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Entrevista: o brasileiro por trás da próxima revolução de interface

Por Guilherme Felitti, repórter do IDG Now!
Publicada em 25 de julho de 2007 às 09h51
Atualizada em 18 de setembro de 2007 às 21h04

Tags: Internet, Hardware, Notebooks, Servidores, Armazenamento

São Paulo - Líder do experimento que conectou o cérebro de macacos a computadores, Miguel Nicolelis explica uso do PC pelos pensamentos.

Nicolelis_270x212Em 1984, quando a Apple apresentava a interface gráfica do Macintosh, um homem ganhou os louros por aproximar a computação do usuário comum: Steve Jobs. Mais de duas décadas depois, o desenvolvimento do que pode ser a próxima revolução na maneira como se usa o computador pessoal está sendo liderada por um brasileiro: o paulistano Miguel Nicolelis, líder do Centro de Neuroengenharia da Universidade de Duke, nos Estados Unidos.

Nicolelis foi responsável por liderar a equipe que, em 2000, conseguiu conectar o cérebro de um macaco a um computador. A inédita conexão entre neurônios e processadores permitiu que o símio jogasse um simples game com o pensamento a abriu precedentes para a introdução do pensamento na computação.

Assumidamente otimista quanto à mistura entre homem e máquina, Nicolelis prevê, nesta entrevista, que se chocou na interface gráfica e agora planeja aplicar os avanços da neurosciência para controlar PCs apenas com pensamentos.Até que a tecnologia amadureça para uso em massa, o pesquisador, apontado como um dos 100 cientistas mais importantes do mundo em 2004 pela revista Science, revela planos de levar experimentos para humanos.

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Além de uma parceria com o hospital Sírio Libanês, em São Paulo, para experimentos do tipo, Nicolelis também está por trás do Instituto Internacional de Neurosciência de Natal, estabelecido na capital potiguar para incentivar um modelo de ciência ignorado no Brasil, além de arcar com sua responsabilidade como cientista, algo que a academia brasileira, diz ele, ignora totalmente.

Qual o impacto nos humanos que seu estudo poderá ter no futuro?
Miguel Nicolelis: Devemos ampliar os benefícios para pacientes com lesões neurológicas graves. Porém, ainda é uma técnica invasiva, o que impede sua aplicação no primeiro instante em humanos. Pacientes com paralisia ou derrame que ficam incomunicáveis poderão se beneficiar desta técnica para que o cérebro se expresse sem ajuda do corpo. Gosto de dizer que, finalmente, o cérebro pode se declarar independente do corpo. Por outro lado, a tecnologia abre possibilidades no futuro, com melhoria dos métodos e estabelecimento de técnicas não invasivas, de um ser humano normal ampliar sua capacidade de atuação no ambiente.

Seria trazer para a realidade as capacidades apresentadas pelos ciborgues da ficção científica?
O problema do ciborgue é que, como ele vem da  literatura de ficção científica, tem uma conotação muito maquiavélica, da perda da humanidade. Sou otimista neste caso. Sonho com o dia em que meu laptop, quando eu sentar para trabalhar, me faça sentir dentro dele, por meio de uma experiência muito realista para interagir com os gráficos que eu faço e com os textos que escrevo. Minha interação com este sistema agora é pelo teclado, o que é irritante demais. O cérebro assimila as ferramentas que a gente cria, tal qual um violinista ou tenista.

Na realidade, tenho visão otimista das possibilidades que se abririam a partir do momento que se pudesse interfacear suas vontades e suas sensações com ferramentas que a gente cria. Para pessoas que nascem com defeitos cognitivos ou de aprendizado congênito, a perspectiva de utilizar recursos cerebrais que ainda restam para melhorar o déficit gerado por esta patologia vai ser tremenda. Pacientes com doenças como Mal de Parkinson também poderão ser beneficiados no futuro.

A aplicação prática do seu experimento como interface computacional pode ser uma revolução tão grande quando o Macintosh, da Apple, introduziu a interface gráfica em 1984?
É esta a idéia, que remete à minha vida de estudante em São Paulo. Por insistência do meu filho, resolvi comprar  um Macintosh com monitor de 30 polegadas para ver como eu me sentia com interface da Apple. Foi uma revolução na minha cabeça, porque era algo melhor do que o IBM PC. Fico pensando como vai ser o dia em que eu sentar na frente do PC e puder pegar meus textos e fotos sem mexer a mão, como se estivesse mergulhado no meu gráfico a cada vez que eu ligo o PC. Meu pensamento controla basicamente esta interface gráfica. Será uma revolução e ela virá. As empresas de computação estão começando a descobrir que o segredo da nova interface computacional esteja na neurosciência.

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