Reportagens
Cineasta conta experiência ao trocar 35 mm por filmagem digital
Por Guilherme Felitti repórter do IDG Now!
Publicada em 13 de setembro de 2007 às 07h00
Atualizada em 18 de setembro de 2007 às 21h05
Tags: Câmeras digitais, Gravadoras, Estratégias, Streaming media
São Paulo - Com 14 filmes analógicos, Carlos Gerbase conta adaptação e percalços para filmar “3 Efes”, sua primeira obra em digital.
A introdução de novas ferramentas ou processos de produção é alvo de desconfianças e readaptações em qualquer atividade humana. No cinema não deveria ser diferente. Como cineastas brasileiros, acostumados a rodarem suas obras em filmes de 16 milímetros ou 35 milímetros, sentiriam-se filmando o primeiro filme com o sistema digital?
Carlos Gerbase, gaúcho com 14 filmes (“fora especiais para a TV”, relembra) no currículo, como “Tolerância” e “Sal de prata”, relatou ao IDG Now! os percalços da gravação de “3 Efes”, primeira obra filmada completamente em digital da sua carreira.
As cerca de três semanas que Gerbase passou com sua equipe, em dezembro de 2006, filmando “3 Efes” não foi seu primeiro contato com cinema digital. No seu filme anterior, “Sal de prata”, o cineasta criou um debate ficcional sobre as vantagens e problemas do novo sistema. A metalinguagem antecedeu ainda uma experimentação: no meio do filme, Gerbase alternou imagens feitas em digital e 35 mm.
“Na comparação de qualidade entre ambos, não fez muita diferença pro público”, conta. O processo de fazer um filme em digital “muda muita coisa”, já que o diretor pretendia manter a coerência ao rodar todo o filme.
Apresentado como um filme que procura incentivar “produções de baixo custo em suporte digital”, “3 Efes” foi escrito, segundo Gerbase, para aproveitar o recurso dramatúrgico do cinema, sem muitos efeitos visuais, focado na universitária Sissi, que sustenta seu pai e irmão.
“Queria fazer um filme barato e simples, então todos os processos ao redor da filmagem também precisavam ser simples”, relata, afirmando que manteve a economia também em fatores que influenciam direto nas contas do filme, como equipes e dia de filmagem.
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Com uma câmera DV de alta definição mais fácil de carregar e com melhor qualidade na captação de luz, o número de envolvidos se torna menor, o que favorece a mobilidade da equipe. Segundo Gerbase, isto influencia diretamente no período de filmagens em comparação ao sistema analógico. “É um ótimo dia de trabalho com 35 mm quando se faz até 20 planos em um dia. Quando se tem digital, é possível fazer até 50 no mesmo período, agilizando demais o processo”, relata.
A agilidade significa que “3 Efes” foi feito em 20 dias, enquanto “Sal de prata” levou quase o dobro, com 36 dias de filmagens. Na comparação financeira, a diferença se torna ainda maior. Enquanto filmes de baixo orçamento no Brasil chegam a ultrapassar a marca dos 800 mil reais, segundo dados do próprio cineasta, seu filme custará, no total, 100 mil reais.
Entende-se que a tecnologia agilize processos já estabelecidos, mas um custo tão menor assim não implica em sérias restrições ao filme, como uma qualidade menor, por exemplo? “Não vou querer da tecnologia o que ela não pode dar”, sintetiza Gerbase.“Se filmo com digital, não vou esperar a qualidade de imagem que um rolo de filme me daria. É mais ou menos como o Dogma 95: vamos contar uma história, explorar os atores e entreter os espectadores”, afirma, citando o movimento de cinema criado na Dinamarca que pregava a menor interferência possível de efeitos especiais nos filmes.
A nova geração
Para Gerbase, o barateamento da produção de filmes significa que as novas gerações de cineastas terão em mãos a forma de resolver a explosão de profissionais que o pobre mercado brasileiro tentará absorver nos próximos anos. “No Rio Grande de Sul, começou a ter faculdade de cinema há quatro anos. Essa geração mais nova não vai ser empregada pelos grandes e vai ter de se virar, mas poderão pensar em comprar câmeras e ilhas de edição”, aponta.
Tecnologias ampliam demais os horizontes destes cineastas, algo que, conta ele, sua geração, que tem ainda nomes como Jorge Furtado, Walter Salles e Fernando Meirelles, não teve. “Isto não significa, é claro, que todos farão filmes bons”, contesta. As “limitações” do cinema digital poderão, inclusive, ajudar a fomentar a sofisticação pessoal que a dramaturgia exige nas telas, acredita o diretor, o que não significa necessariamente que todos os diretores abdicarão dos efeitos em nome da história. “Não existe essa de preferência no Brasil. Se eu tenho orçamento, equipe e condição de fazer um filme em 35 mm, eu faço”.

