São Paulo - Improvisação, paixão e abnegação. Saiba como a Mozilla, que desenvolve o Firefox, cria e envolve sua comunidade.
Asa Dotzler invade esbaforido o hotel em que está hospedado em São Paulo com duas mochilas nas costas e, ofegando, se desculpa pelo atraso no encontro, enquanto um trio toca versões em jazz de sucessos da bossa nova no bar colado ao hall.
São 21h30 da noite de uma terça-feira, último dia em que o evangelista do navegador de código aberto Firefox ficará no país.
Dotzler vem de uma viagem ao interior de São Paulo que reflete muito bem o espírito da comunidade de software livre que está ameaçando o monopólio da Microsoft na arena dos navegadores de internet.
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Na noite anterior, Dotzler e JT Batson, membro da equipe de marketing da fundação que o acompanha, deveriam ter ido de carona até Campinas, a 100 quilômetros de São Paulo, onde fariam uma palestra para estudantes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A carona não apareceu. Na hora combinada para a segunda tentativa de entrevista, no almoço do mesmo dia, Dotzler e Batson, entre pedidos envergonhados de desculpa, pediam para cancelar o encontro para que pudessem se achar na cidade de São Paulo e tomassem um ônibus até a Estação do Tietê, onde tomariam uma condução intermunicipal para Campinas.
Foi difícil não esconder a surpresa: o responsável por orquestrar a comunidade mesclada por engenheiros, geeks e entusiastas, que começou com 12 pessoas e hoje tem mais de 500 mil seguidores e roubou 16% de participação do mercado de browser da Microsoft, desbravaria o Brasil em um ônibus.
Para chegar aos 500 mil seguidores, é preciso entender a história do Firefox, que deriva do código-fonte do Netscape, o navegador que chegou a ameaçar o domínio da Microsoft na internet durante a década de 90.
Prestes a entrar na Universidade de Stanford, Blake Ross, então um estudante de 15 anos, se juntou ao amigo Dave Hyatt e apresentou à comunidade, até então reduzida a programadores e entusiastas órfãos do Netscape, seu projeto.
Em 2002, chegava à internet o Phoenix 0.1, navegador de código aberto que tinha interface gráfica Gecko e, segundo admitiu Rossa na época, seria tão fácil que até seus pais poderiam usar sem problema. No ano seguinte, por problemas jurídicos, o software mudou de nome para Firebird e, finalmente, para Firefox, em 2004.
Comunidade mesclada
A diferença da comunidade Firefox para outras de desenvolvedores começa aí. Com um cérebro assumidamente incapaz de programar, Dotzler percebeu que poderia ajudar a melhorar o software que tanto admirava apenas reportando falhas para os engenheiros, que corrigiram as falhas.
Em 1998, quando a primeira versão do navegador bolada pela comunidade que usava o código-fonte do Netscape chegava à web, ele era um dos únicos a assumir a tarefa.
“Comecei a ajudar outras pessoas que queriam enviar avisos de falha no formato exigido pelos engenheiros. Um dia, percebi que cerca de 10 mil pessoas baixavam e reportavam falhas diariamente e ganhei muito do crédito por isto”, relembra Dotzler. “Abrimos as portas para qualquer um que queira ajudar. Foi ali o começo da comunidade Firefox”.
Foi ali, também, o início da escalada do Firefox contra o Internet Explorer. De novembro de 2004 até hoje, o IE caiu de 96% para menos de 80%, segundo vários indicadores independentes. É muito ainda, é verdade.
Dados oficiais da Mozilla apontam que o Firefox conta com participação mundial de 16% do mercado de navegadores.
Com seus 3,5 milhões de usuários, o Brasil está um pouco abaixo disto (13%), enquanto países desenvolvidos, como Eslovênia e Finlândia, chegam perto de atingir metade do mercado.
“Estamos enfrentando a maior empresa de software de mundo que tem recursos ilimitados, mais de oito mil funcionários e podem se vangloriar de gastar meio bilhão de dólares em um mês para o marketing de Vista”, afirma Dotzler.
Do lado da Mozilla está também o principal antagonista da Microsoft na internet: o Google, que não apenas paga ao Firefox pelo uso do seu sistema de busca no browser (assim como também faz o Yahoo e outros), mas também ajuda a distribuir o software pelo Google Pack.
“Toda evolução acontece. Agora, é vez da internet. Relaciono sucesso pela maneira como uma empresa se assemelha com a web e o Google trabalha exatamente como a internet. O Google é a Microsoft da vez”, resume.
A comunidade
Mesmo com as contribuições (Dotzler se apressa em esclarecer que o pagamento começou a vir bem depois da decisão de usar os sistemas de busca), a Mozilla está longe de alcançar a verba milionária e as dezenas de engenheiros da Microsoft.
E é aí que entra a definição de Dotzler, repetida exaustivamente, sobre o funcionamento da Mozilla parecer com a internet.
Enquanto a MSDN exige uma taxa anual para que programadores certificados tenham acesso a cópias de testes de softwares, a comunidade Firefox não exige matrículas, pré-requisitos ou habilidades pontuais.
Por mais que uma pequena equipe coordene o desenvolvimento, a programação e os testes de cada nova versão do Firefox são realizados por cerca de 500 mil programadores e usuários de testes espalhados pelo mundo.
Uma das facetas do processo é sua maior segurança: ao invés de divulgar correções de software com um prazo fechado (como a Microsoft faz com seu pacote mensal de atualizações conhecido como Patch Tuesday), a própria comunidade se mobiliza para corrigir brechas de segurança e divulgar pacotes de correção (com o aval da Mozilla) o quanto antes.
