoiar artistas incluir artistas estrangeiros, eles não devem ser compelidos a fazer parte dessas entidades arrecadadoras para receberem sua fatia das verbas brasileiras.

Qualquer que seja o trajeto seguido pelo dinheiro, nenhuma das instituições desse trajeto (provedor, agência estatal ou entidade arrecadadora) pode ter qualquer autoridade para alterar quais fatias serão destinadas a quais artistas. Isso deve ser claramente definido pelas regras do sistema.

Mas quais devem ser essas regras? Qual a melhor forma de dividir o dinheiro entre todos os participantes criativos?

O método mais óbvio é calcular a fatia de cada artista em proporção direta à popularidade de sua obra. A popularidade pode ser medida convidando 100 mil pessoas escolhidas aleatoriamente a fornecer as listas de obras que executaram. É isso que propostas de “recompensar os titulares dos direitos” geralmente fazem. Mas esse método de distribuição não é muito eficaz para promover a arte, pois uma grande fração das verbas iria para as superestrelas, que já são ricas ou ao menos confortáveis, deixando pouco dinheiro para apoiar os artistas que realmente precisam delas.

Eu proponho que, em vez disso, se pague a cada artista de acordo com a raiz cúbica de sua popularidade. Mais precisamente, o sistema poderia medir a popularidade de cada obra, dividi-la pelos artistas da obra para obter um valor para cada artista, depois calcular a raiz cúbica disso e determinar a fatia dos artistas em proporção a estas raízes cúbicas.

O efeito disto seria aumentar a fatia dos artistas moderadamente populares por meio da redução da fatia das superestrelas. Cada superestrela ainda receberia mais do que cada não superestrela, até várias vezes mais, mas não centenas ou milhares de vezes mais. Com essa alteração, uma dada soma total de dinheiro conseguirá apoiar adequadamente um maior número de artistas.

Promover a arte e a autoria apoiando artistas e autores é o objetivo correto de uma taxa de licença para o compartilhamento porque é o objetivo correto dos próprios direitos autorais.

Uma última questão é se o sistema deve apoiar autores e artistas estrangeiros. Seria natural que o Brasil exigisse reciprocidade de outros países como condição para lhes dar apoio a autores e artistas, mas penso que isto seria um erro estratégico. A melhor forma de convencer outros países a adotarem um plano como este não é pressioná-los por meio de seus artistas — eles não sentirão falta desses pagamentos porque não estão acostumados a recebê-los — mas educar seus artistas quanto aos méritos deste sistema. Incluí-los no sistema é a forma de educá-los.

Outra opção é incluir artistas e autores estrangeiros, mas reduzir o pagamento a 1/10 quando seus países não cooperarem reciprocamente. Imagine dizer a um autor: “Você recebeu R$ 50 da taxa brasileira de licença para o compartilhamento. Se seu país tivesse uma taxa semelhante e fizesse um acordo recíproco com o Brasil, você agora teria recebido R$ 500 do Brasil, somado à quantia de seu próprio país.”

Conheço um dos possíveis obstáculos à adoção deste sistema no Brasil: Tratados de Livre Exploração como aquele que estabeleceu a Organização Mundial do Comércio. Eles são projetados para fazer os governos agirem em benefício das empresas, não das pessoas; eles são os inimigos da democracia e do bem-estar da maioria das pessoas. (Agradecemos ao Lula por salvar a América do Sul da ALCA.) Alguns deles exigem “recompensa para os titulares dos direitos” como parte de sua política geral de favoritismo das empresas.

Felizmente, este obstáculo pode ser transposto. Se o Brasil se vir compelido a pagar pelo objetivo equivocado de “recompensar os titulares dos direitos”, ele ainda pode adotar o sistema apresentado acima. Aqui está como.

