Conheça 12 empreendedores que estão fazendo a Web 2.0 brasileira

(http://idgnow.uol.com.br/10anos/2007/10/18/idgnoticia.2007-10-17.2768024959)
Por Guilherme Felitti, repórter do IDG Now!
Publicada em 18 de outubro de 2007 às 07h00
Atualizada em 21 de outubro de 2007 às 12h48

São Paulo - De oito serviços, 12 empreendedores que estão abrasileirando os novos serviços online.

Dezesseis anos depois da primeira conexão à internet no país, quais as conseqüências que a sangria do capital de risco na internet trouxe à nova geração de empreendedores online que tentam abrasileirar a Web 2.0?

Mais acostumada com tecnologia, com um perfil mais jovem, inspirada em modelos internacionais e, mais importante de tudo, tão imatura quanto os primeiros investidores, a nova geração de empreendedores da internet no Brasil enfrenta um mercado não tão repulsivo a projetos online, mas compete pela atenção com tantos outros serviços internacionais em um mercado ainda mais aberto.

O IDG Now! selecionou 12 empreendedores de oito novos serviços online que despontam na renovação da web comercial brasileira. Confira.

Empreendedores: Guilherme Coelho, Edson Romão e Roberto Icizuca (Aprex)

aprexOnde estão os responsáveis pelos primeiros empreendimentos da internet no Brasil? Entre alguns que se renderam aos grandes portais e outros que se envolveram em negócios distantes da web, como bebidas alcoólicas e locações imobiliárias, são poucos os que ainda estão no front online. Os três sócios e fundadores do Aprex são alguns deles.

No meio de uma nova geração com idade média de trinta anos e pouca experiência em empreendedorismo, Guilherme Coelho, Edson Romão e Roberto Icizuca podem ser considerados os irmãos mais velhos da Web 2.0 brasileira.

Não que a idade seja limitante, segundo Coelho, CEO da ZeroUm Digital. “Quanto mais trabalhamos, mais vemos como a internet está no começo. Temos uma visão clara de que muita coisa que foi feito online é experimental e o comercial ainda está por vir”.

Experiência para fazer uma análise mais profunda os três têm. Em 1996, Coelho se juntou a Icizuca, que conheceu pelos corredores da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo para montar a ZeroUm.

A experiência com rádios - Coelho foi locutor da 89FM por cinco anos - fez com que a produtora criasse o RockWave e se propusesse a transmitir o sinal da estação pela internet. É aí que Romão entra na história.

Diretor comercial do provedor STI, Romão foi a ligação entre a ZeroUm e o streaming ao vivo da rádio online em 1997. “Fomos os primeiros a comprar a licença oficial do Real”, afirma Coelho com uma ponta de saudosismo.

O projeto inspirou tantos outros com rádios brasileiras e atingiu seu ápice em 2001, quando a ZeroUm coordenou a transmissão de áudio e vídeo pela internet do festival Rock in Rio para cerca de 150 mil usuários.

Nesta época, a ZeroUm continuava tocada por Coelho e Icizuca. Após montar o serviço de página pessoais hpG um ano antes, Romão estava prestes a ser incorporado ao portal iG em agosto de 2001 em uma compra cujo valor não foi divulgado, mas ultrapassa os milhões de reais.

Em 2003, Romão procurou Coelho, que estava morando nos Estados Unidos, com a idéia de um pacote de serviços corporativos acessos a partir da internet. Quando Coelho voltou ao Brasil, o criador do hpG se incorporou à produtora para começar a pensar no que seria o Aprex.

Quase dez anos após a primeira transmissão brasileira de rádio online, o pacote corporativo Aprex, com softwares online para organização de contatos, gerenciamento de eventos, formulação de campanhas, armazenamento de dados e ferramenta de e-mails direto do browser.

O Aprex funciona com planos e, segundo Coelho, um dos modelos comerciais é oferecer funções que agradem os usuários gratuitos para que assinem planos pagos, que vão de 19 reais para 49 reais mensais.

Enquanto o Aprex mantinha sua toada que atraiu 20 mil usuários em pouco mais de um ano de funcionamento, o serviço ganhou um empurrão para uma provável carreira internacional quando foi citada pela publicação Business 2.0.