Ao invés de restritas, todas as mudanças e propostas de alterações são públicas e passíveis de debates nas listas de discussão e wikis mantidas pela Mozilla para que a comunidade participe.
Versões de testes são oferecidas em servidores FTP abertos e não há qualquer mistério de marketing quanto ao lançamento dos próximos softwares: além do cronograma público, a Mozilla já oferece, por exemplo, as primeiras versões do Firefox 3, programado apenas para final do ano.
Para explicar melhor a motivação do meio milhão da legião de seguidores da Mozilla, Dotzler fala sobre os problemas que teve quando o taxista responsável por levá-los à Unicamp indicou um prédio no campus que seria o final da viajem. Não era.
Perdidos e atrasados na Unicamp, Dotzler e Batson caminharam pela universidade até encontrar um aluno – ironicamente, estudante de engenharia e fã do navegador. Por meio de um espanhol precário, o grupo achou a sala do encontro vazia, sem qualquer estrutura e sem o professor que deveria lhe receber.
Lá vai o engenheiro novamente buscar contatos na faculdade mais próxima e, após alguns minutos, localizar o professor, que os recebe afirmando que o encontro havia sido marcado com meia hora de antecedência para que o trio conversasse com calma.
Quase 20 horas após perder sua carona, a própria comunidade havia localizado a dupla em uma cidade do interior de São Paulo a tempo de encontrar dezenas de outros entusiastas.
“É sempre assim. Quando estive em Paris com minha mulher, um estranho reconheceu minha camiseta com o logo do Firefox e veio gritando do outro lado da rua. Falei que era da fundação e ele me apontou diversos lugares que estava há horas procurando”, relembra Dotzler. “Depois, simplesmente foi embora sem falar seu nome”.
Numa espécie de serviço ao consumidor (SAC) avançadíssimo, a Mozilla se define essencialmente não como um projeto fechado, mas como uma irmandade: reconhece-se os irmãos e todos, por meios bastante diferentes, são movidos pelo mesmo entusiasmo, algo o Dotzler define como “salvar a web”.
“Sempre que você fecha uma aba sem querer ou o navegador fecha por um problema sem que você tenha salvado seu trabalho, isto machuca a internet”, fala Dotzler, usando uma exagerada figura de linguagem. “Se você quiser se identificar como da Mozilla e levar CDs para uma LAN house, faça. Vocês são da Mozilla”, completa, em claro incentivo à militância digital.
Ao invés de reuniões fechadas com grupos de desenvolvedores certificados e anteriormente autenticados pela companhia, as reuniões feitas por Dotzler e Batson são marcadas por “um caos domesticado”: não há inscrições nem lugares marcados e as portas estão abertas para quem quiser entrar e contribuir com qualquer idéia.
Com uma verba de marketing restrita às viagens que fazem para conhecer aspectos regionais de cada país onde o Firefox avança, a divulgação planejada em cada uma destas reuniões globais recai sempre nas costas dos engenheiros ou entusiastas.
Foi assim, por exemplo, que a Fundação Mozilla estampou duas páginas inteiras do tradicional The New York Times no dia do lançamento do Firefox 1.0, em 2004. Segundo Asa, a meta inicial de coletar 100 mil dólares para a empreitada foi dobrada em três semanas graças à contribuição da comunidade pelo site SpreadFirefox.
Como retribuição, o nome dos 50 mil membros que participaram da doação foram estampados no anúncio, formando o logo do navegador com o panda vermelho circundando o globo terrestre em preto e branco.
É pelas mãos da comunidade também que o Firefox ganha passeatas com jovens fantasiadas em Tóquio, uma grande reprodução do seu logo em uma plantação em Oregon ou que quase 100 mil de blogueiros estampam os banners do navegador em seus diários na tentativa de convencer seus leitores.
Na noite anterior à entrevista, cerca de quinze pessoas bolavam estratégias para incentivar a adoção do Firefox no mercado brasileiro.
Eram Dotzler e Batson que organizavam o encontro listando possíveis melhorias do suporte do navegador no Brasil ou ações de marketing improvisado, distribuindo as tarefas conforma o interesse de cada um dos presentes.
Na pauta, distribuições de CDs em regiões de venda de eletrônicos, fabricação e distribuição local de camisetas da Mozilla, concursos de grafite e até mesmo práticas de marketing de guerrilha em programas de TV para aumentar o apelo do navegador entre os brasileiros.
Dotzler metralha os desenvolvedores com questões sobre maneiras de atingir o usuário médio brasileiro e fazendo piadas claramente inspiradas no estilo de vida norte-americano (“imagina pintar o logo do Firefox no corpo e sair correndo pelado em um jogo de futebol?”, brinca) e vai conseguindo respostas aos poucos. No fim, parece satisfeito pelas respostas que obteve. Colocá-las em prática, porém, é outro assunto.
O próprio desfecho para o comprometimento da comunidade passa longe dos coquetéis com grandes executivos ou brindes corporativos que povoam eventos para clientes.
“Muitas pessoas fizeram o Firefox e, se eu posso passar um tempo felicitando todas, ótimo. Se não rolar, você trabalha duro e pode achar que ninguém liga pra você se não há, no mínimo, alguém para dizer obrigado”.
A abordagem exageradamente humana integra uma visão de mercado da Mozilla que Dotzler sintetiza, junto à comparação com a internet, com um batido ditado nascido muito antes da grande rede.
“Estamos felizes em perder controle e deixar pessoas felizes com esta responsabilidade. Gostamos do caos. Diz o ditado que duas cabeças funcionam melhor que uma”. Imagine, então, 500 mil cabeças.