
As salas de cinema pelo mundo já não contam com o romantismo com o qual Alfredo, o operador de cinema do clássico “Cinema Paradiso”, reproduzia os grandes rolos de filmes que chegavam à cidade de Giancaldo, no interior da Itália.
O mesmo avanço tecnológico que já havia transformado as pequenas salas em aglomerados de atrações tem um novo alvo: os rolos de filmes. Assim como já havia feito em outras mídias populares, como a televisão e o rádio em mercados internacionais, a digitalização do cinema trouxe à indústria um barateamento nos custos envolvidos em produções, além da melhoria da qualidade nas reproduções que colocam em xeque a sobrevivência dos tradicionais rolos de 35 milímetros.
Em um mercado tradicionalmente acostumado a adotar tecnologia tardiamente em comparação a mercados maduros, o Brasil já experimenta muitas das facilidades do cinema digital, mas ainda vê uma longa estrada a percorrer até que o romantismo dos grandes rolos seja soterrado pelos bits das cópias digitais.
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>SP e RJ concentram 60% das salas digitaisAs duas exibidoras brasileiras que oferecem sistemas digitais de reprodução contam cerca de 127 salas, pouco mais de 5% das 2.095 mil salas totais espalhadas pelo Brasil, segundo dados de 2006 da Agência Nacional de Cinema (Ancine).
Mas, mesmo assim, os envolvidos com o negócio do cinema apostam na tecnologia. “O cinema digital pode popularizar o cinema mais do que você imagina. Você tem mais acesso a mais filmes, o que acarreta em uma programação mais diversificada”, cita Fábio Lima, sócio da Rain Networks, que aposta em uma espécie de círculo virtuoso no cinema nacional. “Quanto mais diversidade houver, maior a chance de atingir diferentes públicos e ter mais cinemas para responder à demanda”.
Custos menoresEm vez de filmes em 16 mm ou 35 mm rodarem por cinemas da mesma cidade, salas preparadas para o novo sistema baixam os filmes. O download é feito por satélite do servidor da empresa que gerencia o cinema digital e ferramentas de segurança, como a criação de uma senha baseada no hardware do micro que, conectado ao projetor, reproduz o filme, garantem a proteção contra a pirataria.
Quem garante são as duas únicas empresas brasileiras que gerenciam sistemas digitais de exibição no Brasil: a TeleImage, da CasaBlanca, e a Kinocast, da Rain Networks. Além do frete menor, a construção de salas digitais também é incentivada pelo baixo investimento, se comparado com os cinemas convencionais com exibição de 35 mm. Somados gastos com sonorização, projeção e infra-estrutura, como cadeiras e tela, uma sala que reproduz filmes de 35 mm sai por até 280 mil reais. Uma sala digital nova, que use os sistemas TeleImage ou Kinocast, sai por cerca de 80 mil reais, com as mesmas despesas de infra-estrutura da sala convencional.
Outros destaques do IDG Now!:> Veja 16 produtos tecnológicos de luxo> Fotos: o novo iPod touch screen da Apple> Dicas para fotografar à noite> Faça upgrade no seu laptop> Confira 6 firewalls gratuitosDo lado do diretor, a queda é tão sensível quanto em razão dos preços estratosféricos cobrados para a finalização da película. Se o diretor filmar em digital e depois passar para 35 mm, processo chamado de transfer, pagará 120 mil reais pela conversão. Uma cópia física não fica por menos de 2,5 mil reais, segundo dados da Rain Networks.
Caso escolha pelo sistema digital, gravação e exibição, não há custos. Além disso, um diretor brasileiro sabe que não precisará gastar tanto na finalização da obra ou que poderá empregar sua verba em outros pontos da produção, como elenco ou promoção.
O barateamento, aliado ao uso das salas para outras funções que não apenas a exibição de películas, torna o sistema digital um veículo em potencial para tanto para popularizar a ida ao cinema como a produção cinematográfica brasileira.
ProduçõesO melhor exemplo brasileiro para tanto foi o documentário “Cartola”, primeiro filme nacional lançado sem nenhuma cópia em 35 mm - das filmagens à distribuição, todo o processo foi digital.
“Ou eu gastava 200 mil com transfers e cópias ou investia em publicidade de uma maneira não muito tradicional dentro do circuito digital”, explica Clélia Bessa, sócia da Raccord, produtora responsável pelo filme.
Ao escolher a segunda opção, Bessa conta que produziu sete diferentes trailers para o filme, que eram reproduzidos alternadamente sempre em sessões consideradas “corretas” pela produtora durantes três meses.
No fim das contas, o filme, que conta a trajetória do pedreiro Angenor de Oliveira ao sambista Cartola ligado à Estação Primeira da Mangueira, foi levado a cidades que pouco exibiam documentários brasileiros no cinema, destaca Lima, como Goiânia e Belo Horizonte.
Nas contas de Bessa, “Cartola” atraiu 70 mil pessoas ao cinema, número considerado bom para um documentário brasileiro lançado apenas no modelo digital. Maior audiência do Brasil em 2006, o filme “Se eu fosse você”, de Daniel Filho, atraiu 3,6 milhões de pessoas aos cinemas, segundo dados da Filme B.
“Se tivesse feito em 35 mm, provavelmente teria mais uns 20 mil espectadores, já que o circuito digital ainda é muito restrito”, imagina a produtora de Cartola, classificando o empreendimento como uma aposta. “Mas a economia compensou a aposta”.
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