Um dos 30 serviços de Web 2.0 fora dos Estados Unidos que valem a pena acompanhar segundo a revista, o Aprex recebeu contatos de interessados em uma expansão para fora e não descarta a hipótese de estrear internacionalmente.

O clima, porém, é de calma. “Temos um plano de negócios que estamos seguindo à risca. Não vamos nos apressar pela indicação da Business 2.0", diz Coelho, com a segurança que apenas a experiência confere.

Empreendedor: Manoel Lemos (BlogBlogs)

blogblogsNa vida profissional do mineiro Manoel Lemos, a internet foi sempre “a outra”. Por mais que estivesse vinculado formalmente a uma empresa com um foco fora da internet, suas horas vagas eram gastas na programação e planejamento de serviços online.

O que parecia uma ótima chance de tirar a internet do ingrato papel de coadjuvante na sua carreira veio em tempos incertos. 

Lemos montou em 2000 a startup PageMe, que enviava mensagens SMS gratuitas para mais de uma operadora, serviço de enorme potencial em um mercado que juntava usuários ávidos por telefonia com operadoras que “não ligavam muito para as hackeadas que eu fazia em seus sites”, admite.

Os usuários começaram a aparecer, os investidores marcaram reuniões e Lemos chegou ao ponto de contratar uma consultoria para tocar as negociações. Era tarde demais - em poucos meses, a bolha estourou e o PageMe não saiu do papel. O trabalho fora da internet teria de continuar.

Seis anos depois, Lemos se viu às voltas com uma nova linguagem chamada Ruby on Rails. Para aprender, resolveu montar um sistema de indexação de blogs, já que “blogs tinham um modelo de dados simples”.

Manoel Lemos nunca tinha tido um blog na vida, mas queria ter uma base de dados consistente antes de colocar seu serviço, batizado de BlogBlogs, no ar.

Em uma das viagens profissionais feitas no primeiro semestre de 2006, deixou a ‘spider’ que indexava blogs brasileiros ligada e, em uma noite, ultrapassou os 40 mil endereços que o então diretório dominante, o Blogs.com.br, tinha.

Originalmente, o BlogBlogs surgiu como um estudo de linguagem pelas mãos de um programador que nunca tinha editado um blog e tampouco conhecia o Technorati, serviço de indexação de blogs que mais tarde Lemos usaria como modelo

“Do ponto de vista de software, se alguém já pensou naquilo e tem um caminho seguro, vale a pena ir por aquele caminho”, afirma Lemos defendendo sua inspiração. “Não posso me dar ao luxo de tentar algo que não dá certo”.

Problemas com a insuficiência do servidor frente aos acessos fizeram com que o programador apostasse que o BlogBlogs vingaria até o final do ano “senão prometi pra minha mulher que a gente deixaria o projeto pra lá”.

Uma mudança geral no BlogBlogs em fevereiro fez com que o serviço decolasse, o que levou Lemos a desligar o spider responsável por indexar novos endereços, o que obriga a comunidade a se cadastrar ativamente.

Atualmente, são 161 mil blogs cadastrados no serviço, diz Lemos, que pretende usar a avalanche de conteúdo criado pelo usuário, avaliada em 650 mil posts, para transformar o BlogBlogs em uma plataforma de agregação, inspirada também em modelos internacionais.

Seu novo BlogBlogs Bookmarks tem o serviço de links favoritos online del.icio.us como inspiração evidente, com usuário salvando endereços em um banco de dados coletivo.

O cruzamento destas informações com os posts dará ao serviço, segundo Lemos, consistência à informação oferecida. “Se tem tanta gente que aponta para aquele blog, significa que ali tem coisa boa”, teoriza.

E o emprego oficial na HyperCom? Em pleno processo de contratação de funcionários e investimentos, o mineiro admite que poderia abandoná-lo, mas suspeita da perenidade do próprio serviço. “Quem monta startup não sabe direito pra onde vai. É a massa que vai te levar”.