O primeiro passo rumo ao fim de um domínio injusto é negar sua legitimidade. Se o Brasil for compelido a “recompensar os titulares dos direitos autorais”, deve denunciar essa imposição como errada e ceder temporariamente a ela. A denúncia poderia ser colocada no preâmbulo da própria lei, da seguinte forma:

Considerando que o Brasil deseja incentivar a útil e prestativa prática de compartilhar, na Internet, obras publicadas;

Considerando que o Brasil é compelido pela Organização Mundial do Comércio a pagar aos titulares dos direitos o resgate dessa liberdade, mesmo que esse dinheiro vá apenas enriquecer as editoras em vez de apoiar artistas e autores;

Considerando que o Brasil deseja, além dessa exigência imposta, apoiar artistas e autores melhor do que o sistema atual de direitos autorais faz;

Em seguida, após estabelecer uma taxa para fins de “recompensa”, estabelecer uma segunda taxa adicional (igual ou maior em valor) para apoiar os autores e artistas. O plano desperdiçador e equivocado da “recompensa” não deve ser um substituto para o plano útil e eficaz. Então, implemente-se o plano útil e eficaz para apoiar os artistas diretamente, pois isso é bom para a sociedade, e implemente-se a “recompensa” exigida pela OMC, mas somente enquanto a OMC mantenha o poder de impô-la.

Isto iniciará a transição para um novo sistema de direitos autorais adequado à era da Internet.

Obrigado por considerar estas sugestões.

Richard M. Stallman

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  • Josias

    Poderia desonerar tambem o setor, retirando os impostos.

  • Rafa_neves

    A intenção parecem ser as melhor possível?

  • http://twitter.com/IDGNow IDG Now!

    Obrigada pela correção. Mudei a frase, do plural para o singular, antes de publicar e sobrou um plural.

  • Eduardo

    Interessante…

  • http://twitter.com/CALANGOBIT Dirceu Barquette

    A justa divisão do reconhecimento do valor por Stallman

  • Guilherme

    Gostei bastante. Bem consciente a proposta.
    Só nos resta saber se será, ao menos, analisada.

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  • Sérgio Mandrake

    Na últma linha do primeiro parágrafo tem uma erro do ortografia, tá 'direito auroral' em vez de direito autoral

  • Alexandre Anacleto

    Bom, o Dr. Stallman deixou tudo muito claro, e seria interessante ao menos estudar com criteriosidade esta proposta.
    Mas infelizmente, o Dr. Stallman não conhece o PT e a raça que está no poder aqui no Brasil.
    Dividir para eles, é somente Dividir, “para eles”.
    Mesmo assim, está aí a proposta, para o mundo inteiro ver.
    Vejamos agora o que o pessoalzinho desse partido medíocre vai fazer…

  • http://www.google.com/profiles/fabiolimace Fábio Lima

    O Stallman apresentou umas idéias bem interessantes. Eu achei justa a sugestão de direcionar os recursos diretamente aos artistas ao invés das editoras/produtoras/gravadoras. Considero isso um pouco difícil de ser implementado na prática, pois como o próprio Stallman diz, existem legislações nacionais e acordos internacionais antiquados que impedem isso. Mas quando se fala em internet, as coisas são diferentes, ou as empresas se adaptam e o governo organiza essas mudanças ou a bagunça vai tornar cada vez mais difícil a produção artística de qualidade, e a pirataria vai continuar correndo solta. Resumindo, algumas idéias são revolucionarias, embora outras sejam na prática inviáveis. Mas se a carta for levada em consideração creio que reforma da lei de direitos autorais vai promover avanços importantes.

  • Allanbarbosaus

    “direito auroral” você quis dizer autoral?

  • Leo

    Stallman foi perfeito em suas considerações

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  • Henrique

    Caro colega de classe média/alta, Alexandre Anacleto.
    Ao contrario das bobagens ditas na sua postagem, essa proposta condiz com os objetivos do nosso governo atual, 'popularizando' ($) cultura e descentralizando a renda.

  • Ronaldo

    Ah, bem interessante. O governo vai cobrar de todos os usuários de internet um pequeno imposto, depois, o dinheiro arrecadado vai para um fundo nacional ligado a um Ministério qualquer. Como só temos políticos honestos, esse dinheiro retornará integralmente aos criadores das obras.
    Resumindo, saímos das mãos das produtoras, editoras, gravadoras etc e tal para cairmos nas mãos do governo.

