Reportagens
Entrevista: o brasileiro por trás da próxima revolução de interface
Por Guilherme Felitti, repórter do IDG Now!
Publicada em 25 de julho de 2007 às 09h51
Atualizada em 18 de setembro de 2007 às 21h04
Tags: Internet, Hardware, Notebooks, Servidores, Armazenamento
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Fala-se muito também que o futuro da computação seja o toque.
Trabalhamos muito com interfaces táteis em nossos experimentos e, realmente, você tem uma precisão no tato que a gente nunca usa na computação. Este também é o futuro. Quando você sentar para trabalhar, poderá experimentar seu corpo junto ao PC, criando uma experiência que vai parecer absolutamente real.
Imagina-se que integrar chips ao cérebro de um animal seja um processo altamente invasivo. Como o senhor pretende driblar isto para realizar experimentos em seres humanos?
Para falar a verdade, nenhum dos experimentos foi invasivo, já que, no caso dos macacos, os eletrodos são implantados 2 milímetros dentro do cérebro. Há uma impressão muito errada sobre o impacto do que nós fazemos. Na realidade, a cirurgia é complexa por outras razões. Começamos a fazer em ratos, o que nos dava um espaço muito pequeno. Com isto, desenvolvemos habilidade manual. Quando chegamos a macacos, a técnica já estava supertreinada, com 10 anos de prática.
Do ponto de vista de prevenção do animal, é simples também, já que você entra em um tecido superficial e, depois que abre as meninges, o cérebro não tem nenhuma fibra que transmite dor. Por incrível que pareça, o cérebro sente dor do corpo inteiro, menos de si próprio. O problema de verdade é treinar o animal e fazer com que os eletrodos funcionem. No momento em que a gente tiver uma certeza que os eletrodos ficam dentro do cérebro produzindo sinais por um longo período, poderemos pensar nos humanos.
Até lá, precisaremos comprovar que há um material que fique em ambiente cerebral, que é corrosivo (não se esqueça que o espaço é composto por solução salina) e isto corrói o metal do eletrodo. Há também que se considerar a reação inflamatória quando se coloca algo no cérebro, o que tende a obstruir o eletrodo.
Há outra maneira menos invasiva de se aproveitar os sinais cerebrais?
Existem métodos que registram sinais elétricos detectados na superfície do coro cabeludo chamados eletroencefalográficos. Para registrá-los, não precisa nem abrir a pele. A diferença entre este e o do nosso estudo é que o sinal do macaco é registrado do lado da célula, enquanto osso e pele são barreiras que diluem este sinal, que fica sem especificidade e gera problemas como perda de resolução.
Como funciona o processo de conexão entre cérebro e chip?
Primeiro, é preciso filtrar o sinal cerebral, que tem uma taxa muito alta de ruídos, como interferências externas e o ruído biológico do cérebro. Depois disto, é preciso decodificar o sinal em até 300 milisegundos. Além de muito rápido, isto também não é trivial do ponto de vista computacional. Você tem de transformar isto em comandos digitais que um robô entenda e depois devolvê-los ao cérebro, que vai precisar se adaptar às novas ordens. Comandar um braço biológico que está com você desde o nascimento é uma coisa, mas dar ordens a um braço robótico que você nunca viu antes é bem mais complicado.
São passos que, há 20 anos, eram encarados como impossíveis de serem feitos e que foram possibilitados apenas pela confluência de tecnologias no final da década de 90. Não se tinha conhecimento técnico nem computadores rápidos o suficiente nem eletrodos que fossem suficientemente robustos para registrar sinal cerebral elétrico continuamente por meses.
Onde é feita esta transformação?
Há um software que faz esta tradução em tempo real do sinal cerebral em bits cujo código o meu grupo de neuroscientistas em Duke escreveu.
De certa maneira, este software pode ser a ponte entre todos os grandes experimentos neste campo, não?
Sim, sem dúvida. Evidentemente, este software evoluiu muito nos último 10 anos. A versão atual faz coisas que nunca imaginamos que poderia fazer. E o mais interessante é que não precisa de um supercomputador - usamos uma coleção de CPUs organizadas em um cluster. Estamos, contudo, no caminho para reduzi-lo a algo que rodará em um BlackBerry.
Vocês pensam em comercializar este software?
Ainda não, já que o software foi desenvolvido apenas em ambiente universitário. Sempre achei que até o final do desenvolvimento era preciso tocar o experimento sem fins lucrativos. Um dia, evidentemente, ele será comercializado, mas isto será no futuro. Agora, queremos chegar no final da estrada só em ambiente universitário.
Seu estudo pode ajudar a inteligência artificial a avançar com a integração de neurônios a chips?
Sinceramente, acho que a Inteligência Artificial (AI) que a gente conhece morreu. Aquela história do Marvin Minsky (pesquisador do MIT e pai da AI) que achava que ia programar inteligência era bastante marketing e pouca linguagem.O problema se provou não ser factível - você não consegue programar inteligente apenas com regras. Esta área está gerando um outro campo de pesquisa, onde o aparato biológico é parte de algo que você cria. Ele utiliza um circuito biológico consciente. É possível também que exista um híbrido - a inteligência humana (no formato de um neurônio) conectada a um sistema computacional extremamente ágil e eficiente que traduz intenções voluntárias em múltiplas ações simultâneas.
Esta área ainda vai crescer demais e temos algumas discussões do ponto de vista filosófico que ainda nem tocamos ainda. O que mais me fascina é a facilidade do cérebro incorporar artefatos como se fossem parte da representação do corpo - é algo que ainda não foi explorado nem o começo e dará muito o que falar.