Enquanto a massa digital brasileira vai levando o BlogBlogs, Manoel Lemos continua cumprindo seu expediente na HyperCom.

Empreendedor: Marco Gomes (boo-box)

boo-boxNo meio da entrevista, Marco Gomes se queixa de que sempre foi o mais novo dos grupos profissionais de onde trabalhou. Ironicamente, a afirmação é a mesma que Steve Jobs e Bill Gates fizeram um ao outro no recente encontro entre ambos promovido pelo jornal The Wall Street Journal.

Isto equipara o brasiliense de 21 anos aos fundadores de Apple e Microsoft? Longe disto. Mas dá uma boa idéia do perfil do jovem executivo que bolou o que parece ser um dos mais promissores serviço da Web 2.0 brasileira no mercado internacional.

Tudo na história do boo-box parece ter sido por acaso ou aos solavancos, a começar pela idéia original - em uma noite gasta na internet em novembro, Gomes encontrou uma foto da modelo Gisele Bündchen vestindo um All-Star.

Surgiu daí a idéia de usar a foto para ilustrar uma campanha publicitária na Agência Click, onde trabalhava, para vender produtos confortáveis - no meio do glamour do salto alto, a modelo brasileira escolheu um All-Star para caminhar com conforto, argumenta.

Rafael Vasconcellos, sua então companhia na conversa durante a madrugada, procurou Gomes um mês depois com uma idéia melhor: por quê não criar um sistema onde o usuário pudesse comprar o All-Star que a modelo calçava só clicando sobre sua foto?

Era dezembro. Algumas noites viradas programando depois, o boo-box estreava seu site com demonstrações, mas ainda sem ferramentas para uso público, no começo de janeiro de 2007.

Foi neste estágio primário que o boo-box estampou o TechCrunch, blog capitaneado por Michael Arrington sobre startups consultado por investidores e apontado como caminho do sucesso para novos serviços, duas semanas depois.

Em visita à casa dos pais em Gama, Gomes recebeu um SMS avisando do registro do TechCrunch e correu para a conexão discada. “Foram os dois minutos mais longos da minha vida”, lembra.

Uma semana depois, o boo-box ganhava o primeiro beta para a comunidade usar, apoiado, em palavras de Gomes, “pela brodagem dos amigos” que ajudavam na programação e desenhavam o logo enquanto ele prometia o pagamento em iPhones.

“Foi aí que vimos que dava para lançar”, afirma. Para um investimento de capital de risco foi um pulo - com a publicação no TechCrunch, foram três as propostas, fora uma oferta de venda avaliada em 10 mil dólares que Gomes relembra com um riso irônico.

O aporte escolhido, avaliado em 300 mil reais, veio da consultoria Monashees, a mesma que estudou o mercado brasileiro para elaborar o Ikwa, e fez com que Gomes largasse o emprego na Agência Click e a faculdade de Computação na Universidade de Brasília e se mudasse para São Paulo em maio.

Simultaneamente à fundação do escritório na capital paulista, o boo-box lançou sua nova versão para instalação, atraindo, segundo ele, 5 mil caixinhas abertas em setembro, com taxa de visualização de produtos de 30%.

Sem qualquer falsa modéstia, Gomes assume que o boo-box é “o único (serviço de Web 2.0 brasileiro) com projeção lá fora e que as pessoas se lembram”. A baixa idade, porém, se torna um problema quando ele se apresenta como fundador do serviço.

Com um visual que já contou com dread locks e um gosto peculiar para adereços, o brasiliense relata ter sempre enfrentado desconfianças por ser mais novo, a ponto de “presidentes se negarem a discutir projetos online com um moleque de 14 anos”.

Gomes, porém, se desvencilha de uma provável mágoa e admite que, entre algumas besteiras feitas pela evidente imaturidade, ninguém chega a onde está sozinho. “Enxergo longe hoje por que estou nos ombros de gigantes”.

Empreendedor: Fábio Seixas (Camiseteria)

camiseteriaNão há exemplo melhor de serviço brasileiro que explore o preceito de interatividade entre usuários de uma mesma comunidade para criar produtos da Web 2.0 do que o Camiseteria.