  • Pingback: Tribo do CI – Drops #001

  • http://www.facebook.com/sheldonled Sheldon Led

    O RMS é muito nerd mesmo! Achei muito legal a formula que ele usou!!! Creio que será difícil impor isso, parece muito com uma idéia que vi certa vez, de criar um repositório mundial de músicas, e cada usuário pagaria uma taxa mínima por mês para escutar quantas músicas quiser. Alternativas contra a pirataria.

  • Mestredelta

    Essa opção é fadada ao fracasso… é difícil para os ISPs concederem ou negarem o compartilhamento de arquivos… Naturalmente, aqueles ISPs que “afrouxassem” os recursos tecnológicos empregados no controle de compartilhamento de arquivos, seriam os mais contratados… Além do mais, hoje em dia há torrent com protocolo criptografado, VPN com criptografia, tunel SSH (também criptografado) e encapsulamento desses recursos um dentro dos outros…

    Eu particularmente sou a favor da liberdade na rede, e apoio iniciativas para tanto, inclusive as em prol do compartilhamento de arquivos. Embora o mesmo seja largamente usado na distribuição ilegal de obras artisticas e ,mais importante ainda, técnico-científicas, também é utilizado para outros fins.

    O autor receber o devido lucro por sua obra é uma coisa. Compartilhamento de informações na rede é outra. Eu sinceramente não sei como garantir que o autor recebe seu devido lucro, ainda mais hoje em dia que qualquer obra é facilmente digitalizada e compartilhada. Mas controlar o acesso ao compartilhamento de arquivos não é a solução. Pelo caminhar da carruagem, após a implantação de algo como isso, poderiam, por exemplo, querer limitar o próprio acesso a internet com base nesses critérios (como já é feito na europa).

    A internet, e seus recursos, é muito importante. Outra solução deve ser proposta para a questão dos direitos autorais.

  • Samuel

    Ótimas as sugestões do Dr. Stallman, na minha opinião.
    Uma pena saber o quão perigoso é deixar a distribuição dessa verba nas mãos de alguma entidade estatal. Mas ainda há a sugestão das entidades arrecadadoras, que podem ser instituições com certa autonomia.

  • Everton DLL

    São pessoas inteligentes fazendo a diferença em um mundo tão igual. Atitudes como estás deveriam partir primeiramente de dentro de nosso país. Não que uma visão de fora, com foco de melhorias sociais seja de menor importancia. Mas valeria mais como uma iniciativa interna. O país tem com certeza, pessoas com cacife para tal ideal, porém o sistema organizacional é o que deixa que isso ocorra.

  • http://www.facebook.com/people/Fernando-Henrique-de-Sousa/100001258653569 Fernando Henrique de Sousa

    Eu mesmo, como artista, penso que o ideal seria o seguinte, a gravadora serve só pra isso, gravar, e recebe um fixo pra isso, o artista faz o release do album na internet, de grátis, o público que gosta faz uma donation, que viabiliza a produção de uma versão física, como se fosse pre-order, sendo o valor dessas donations o valor de custo, acrescido de uma taxa de lucro, que seria dividida por contrato a 50% pra o artista e a gravadora, e haveria a opção de uma donation direta pro artista, simplesmente como reconhecimento, em qualquer valor…. Aí sim, funcionaria melhor… mesma coisa pro esquema dos livros….

  • luizvalerio

    Concordo. É preciso encontrar uma forma justa de valorizar os artistas brasileiros melhor distribuindo as verbas públicas e principalmente o pagamento dos direitos autorais. Não concordo que artistas devam viver de “esmola” governamental. O que deve haver é a formulação e execução de políticas públicas que tratem a cultura como uma vertente importante da economia, com capacidade para gerar emprego e renda.

  • luizvalerio

    Concordo. É preciso encontrar uma forma justa de valorizar os artistas brasileiros melhor distribuindo as verbas públicas e principalmente o pagamento dos direitos autorais. Não concordo que artistas devam viver de “esmola” governamental. O que deve haver é a formulação e execução de políticas públicas que tratem a cultura como uma vertente importante da economia, com capacidade para gerar emprego e renda.

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