O serviço inaugurado pela parceria entre os cariocas Fábio Seixas e Rodrigo David, depois que este ganhou um concurso de design de camisetas nos Estados Unidos em agosto de 2005, tem uma simples premissa: a comunidade envia desenhos, a comunidade vota nos favoritos e a comunidade compra os produtos.

O modelo é baseado do serviço norte-americano Threadless, que ganhou popularidade em 2004 e inspirou tantos outras comunidades centradas em camisetas pelo mundo, admite Seixas, com preocupação de montar uma operação nacional adaptada ao mercado brasileiro.

A experiência de Seixas com internet e, principalmente, como produtos de perfil mais jovem não é recente. Criou um site de venda de posters em 1998 e, durante a bolha, apostava suas fichas em um serviço de indicação de bares e outro de navegação personalizada.

Mesmo com um investimento de meio milhão de reais de um milionário que queria diversificar seus investimentos, a recessão foi mais forte.

Para montar o Camiseteria, juntar dinheiro não foi tão fácil - mas, bolando um serviço que se apóia na comunidade, por que não apelar para ela no bem no começo também? Além de recursos próprios, Seixas e David venderam 150 kits a amigos custando 150 reais com a certeza do retorno em camisetas. Com a grana, começou o Camiseteria.

Após se cadastrar, o usuário publica uma ilustração que acha que dará uma bela camiseta. A comunidade de 60 mil usuários entra em cena e faz seu papel - diz se o designer tinha razão ou não.

As estampas mais votadas são fabricadas em lote e vendidas para a própria comunidade - Seixas estima que 8 mil do total comprem uma média de 1.800 camisetas a cada mês.
 
Nestes mais de dois anos, a Camiseteria já produziu 121 edições limitadas de camisetas, muitas com tanta procura que esgotaram e motivaram reedições, algo cada vez mais noticiado nas mensagens enviadas pelo serviço para sua comunidade.

Enquanto os designers contemplados ganham prêmios em dinheiro e produtos (mil reais no total, explica Seixas, sendo 600 reais em grana e 400 reais em camisetas), a Camiseteria cobra cerca de 55 reais por camiseta, abaixo das peças de grifes como Diesel e acima das camisetas de banda vendidas na Galeria do Rock.

"Por uma questão de estratégia, a Camiseteria entende que as camisetas são obras de arte e não faz sentido vender uma obra de arte por 15 reais, entendeu?" explica Seixas.

No mais, soma-se a conta a alta qualidade da camiseta ("da melhor malha do Brasil", garante) e o "grande valor agregado" de ter um produto bastante exclusivo.

Além de diversificar produtos, como roupas íntimas e posters, como já fez um dia, Seixas volta suas atenções à própria comunidade quando fala no ousado plano de abrir lojas de cimento e tijolo da Camiseteria nos próximos anos.

"Queremos que seja um lugar que as pessoas vão confraternizar, discutir idéias e encontrar amigos da mesma forma que fazem hoje no site da Camiseteria". Como se poderia esperar, o traje será bastante informal.

Empreendedor: André Garcia (Estante Virtual)

estante_virtualDurante 2004, uma crescente frustração com seu emprego em marketing tomava conta de André Garcia.

Formado em administração, o carioca se sentia cada vez mais desmotivado por não perceber diferenças entre o produto do seu trabalho e de outras empresas. “Era apenas uma luta dos acionistas para pegar uma fatia do mercado e eu estava desmotivado ideologicamente. Queria verter pra carreira acadêmica”, relembra.

A solução na teoria viria com um mestrado em Psicologia Social, mas não demorou muito para que uma nova frustração se abatesse sobre Garcia.

Perdido entre dezenas de referências usadas para elaborar seu projeto de pesquisa, Garcia percebeu a dificuldade em encontrar livros usados, único caminho viável para quem pleiteava fazer o mestrado apenas com bolsa de estudos.

Ao relembrar dos sebos de cimentos e tijolo, Garcia ironiza todo o conforto de quem passa horas entre estantes empoeiradas. “Nunca fui cliente de sebo e nunca me adaptei à forma de buscas. Você fica sentado na melhor das hipóteses, torcendo a cabeça pra ver o nome do livro nas lombadas de pé”.

A decisão foi a internet. Ao contrário de livros novos, porém, achar obras usadas online se mostrava frustrante principalmente pelo acervo praticamente inexistente online - coisa, segundo ele, da elite dos sebos brasileiros.

“Queria mudar esta situação que só uma elite tinha estrutura para levar a loja pra internet, enquanto os outros ficavam renegados ao gueto”, defende, em um típico discurso acadêmico.

A idéia de integrar sebos brasileiros, independente do tamanho, em uma mesma plataforma online nascera ali: seria vantajoso tanto para leitores como para os comerciantes.

Na prática, o plano tinha seus percalços. Ao bolar o projeto do site, chegou à conclusão que o Estante Virtual consumiria alguns milhares de reais em programação. Com dinheiro acumulado de outros empregos e financiado pelo pai, a solução foi aprender a programar.

Em dois meses, aprendeu “entre seis e sete linguagens” e colocou a versão básica do Estante Virtual em outubro de 2005, atraindo 12 sebos em uma semana.

Além de ser o primeiro serviço a integrar com sucesso sebos pelo Brasil, o Estante Virtual tem na insistência de André outro mérito: além de programar, o carioca catalogou e pré-registrou todos os sebos que encontrou pelo Brasil.

Na divulgação, ao invés de procurar o serviço e começar o processo do início, donos de sebos precisavam apenas ativar seu cadastro no Estante Virtual, em um empurrão de Garcia para que o site vingasse.

Prestes a completar dois anos, o Estante Virtual conta com acervo de 1,5 milhão de livros disponíveis por 669 sebos espalhados em 19 Estados brasileiros. E é apoiado nesta massa de livros e sebos que o Estante Virtual sobrevive.

Da mesma maneira que o site de baladas e restaurantes ObaOba sobreviveu nos anos de recessão da bolha brasileira, o Estante cobra planos mensais que variam entre 29,90 reais e 132 reais para que sebos inscrevam além de 500 livros.

Fora as mensalidades, Garcia afirma que o serviço leva 5% de todas as transições registradas, que deve, atingir “quase três milhões de dólares” até o final de 2007.

Com cifras assim, é evidente que frustração é algo que Garcia, mesmo depois de ter passado e abandonado seu mestrado em Psicologia Social, não deve mais experimentar.

Empreendedor: Maurício Schonenberger (Ikwa)

ikwaToda startup de internet no Brasil segue um processo padrão - a idéia nasce nas mãos de um grupo desprovido de capital, que tem que se virar para encontrar investimentos e viabilizar comercialmente o serviço.

O Ikwa nasceu totalmente na contramão deste modelo, a começar por Maurício Schonenberger, seu fundador e CEO, depois de passar pelos setores de engenharia automobilística e consultoria de estratégia.

O que faz, então, um executivo com este perfil à frente de um dos primeiros serviços de Web 2.0 brasileiro a atrair investidores de capital de risco?

“Sempre quis empreender. Trabalhei com um dos sócios da Monashees no México, desde lá, trocamos idéia sobre negócios em tecnologia”, explica, citando a consultoria de capital de risco com a qual se aliou para criar o serviço.

A idéia inicial de criar uma rede social com foco em carreira, mas voltada principalmente para estudantes que vão prestar vestibular, veio da consultoria, que pediu que Schonenberger esboçar um plano de negócios do projeto.

No Ikwa, estudantes poderiam encontrar orientação de profissionais de diversas áreas e compartilhar com colegas dúvidas sobre a carreira que tomariam nos anos anteriores ao vestibular.

Incubado por seis meses dentro da Monashees, Schonenberger criou o Ikwa. Com um plano de negócios que explicava como o serviço se pagaria em médio prazo, a consultoria investiu no Ikwa em novembro de 2006.

Cronologicamente, o Ikwa foi o primeiro a receber aporte na Web 2.0 brasileira, mas apenas o terceiro a divulgar, o que vai ao encontro de outro hábito nada convencional ao mercado nacional de internet.

A decisão de atrasar o anúncio até que o serviço estivesse pronto, segundo o executivo, tem relação com a cultura da “inspiração” dos empreendedores online do Brasil. Nas palavras de Schonenberger: “Não queríamos que alguém fizesse algo parecido e lançasse antes da gente”.

O cuidado com que Schonenberger e a Monashees criaram o Ikwa resvala também nos outros dois sócios do serviço, Daílton Bassi, que cuida da infra-estrutura tecnológica, e Carmen Nascimento, responsável pelo conteúdo para estudantes.

Para dar apoio aos usuários e não depender exclusivamente do conteúdo criado por outros vestibulandos, o Ikwa aposta em entrevistas filmadas de orientação com personalidades como o médico Drauzio Varella, o físico Marcelo Gleiser e o cientista Miguel Nicolelis.

“As pessoas fazem no estilo bangu, né?”, resume em uma frase longe do corporativismo. “A gente fez um caminho mais planejado, estudando o mercado antes de fazer alguma coisa e jogar na parede para ver se gruda”.

Ainda em beta fechado, o Ikwa tem apenas 1.500 usuários testando o serviço e ainda não tem data para a comunidade em geral saber se tanto investimento grudará ou não.

Empreendedores: Diego Monteiro e Renato Shirakashi (Via6)

via6Pelo modelo brasileiro de empreender online seguindo os passos de serviços de sucesso dos Estados Unidos, o Via6 é campeão unânime no quesito inspiração internacional.

“Muita gente nos comparava com Orkut, LinkedIn e, agora, com Facebook. Assumimos que acompanhamos tudo e sempre usamos recursos que se destacam lá fora”, admite Diego Monteiro, fundador e diretor-executivo da rede social.

Nascido como uma rede profissional nos moldas do LinkedIn, o Via6 emplacou seu serviço de categorização de notícias Rec6 como o clone do Digg mais popular no Brasil e, frente à recente popularização do Facebook, se inspirou na rede de Mark Zuckerberg.

A premissa básica do Via6 usar a colaboração da chamada Web 2.0 para que “pessoas fizessem algo útil”, diz Monteiro, se apressando em dizer que não tem nada contra serviços supostamente de diversão, como YouTube e Orkut.

A postura útil da Via6 está no foco em relacionamento profissional entre seus cadastrados, seja por conteúdo próprio publicado por um usuário ou por material de outros serviços, como vídeos e apresentações corporativas, integrados ao Via6.

Conflitantemente à postura do Via6, Monteiro afirma que teve a idéia de montar a rede social pela frustração de trabalhar em uma empresa cujo ambiente não tinha tanta inovação.

Juntou-se ao amigo de infância Renato Shirakashi no final de 2004 para começar a bolar o Via6 com a consultoria de Marcelo Ballona, um dos investidores e posteriormente sócio do Submarino, algo determinante para a escolha da web.

“Se o Ballona trabalhasse com varejo, pensaria em montar algo no varejo”, recorda. Assim como a Estante Virtual, Diego e Renato se beneficiaram de investimentos dos pais e poupanças próprias para custear o desenvolvimento.

Inspirado ou não em serviços internacionais, o Via6 carrega um mérito inegável: é a comunidade profissional de maior base de usuários no Brasil, com 195 mil usuários e ritmo de crescimento que acrescentou 100 mil cadastrados nos últimos quatro meses. Destes, apenas 6 mil estão inscritos no Rec6.

O crescimento tem relação direta com o investimento de capital de risco não divulgado recebido pela Via6 em março da consultoria Confrapar. Na época, Monteiro afirmou que 95% da verba seria usada para sofisticar a rede social.

“O investimento mudou nossa capacidade de movimentação. Temos equipe de marketing e nossa produtividade aumentou, já que também existem investidores exigindo aumento de metas”, afirma. 

É para aplacar as exigências destes investidores que o serviço planeja para novembro a estréia de um novo modelo de publicidade que usa banners segmentados para encontrar um modelo comercial para o Via6.

Com relatórios detalhados de visualização, Monteiro espera atrair anunciantes e agências para o Via6, que, segundo suas metas, conseguirá se sustentar sob suas próprias pernas até julho de 2008.

“Quando tivermos massa crítica, entre 800 mil e um milhão de usuários, podemos fazer uma versão bilíngüe”, projeta em médio prazo, enquanto o Orkut acumula 24 milhões de brasileiros e o MySpace, 110 milhões em todo o mundo.

Empreendedores: Ariel Alexandre e Edson Mackenzie (VideoLog)

videologA história você conhece: uma dupla de amigos faz filmes e, com dificuldades de colocá-los na internet para seus amigos, inventa um serviço de vídeo que ganha inesperada audiência.

Ao mesmo tempo em que suporta a trajetória de Steve Chen e Chad Hurley, dois ex-funcionários do PayPal que fundaram o YouTube e se tornaram multibilionários da noite para o dia quando o Google pagou 1,65 bilhão pelo serviço, a história é a mesma de dois amigos brasileiros.

Troque o Valo do Silício pela Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ariel Alexandre e Edson Mackeenzy se conheceram em uma rádio comunitária no bairro de Pedra de Guaratiba - um fazia o turno da tarde, o outro da noite.

Em julho de 2004, a dupla gastou 130 mil dólares para colocar no ar a primeira versão do VideoLog como uma canal para Ariel mostrar ao público em geral matérias pautas, filmadas e editadas para um pequeno canal fluminense.

De canal para escoar conteúdo próprio, o VideoLog começou a tomar forma como uma plataforma na qual os usuários poderiam publicar vídeos que eram reproduzidos sem a instalação de qualquer software.

Cronologicamente, o YouTube, que tinha a mesma proposta, iniciou suas operações oito meses depois, em fevereiro de 2005, fato repetido à exaustão pela dupla que admite que, se morasse na Califórnia, poderia estar bilionária agora como seus colegas norte-americanos.

Não foi o caso. Até fecharem o atual contrato de parceria com o portal UOL, o VideoLog afirma ter sofrido na mão de outros provedores principalmente por ser um serviço que abusa da banda sem qualquer retorno financeiro a curto prazo.

Sem citar nomes, Ariel diz que o VideoLog foi expulso de três provedores por consumo de banda excessiva. Além de discussões com provedores, tamanha procura significava também aumento nos usuários navegando pelo serviço.

Em dezembro de 2006, quando a parceria foi fechada, o número de vídeos cadastrados no serviço era de 190 mil acessados por uma média de 500 mil usuários únicos.  Em dez meses, o número de filmes mais que duplicou, atingindo 500 mil, enquanto os usuários únicos quadruplicaram para 2 milhões.

Com uma estrutura suficientemente robusta para agüentar o aumento de procura e séries de considerável sucesso na internet brasileira, como as exóticas danças de Gigi, o VideoLog faz mistério sobre possíveis avanços em médio prazo.

O plano mais ousado de Ariel e Mackeenzy é algo que o serviço do YouTube, que começa calmamente a melhorar seu filtro contra conteúdo pirata, está a milhas de conceber - monetizar sua comunidade.

Nos próximos meses, anunciantes poderão aproveitar séries de sucesso ou novos produtos de vídeo para integrar suas marcas.

Caso se interesse pela idéia de um usuário e resolva usá-la, o VideoLog repartirá a grana com o usuário, no primeiro exemplo prático no Brasil de remunerar devidamente o trabalho da comunidade.

Outra promessa são acordos para veicular o conteúdo criado por usuários em ambientes públicos, como supermercados ou estações de metrô, o que também renderia verba aos usuários e direcionaria ainda mais o VideoLog para o papel de plataforma em que anunciantes e milhares de veículos se encontram.

Há também o lado completamente oposto à situação multimilionária de Chen e Hurley - o VideoLog planeja instalar oficinas em regiões carentes brasileiras que ensinem jovens a manipular câmeras, editar filmes e publicar conteúdo multimídia online, na mesma linha de inclusão digital martelada pelo Ministro da Cultura, Gilberto Gil.

Anteriores ao YouTube, o VideoLog cumpre seu papel de introduzir novidades antes do serviço do Google. Só faltou, no meio do caminho, a montanha de dinheiro.